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"Está aqui", anunciou o homem da informática, ansioso por agradar ao chefe. "Este é o endereço de e-mail dele." Magus tomou nota numa folha de papel.

"Agora entra-me na caixa de e-mail do Filipe Madureira." "Quem?

Aquele que..."

"Sim, esse. Entra."

O especialista em computadores mudou para o gmail e, sempre teclando com grande velocidade, digitou o nome de utilizador e a password da página do amigo de liceu de Tomás. Instantes depois a página ficou disponível.

"Já está, poderoso Magus. O que faço agora?"

O chefe nem se deu ao trabalho de responder. Com maus modos, puxou o portátil para si e, com o rato, carregou no botão com pose mau. A página para escrever uma mensagem ficou disponível. Teclou o endereço electrónico de Tomás e procurou Balam com o olhar.

"Tu falas português, não falas?"

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"Sim, poderoso Magus. Vivi alguns anos no Brasil, como sabe."

Obedecendo a um gesto imperial do cabecilha do grupo, o homem da informática saltou do lugar e Balam foi ocupá-lo. O responsável pela segurança agarrou o portátil e entrou no corpo do e-mail para redigir a mensagem. Desviou o olhar para o chefe e ficou a aguardar ordens.

"Ora escreve aí", indicou Magus. "Olá, Tomás." Fez uma pausa enquanto o subordinado teclava o texto em português. "As notícias da minha morte foram ligeiramente exageradas." Nova pausa, preenchida pelo matraquear do teclado por parte de Balam. "Só agora me deixaram usar o computador." Mais uma pausa. "Fiquei um dia em coma, mas já estou a recuperar e esta manhã saí dos cuidados intensivos." Ainda uma pausa. "Lembrei-me de uma coisa crucial que me esqueci de te dizer."

Esperou alguns segundos enquanto o chefe da segurança traduzia a mensagem. "É imprescindível que vás urgentemente a Florença." Pausa de novo. "Apresenta-te amanhã à meia-noite nos Uffizi e pergunta por Mefistófeles." Pausa. "Virá alguém que te ajudará a safares-te desta confusão." Última pausa. "Um abraço do teu amigo Filipe."

Balam acabou de redigir a mensagem e releu o texto em voz alta, traduzindo-o de modo que o chefe se certificasse de que estava tudo bem. Quando terminou pegou no rato e assentou a seta sobre o send.

Antes de carregar, voltou-se para o líder.

"Envio, poderoso Magus?"

O chefe sorriu, satisfeito consigo próprio.

"Força."

O responsável da segurança carregou no botão direito do rato e a mensagem foi enviada. Um clamor de satisfação ergueu-se na sala, com as congratulações bajuladoras a jorrarem na direcção de Magus.

A armadilha estava estendida.

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LI

Um mar de gente enchia Las Ramblas, em plena baixa de Barcelona, caminhando com o propósito de chegar a um destino ou deambulando distraidamente enquanto espreitava as vitrinas. Como o trânsito que subia a grande avenida parecia não avançar, Tomás impacientou-se e estendeu o braço para a frente de modo a tocar no ombro do taxista.

"Deixe-nos aqui", disse por prudência em português, consciente de que nem todos os catalães gostavam de ouvir castelhano. "Fazemos o resto a pé."

Os dois passageiros apearam-se na esquina do Carrer de la Boqueria e Raquel, que conhecia bem a cidade, fez um gesto para o ponto mais alto da avenida.

"A Praça da Catalunha é lá em cima."

"Então vamos."

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Subiram Las Ramblas em passo determinado e apenas pararam numa gelataria para comprar dois gelados de chocolate e morango; tinham fome e uma certa gula por algo doce que lhes desse energia.

Depois retomaram o caminho e, alguns minutos volvidos, chegaram de facto à Praça da Catalunha. O trânsito era imenso e enchia o enorme largo. Meteram pela esquerda e entraram no grande edifício da FNA.

"Que raio de altura para comprar livros", protestou a espanhola. "De que estás à procura?"

"Não é de livros", retorquiu Tomás, dirigindo-se direc amente à t

secção de computadores. "Quero comprar um portátil."

Raquel arregalou os olhos, espantada.

"Para quê?"

"Preciso de contactar o lar da minha me", explicou. "Se usar um telefone fixo, eles vão perceber que estamos em Barcelona. Se usar um telemóvel, podem localizar-nos por GPS. Só me resta o computador."

"Porque não usas um cibercafé?"

"Porque os tipos iam ver o IP de onde a mensagem foi enviada e perceberiam que estávamos em Barcelona."

A agente da I nterpol bateu com a palma da mão na própria testa.

"Ah, pois! Tens razão!", exclamou. "Lá me esquecia da porcaria do IP."

Os portáteis estendiam-se por duas longas estantes. Depois de inspeccionar os vários aparelhos, Tomás acabou por optar por um computador minúsculo de baixo preço e bateria duradoura; a placa de venda falava em sete horas de bateria e acesso a Wi-Fi.

"Este é perfeito."

A Calle Montsió era uma ruela estreita por onde só passavam peões, tão discreta que pareceu a Tomás o local adequado para se instalarem e ligarem a Internet. Meteram por uma porta em arco 334

que se abria à esquerda e refugiaram-se no Eis Quatre Gats, um restaurante típico com ar de tasca, sombrio e de luz amarelada.

Escolheram um lugar no salão, junto às janelas foscas e o mais longe possível da porta.

"Que pontaria, Tomás!", disse Raquel, apreciando a decoração e as fotografias antigas emolduradas nas paredes. "Sabes onde estamos?"

"No restaurante que Picasso frequentava", respondeu o historiador. "Porquê?"

A espanhola riu-se e deu-lhe uma palmada no braço. "És impossível!", repreendeu-o de uma forma benigna. "Às vezes penso que sabes tudo..."

"Tudo não direi. Mas tive de estudar História da Arte e Picasso era incontornável. Este restaurante tornou-se o centro do movimento modernista."

O empregado aproximou-se da mesa e estendeu-lhes a ementa.

Raquel pegou no grande caderno e, antes mesmo de consultar os pratos, voltou a capa do menu na direcção do seu companheiro de viagem e exibiu o desenho da fachada do Els Quatre Gats mostrando um homem de cinzento sentado com uma bengala a uma mesa de madeira na esplanada.

"Estás a ver?", disse. "O desenho da capa foi feito pelo próprio Picasso."

Consultaram os pratos. Tomás pediu em catalão um arrós caldós de llamàntol enquanto Raquel se ficou em castelhano por um entrecot de vaca. Quando o empregado se afastou, o historiador assentou o portátil sobre a mesa e ligou-o. Logo que a ligação à Internet ficou estabelecida, procurou o site do lar e identificou o endereço electrónico.

A seguir entrou na sua própria conta. Tinha muitas mensagens por abrir. Percorreu-as com os olhos; a esmagadora maioria era lixo.

Naquela sucessão de mensagens irrelevantes identificou um e-335