"Nem mais", assentiu Tomás. "Tudo isso era dinheiro que os bancos da periferia iam buscar ao estrangeiro, nada era riqueza gerada pelos próprios países. Vários membros do Club Med consumiam todos os anos dez por cento mais do que produziam. Pior ainda, como estavam numa moeda forte e fizeram grandes aumentos salariais por razões eleitoralistas, os bens que produziam tornaram-se demasiado caros e ninguém Os queria comprar. De 1999 a 2009, Portugal aumentou os salários da função pública dezassete por cento, enquanto no mesmo período a Alemanha reduziu os salários reais mais de oito por cento. Nestas condições, os Alemães duplicaram as exportações nos primeiros dez anos do euro, sobretudo para os países da periferia. A zona euro dividiu-se entre credores e gastadores, exportadores e importadores, criando assim um desequilíbrio muito grave."
"Mas uma coisa dessas não era previsível?"
"Claro que era. O problema é que os governantes do Club Med, todos eles com cartão de sócio e quotas pagas no Clube dos Imbecis, resolveram fingir que nada disto estava a acontecer e optaram por viver no mundo da fantasia. Essa fantasia era sustentada pelo facto de que, mais do que económico, o euro sempre foi um projecto político."
"Pois, já contaste. Foi a forma inventada pela França de atar a Alemanha."
"Os economistas que trataram dos pormenores estavam plenamente conscientes dos enormes perigos encerrados pela criação de uma moeda única numa área heterogénea e sem estar submetida a 319
um poder central unificado, mas tinham esperanças de que, no plano económico, o euro constituísse uma espécie de catalisador da mudança nos países do Club Med. Essas esperanças revelaram-se uma ilusão. já Marx o dizia: a economia é a infra-estrutura de uma sociedade. O euro foi uma tentativa de impor um projecto político sem a infra-estrutura económica estar instalada. Não podia resultar."
"Mas resultou, Tomás", argumentou a espanhola. "Basta ver que durante anos correu tudo bem."
"O teste à solidez de uma moeda nunca é feito nos tempos bons, minha cara. A União Monetária Latina, a União Monetária Escandinava, o Cobra e o ECU correram muitíssimo bem nos tempos de prosperidade, mas entraram em colapso quando vieram as adversidades. Da mesma maneira, o euro correu bem enquanto o crédito estava barato e eram tudo rosas. Mas será que a moeda única resistiria a um abalo negativo da economia? O teste estava por fazer."
O olhar verde-turquesa de Raquel iluminou-se.
"A crise financeira de 2008 foi esse teste..."
"Com certeza", confirmou Tomás. "A queda do Lehman Brothers, como já te expliquei, desencadeou uma crise de confiança na banca internacional. Ninguém sabia quem estava na posse das securitizações de hipotecas insolventes e, como medida de precaução, os bancos deixaram de emprestar dinheiro uns aos outros, receando perdê-lo. O
crédito foi cortado e o dinheiro parou de jorrar para a Europa. Os bancos europeus ficaram sem dinheiro e também deixaram de emprestar, começando primeiro por cortar o crédito às economias emergentes do Leste da Europa, como os países bálticos, a Hungria, a Roménia, a Bulgária e a Ucrânia, e depois à periferia da zona euro.
Sem acesso ao dinheiro, ao fim de algum tempo as empresas desses países começaram a falir, atingindo os bancos a que deviam empréstimos e provocando um efeito dominó que se estendeu aos 320
países do centro. A Alemanha, a França, a Grã-Bretanha e outros países do centro europeu viram-se forçados a salvar os seus bancos da bancarrota, enquanto o FMI teve de ajudar a Hungria, a Islândia, a Bielorrússia, a Ucrânia e a Letónia. Como as empresas fechavam e as pessoas ficavam no desemprego, diminuíram as receitas dos impostos e aumentaram as despesas com subsídios de desemprego."
