mail da faculdade que abriu de imediato; tratava-se da derradeira folha de vencimento a indicar que o salário fora enviado para a sua conta, à qual não tinha acesso por decisão da polícia ou de qualquer outra entidade estranha. Reconheceu a seguir alguns e-mails de amigos e de colegas da faculdade. Abriu dois. Um deles questionava-o sobre as notícias de que a polícia o procurava por homicídio, o outro era de um professor do departamento de História a manifestar-lhe a sua solidariedade. Seria pelo despedimento ou pelo caso da polícia?, interrogou-se; a mensagem não o esclarecia.
Voltou ao inbox e percorreu de novo com os olhos as mensagens ainda por abrir.
Congelou.
"Que é isto?"
A pergunta foi formulada com tal choque na voz e com tamanha estupefacção estampada no rosto que inquietou Raquel.
"Que se passa?", inquiriu ela. "Aconteceu alguma coisa?" "O
Filipe!", exclamou Tomás, ainda incrédulo. "Tenho aqui uma mensagem do Filipe!"
"O quê?"
Colaram ambos os olhos ao ecrã do portátil; ali estava, no inbox, a mensagem por abrir de Filipe Madureira. Sem perder tempo, Tomás entrou nela e ambos devoraram o conteúdo a dar conta do coma e do encontro na meia-noite do dia seguinte nos Uffizi para falar com o tal Mefistófeles.
"O Filipe está vivo!", exultou Tomás, virando-se para a espanhola.
"Vivo!"
Abraçaram-se os dois para festejar a notícia; tudo aquilo lhes parecia incrível, dava a impressão de um filme de Hollywood com final feliz.
"Ainda me custa acreditar!"
O olhar do historiador regressou ao ecrã para se certificar de que 336
lera bem o e-mail.
"Mas... eu vi-o morrer nos meus braços!", interrogou-se. "Além disso houve notícias na televisão e nos jornais a dizer que eu era procurado pelo homicídio do Filipe. Até a Interpol recebeu uma nota da polícia portuguesa a dar conta do caso."
"Viste-o morrer nos teus braços?", devolveu Raquel. "Às vezes o estado de coma confunde-se com a morte. Quanto às notícias, devem ter sido os nossos perseguidores que plantaram tudo isso. É costume a polícia inserir na imprensa notícias falsas para ludibriar os suspeitos que procura. Trata-se de uma prática perfeitamente normal. Os tipos querem deitar a mão ao tal DVD e simularam a morte do Filipe para conseguirem o que queriam."
Sentindo um peso sair dos ombros, Tomás respirou fundo. "Ufa!
Que alívio", suspirou. "Ainda bem que ele está vivo! Ferido, mas vivo!
Valha-nos isso!"
Concentraram-se mais uma vez na mensagem que tinham acabado de abrir, desta feita atentos não ao facto de o amigo comum dar notícias e estar vivo, mas às instruções.
"Ele quer-nos em Florença", observou Raquel depois de reler a mensagem. "Amanhã." Virou-se para o seu companheiro de viagem.
"Parece que vamos ter de alterar o nosso destino..."
O historiador deitou a mão ao bolso e extraiu dois bilhetes de comboio que adquirira na estação de Atocha, em Madrid.
"O nosso destino sempre foi Florença", revelou, com um : sorriso triunfal. "Esta mensagem apenas confirma aquilo que eu já suspeitava."
Incrédula, a espanhola verificou os bilhetes adquiridos horas antes. As indicações impressas confirmavam que iam de facto apanhar um comboio que saía nessa noite da estação de Barcelona com destino a Florença. Chegariam pela manhã.
"Florença?", admirou-se, levantando os olhos e fitando Tomás.
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"Nós íamos para Florença? A que propósito?"
"Lembras-te quando esta tarde estávamos no apartamento da tua amiga? Na altura tinhas a televisão ligada e dava o noticiário. Uma das notícias era que começava amanhã a sessão preliminar do Tribunal Penal Internacional sobre os crimes contra a humanidade que conduziram a esta crise. A informação ficou-me às voltas na cabeça, até que me lembrei que o Filipe me tinha dito que a última vez que tinha tomado banho fora em Itália. Isto só podia significar que havia escondido aí o DVD."
"Está bem, mas como chegaste a Florença?"
"Pela notícia da televisão. O conteúdo do DVD escondido em Itália relaciona-se com os crimes da crise, o TPI reúne-se em Florença para investigar os crimes da crise. É evidente que o Filipe guardou o DVD na mesma cidade onde o Tribunal Penal Internacional irá conduzir o processo, não te parece?"
Raquel voltou a abraçá-lo.
"Brilhante!", exclamou. "És realmente brilhante!"
Como se uma força invisível os atraísse, colaram os lábios num beijo, mas sentiram uma presença ao lado e viraram-se; era o empregado que trazia o arroz de lagosta e o entrecosto de vaca e os fitava com uma expressão desaprovadora por vê-los em cenas daquelas no meio do restaurante. Apartaram-se com relutância e deixaram que ele pousasse os pratos.
Quando o empregado se afastou, Tomás voltou a sua atenção de novo para o ecrã e releu a mensagem. Depois carregou no reply e redigiu a resposta.
Olá, Filipe.
É óptimo saber que estás vivo, rapaz! Estou com a tua amiga Raquel e nem imaginas o que temos passado à tua custa, meu grande camelo!
Fingiste que morrias e deixaste-nos uma bela prenda nas mãos, hem? És um ordinário!
338
;-)
O criptograma está bem apanhado, sim senhor. Ia matando a cabeça para o decifrar! Fez-me lembrar os nossos tempos no Liceu Afonso de Albuquerque, lá em Castelo Branco. Lembras-te das nossas charadas?
Lá estaremos nos Uffizi amanhã à meia-noite. A coisa está difícil e precisamos mesmo de ajuda. Espero que esse Mefistófeles (que raio de nome o tipo arranjou! — deve ser alcunha, não?) resolva esta maldita embrulhada. Além dos rapazes que te balearam, temos a polícia à perna. Um pesadelo. Depois conto-te.
Um abraço dos teus amigos, Tomás e Raquel.
Deixou a espanhola ler a mensagem e, depois de ela fazer sinal com a cabeça a aprovar, carregou no send e o e-mail foi enviado.
"Esse criptograma", murmurou Raquel. "O que diz ele?"
Tomás saiu do seu endereço electrónico e desligou o computador. Enquanto esperava, levantou os olhos para a agente da Interpol e sorriu.
"O sítio exacto onde se esconde o DVD", respondeu.
"É isso o que revela o criptograma."
Baixou de novo o olhar para o portátil e preparou-se para escrever uma segunda mensagem, esta destinada à directora do lar. O
problema da mãe era outra prioridade sempre presente na sua mente.
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LII
O comboio partiu perto das onze da noite da estação de Sants com destino a Roma e com paragens consecutivas ao longo do caminho, incluindo Florença. O itinerário seguia a linha de costa do Mediterrâneo até Itália, mas, e como era noite cerrada, não havia qualquer possibilidade de apreciarem a paisagem.
"Esta viagem vai ser uma estucha", queixou-se Raquel, ajeitando-se no assento e preparando-se para muitas horas de monotonia. "Se era para viajar durante toda a noite não podias ao menos ter comprado bilhetes nos beliches? Sempre conseguíamos dormir e...", piscou o olho verde, "...fazer mais alguma coisinha."
Tomás riu-se.
"Sua marota, pensas que não pensei nisso?", perguntou com uma 340