uma vivenda com piscina no Mónaco. Se isto fosse uma situação real, emprestavas-me?"
"Claro que não!", riu-se Raquel. "Dizia-te que tivesses juízo e fosses mas é trabalhar!"
"Pois foi isso justamente o que os investidores nos disseram."
Simulou um diálogo. "Querem dinheiro? Primeiro arranjem emprego e um rendimento fixo e depois falamos." Retomou o tom normal. "Com as calças rotas na mão, fomos a correr de mão estendida para a Alemanha a exigir que eles pagassem as nossas dívidas. Os Alemães ficaram especados a olhar para nós. Olhem lá, perguntaram eles, não leram a cláusula de no-bailout no tratado que assinaram? Não foram avisados de que são vocês que pagam as vossas dívidas? Porque não respeitaram os limites de dívida e de défice a que se comprometeram por escrito?"
Raquel arregalou os olhos.
"Madre mia, boas perguntas..."
"Então não eram? Os europeus em geral, e Os do Club Med em particular, estavam habituados à Alemanha do livro de cheques.
Assombrada pelas suas terríveis responsabilidades no matadouro da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto judaico, a Alemanha viveu décadas em expiação. Era preciso uma auto-estrada em Portugal? Os Alemães pagavam. Era preciso financiar as férias dos pobres na Grécia? Os Alemães pagavam. Era preciso um comboio de alta velocidade em Espanha? Os Alemães pagavam. A Alemanha usou o livro de cheques para se redimir do seu passado horroroso e prosseguiu essa política durante décadas e décadas. A França apontava o caminho político, a Alemanha cobria os custos." Cortou o ar com um gesto enfático. "Mas isso mudou."
"É isso que não percebo. Mudou porquê?"
"Porque a geração agora no poder na Alemanha não viveu a Segunda Guerra Mundial e não vê razão para expiar crimes 327
cometidos pelos seus antepassados. E porque, conforme receavam a Grã-Bretanha e a França em 1989, a reunificação alemã restituiu o sentimento de orgulho e a arrogância aos Alemães. A união das duas Alemanhas criou o maior país da Europa ocidental em população e economia, o centro de gravidade de todo o continente. Além disso, a reunificação foi um processo economicamente doloroso e os Alemães sabem bem o que lhes custou pagar para ajudar a antiga Alemanha comunista. Acabados de sair desse pesadelo, que lhes valeu uma crise económica até 2005, vieram agora dizer-lhes que também teriam de pagar para ajudar o Club Med a desenvencilhar-se do sarilho em que se meteu. Como era previsível, não acharam piada à brincadeira." Fez uma voz teatral. "Nós? Pagar? Paguem eles, que estiveram na festa!
Vão trabalhar, preguiçosos! A mama acabou!" Retomou o tom normal. "Ou seja, a Alemanha do livro de cheques já não existe."
"Mas, ó Tomás, achas que precisávamos mesmo da ajuda externa?"
"Então não precisávamos?" O historiador fez um gesto no ar, como se tivesse um objecto rectangular diante dele. "Imagina que a economia de Portugal ou de Espanha é uma caixa multibanco com cem euros no interior. O que se estava a passar é que em cada ano saíam dez euros da caixa. Para os substituir, e uma vez que não podíamos imprimir dinheiro, pedíamos emprestados dez euros aos investidores.
Quando os investidores deixaram de dar dinheiro, ele continuou a sair da caixa mas deixou de entrar. Ficámos com noventa euros no multibanco e no ano seguinte seriam oitenta euros e depois setenta. Faltava dinheiro à economia, percebes? Tirávamos dinheiro da caixa para pagar as importações e não imprimíamos dinheiro para o repor nem ninguém nos emprestava." "Então como se resolveu isso?"
"Para evitar o colapso imediato do euro, e depois de muito resmungarem, os Alemães lá perceberam também que os seus bancos, que tinham emprestado imenso dinheiro aos países periféricos para que entre outras coisas eles comprassem produtos alemães, estavam 328
totalmente encravados e entrariam na falência se houvesse um default imediato e generalizado do Club Med. Por isso acabaram por ceder e autorizaram que o Banco Central Europeu violasse o seu mandato e começasse a comprar dívida do Club Med. Como nenhum investidor nos queria emprestar nem um tostão, porque sabia que nunca mais veria o dinheiro, foi o Banco Central Europeu que se chegou à frente e se pôs a comprar as dívidas que mais ninguém queria comprar. Desde então que os países da periferia vivem à conta do Banco Central Europeu, percebes?" Meteu as mãos nos bolsos e puxou-os vazios para fora. "Se não fosse o BCE, não havia salários, nem pensões, nem subsídios para ninguém."
A revelação deixou Raquel por momentos em silêncio, a meditar no que acabara de ouvir.
"Olha lá, agora como saímos disto?"
Como se estivesse pouco à vontade, Tomás mudou de posição.
Não era claro se o desconforto que o seu rosto reflectia se devia à postura anterior no assento ou à pergunta.
"O que me estás verdadeiramente a perguntar é se os países do Club Med, incluindo Portugal e a Espanha, vão permanecer no euro", observou ele. "E também se o euro irá ou não acabar."
"Sim, no fundo é isso", confirmou a espanhola. "O que vai acontecer?"
O historiador desviou o olhar para a janela e viu prédios a aparecerem nos arredores da linha férrea e a longa faixa azul do mar estender-se ao fundo, pintalgada por pontos brancos que mais não eram do que barcos de recreio e à vela a deslizarem pelas águas mansas do Mediterrâneo.
"Estamos a chegar a Barcelona", constatou. "Vou então revelar-te o futuro do euro..."
"Ah, ainda bem!"
"… mas só mais logo."
329
L
Um rumor de excitação percorreu a mesa depois de Magus ter quebrado com um grito o seu mutismo pensativo. Todos os olhares permaneciam colados ao chefe, ansiosos e subservientes, como se ele fosse o Sol imenso e os que o rodeavam não passassem de planetas minúsculos.
"Já sabe, poderoso Magus?", quis saber Balam com voz submissa.
"O que temos de fazer?"
O dirigente máximo projectou um gesto na direcção do computador portátil pousado a meio da mesa.
"Vamos mandar-lhe um e-mail."
A declaração foi tão inesperada que desencadeou uma cascata de gargalhadas à volta da mesa. Todos pareciam divertidos com o que acabavam de escutar.
"Imparável, poderoso Magus", adulou o chefe da segurança.
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"Hoje está verdadeiramente imparável! O seu sentido de humor é extraordinário! A graça com que..."
O chefe manteve o semblante fechado.
"Não é piada", atalhou num tom irritado, desagradado com a sabujice oleosa dos seus subordinados. Voltou a indicar o portátil.
"Passem-me aí o computador."
As risadas pararam tão depressa como tinham começado quando toda a gente percebeu que a sugestão era séria. Um dos esbirros, o mais ágil em informática, levantou-se de imediato, pressuroso, e levou-lhe o computador. Magus fez-lhe sinal de que se sentasse ao lado dele e o homem obedeceu. Ligou a máquina com gestos rápidos e, entrando no sistema, foi direito ao ficheiro com o perfil dos alvos e seleccionou a pasta de Tomás. A página materializou-se no ecrã e revelou o rosto do historiador no canto superior direito e toda a informação ao lado e em baixo.