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XLIX
Não se pode dizer que o almoço no comboio tenha sido uma maravilha da arte gastronómica, mas considerando as circunstâncias não caiu mal no paladar dos viajantes; era um pulpo à galega com patatas bravas e um copo de Rioja.
"Bem bom, este polvo", observou Tomás enquanto trincava os tentáculos do pulpo. "Estava com medo que servissem paella."
Raquel atirou-lhe um olhar ofendido.
"Porquê? Tens alguma coisa contra a paella?"
O seu companheiro de viagem percebeu que tinha acabado de dar um passo em falso; não tinha sido ela que lhe havia servido uma paella no apartamento de Sesefia?
"Eu? Não, claro que não", apressou-se a esclarecer, embaraçado com a gaffe. "A paella é... é magnífica." Esperava ter sido convincente, mas não tinha a certeza de o ter conseguido. "Enfim, hoje apetecia-me comida do mar. Sabes como é, sou português e..."
Não chegou a terminar a frase, não era preciso; o sentido havia 315
sido compreendido. Baixou os olhos para o polvo e a seguir para o copo de vinho; parecia-lhe incrível que tivesse tanta fome. Ou, vendo bem, provavelmente o apetite era normal. Não tinha passado as últimas quarenta e oito horas a correr de um lado para o outro, submetido a stresse permanente e sem comer nada de jeito? Só um asceta ou um monge tibetano é que não teria fome.
"O euro", soltou de repente a espanhola. "Qual é o futuro do euro?"
Tomás engoliu o pedaço de tentáculo que havia meio minuto estava a mastigar como se fosse chiclete.
"Para perceber o futuro é preciso entender o passado", voltou a lembrar, a veia de historiador sempre presente. "O euro nasceu formalmente em 1999 e fisicamente em 2 002. Para poderem entrar na moeda única, os países tinham de cumprir os exigentes critérios orçamentais de défice e dívida estabelecidos no PEC, e logo aí começaram os problemas. Imagina que a economia é um automóvel. Para estar no euro, a economia dos países membros não pode ser um Fiat nem sequer um Mercedes. Tem de ser um bólide de Fórmula 1, entendes? Acontece que poucos estados estavam nessas condições, pelo que começou então uma inacreditável ginástica orçamental, com malabarismos sucessivos para se chegar a números equivalentes a competições de Fórmula 1. A Itália inventou um imposto único só para cumprir os critérios, por exemplo, e a França transferiu para o orçamento do Estado o fundo de pensões da France Telecom. A Espanha e Portugal também fizeram os seus truques
de
prestidigitação
para
fazer
desaparecer
despesa
inconveniente."
"Imagino que os Gregos tenham sido os piores..."
"Os Gregos eram tão maus que nem com batota conseguiram entrar no grupo inicial do euro. O seu padrão de comportamento económico sempre foi o de gastos desmesurados e expansão 316
irracional do estado, seguidos de crise, austeridade e incumprimento de dívida, um historial pouco recomendável para a nova moeda. A Grécia era um Mini Cooper pilotado por um perneta zarolho e queria competir no Grande Prémio da Alemanha com o Ferrari do Michael Schumacher."
"Alonso", corrigiu a espanhola com uma risada. "Fernando Alonso."
"Ou esse. O que importa perceber é que o défice e a dívida grega estavam absolutamente fora de controlo." Calou-se abruptamente, numa pausa dramática. "Mas eis que, ó milagre, a economia grega sofreu uma metamorfose espantosa entre 1999 e 2001: o défice desceu para um por cento!" Ergueu as mãos num gesto teatral. "Aleluia! Aleluia! Eis que se produziu o milagre! A Grécia cumpriu os critérios! O Mini Cooper caquéctico transformou-se de um dia para o outro num Fórmula 1 de ponta!"
Nova gargalhada de Raquel.
"Está-se mesmo a ver..."
"Então não está? A manipulação orçamental em Atenas assumiu proporções bíblicas, mas conseguiu o que se pretendia e a Grécia entrou enfim no euro. Para os países com economias mais fracas, como a Grécia, Portugal, Espanha e Itália, também designadas Club Med, estar no euro significava integrar o clube dos ricos. Encarou-se a moeda única como o culminar de um processo e não como o início de um desafio. Foi um erro trágico. O que os palermas dos governantes destes países não perceberam é que estavam na Fórmula 1
e tinham de competir a um nível elevadíssimo de igual para igual com economias super competitivas como a alemã. Uma vez no euro já não podiam desvalorizar a moeda para enfrentar os Alemães nem imprimir dinheiro sempre que estivessem aflitos. A única maneira de sobreviverem era fabricarem produtos que os outros quisessem a preços que os outros estivessem dispostos a pagar. Mais nada."
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"Não sei porquê, mas desconfio que não fizemos nada disso..."
"Claro que não. Os países do Club Med julgaram que tinham entrado de borla numa festa de arromba. E a verdade é que, de início, o euro foi mesmo uma festarola. Integrando uma moeda forte que o Banco Central Europeu apoiava com taxas de juro muito baixas, os países do Club Med descobriram que podiam contrair dívida a juros irrisórios para estoirarem o dinheiro como quisessem. Isto foi agravado pelo facto de que, em 2003, as próprias Alemanha e França violaram os limites ao endividamento estabelecidos pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento e nada lhes aconteceu. Se não se puniam uns, não se podia punir outros, não é verdade? O tiro de partida para o forrobodó foi dado. uma vez com as mãos agarradas ao filão, a periferia da zona euro desatou a pedir empréstimos. Os Portugueses para comprarem casas e fazerem férias e construírem auto-estradas para todas as povoações com mais de cinco habitantes, os Espanhóis e os Irlandeses para alimentarem as suas gigantescas bolhas do imobiliário, os Gregos para... bem, deve ter sido para fazerem moussaka."
Riram-se os dois.
"Pois, já percebi que foi um fartar vilanagem", observou Raquel.
"Confesso que na altura me admirava com o dinheiro que jorrava por toda a parte. Até parecia que crescia nas árvores e era só estender a mão e apanhá-lo..."
"No fundo, foi exactamente o que aconteceu. Mas convém lembrar que o crédito barato não constituiu um fenómeno exclusivo da zona euro. As baixas taxas de juros e o mercado desregulado dos derivados na América geraram grandes quantidades de dinheiro que alimentavam bolhas do imobiliário nos Estados Unidos e no Reino Unido. O que se passava é que esse dinheiro barato fluiu com grande facilidade para a periferia da zona euro, sendo usado de forma totalmente errada pelos sectores público e privado. Em 318
Portugal, por exemplo, o estado gastou o dinheiro emprestado em obras públicas onerosas e os privados em compra de casa própria ou a adquirir automóveis ou até em férias nas Caraíbas ou no Brasil.
Ninguém usou o dinheiro de forma reprodutiva."
"Pois, foi aquele período em que a toda a hora apareciam anúncios na televisão com os bancos a oferecerem empréstimos a juros baratíssimos para o que quer que fosse..."