"Exactamente como em 1929."
"Pois, a contracção da economia mundial em 2008 e 2009 foi igual à contracção ocorrida entre 1929 e 1931." Levantou um dedo.
"Com uma diferença. Em 1929 os estados evitaram inicialmente intervir no processo. Um economista britânico, John Maynard Keynes, estudou a resposta ao colapso de Wall Street e concluiu que, numa época de retracção do mercado, cabe aos estados usarem os seus excedentes orçamentais e despejarem dinheiro na economia para criar procura e reactivar o consumo dos bens produzidos nesses países.
Keynes defendeu, por exemplo, que era melhor pagar a uma pessoa para abrir e fechar buracos do que deixá-la no desemprego, uma vez que, com dinheiro, ela pode gastá-lo a comprar produtos do país e assim reavivar a economia."
"Faz sentido..."
"Pois faz", concordou Tomás. "O que aconteceu foi que, tendo sido educados nas doutrinas de Keynes sobre como reagir a um colapso destes, os diversos governantes europeus e americanos decidiram seguir essa receita e anunciaram pacotes multimilionários para salvar a economia. Parecia uma competição, com cada país a dizer que ia derreter mais dinheiro que o outro. Até a Grécia e Portugal, que não tinham dinheiro para mandar cantar um cego, anunciaram pacotes de milhares de milhões de euros! Chovia dinheiro de todos os lados!"
"Mas isso não resultou..."
"Nem podia resultar! Keynes tinha previsto que os estados 321
usassem o excedente dos tempos bons para reactivar a economia nos tempos maus, mas a verdade é que não havia excedente nenhum.
Como o Club Med e outros países passaram os tempos bons a acumular défices, não sobrara dinheiro para usar em período de crise. Além do mais, Keynes foi muito claro em estabelecer que a injecção em massa de dinheiro público só deveria ocorrer em situações de emergência, mas os governantes passaram a aplicar essa solução a toda a hora. As economias tornaram-se viciadas nessa receita pseudokeynesiana, o que fez com que ela perdesse eficácia. É
um pouco como a droga, estás a ver? Se experimentares um bocadinho de droga, ela faz um efeito tremendo. Mas se continuares a usá-la, ela vai perdendo efeito até acabar por se tornar ineficaz.
Dar mais droga não resulta, desmamar é doloroso. O mesmo se passa com a receita económica pseudokeynesiana. Por fim, e decerto o mais importante, Keynes concebeu as suas soluções para mercados fechados e protegidos, como eram os da sua época, em que, ao dar dinheiro às pessoas, elas iam consumir produtos fabricados nos seus países, reactivando assim a economia doméstica. Mas o mundo mudou e as economias derrubaram as suas protecções e abriram-se.
Isto quer dizer que, quando o estado português ou espanhol pede dinheiro emprestado ao estrangeiro e o entrega aos seus cidadãos para reactivar o consumo, as pessoas vão aos supermercados e põem-se a comprar produtos importados."
"Ah, estou a perceber!", exclamou Raquel. "Isso quer dizer que essa solução keynesiana deixa de financiar a economia do país e passa a financiar a economia estrangeira, não é? Se assim é, o único efeito prático da injecção de dinheiro é o aumento do défice orçamental e do défice externo."
"Isso mesmo! Assim, quando esta crise rebentou, e inspirados em ideias keynesianas mal interpretadas e já desajustadas da nova ordem internacional de mercados abertos, os países decidiram endividar-se 322
ainda mais para enfrentar a emergência da dívida! Era como se uma pessoa corresse para o abismo e se convencesse que se salvaria se corresse ainda mais depressa! Ou seja, os governantes decidiram contrair dívida para combater a dívida, injectando dinheiro que imediatamente saía para o estrangeiro e montando desse modo um verdadeiro esquema piramidal que entraria inevitavelmente em colapso quando os emprestadores deixassem de emprestar!"