Mais uma pausa. "Fico contente por teres decifrado o criptograma, Tomás." Ainda uma pausa. "Belos tempos, o Liceu Afonso de Albuquerque, hem?" Outra pausa. "Hoje estou cheio de dores e mandaram-me dormir." Última pausa. "Um abraço do Filipe."
"Excelente, poderoso Magus", elogiou o subordinado quando concluiu o texto. "Se me permite, este pormenor do liceu é a cereja em cima do bolo. Uni toque de génio."
Magus ronronou com agrado; partilhava a opinião. Releram a mensagem e no final o chefe aprovou.
"Manda -a."
"Sim, poderoso Magus."
Obediente, Balam carregou no send e enviou o e-mail. Acto 357
contínuo, desligou o computador, pegou nele e dirigiu-se à porta para sair, mas o chefe travou-o no momento em que abandonava o quarto.
"Temos de tratar dos pormenores da recepção aos dois pombinhos", disse. "Amanhã quero-te aqui no quarto, ouviste?"
"A que horas?"
"Oito da manhã em ponto". Fez uni gesto a indicar o portátil que o seu esbirro levava nas mãos. "E não te esqueças de identificar a origem desse e-mail."
"Sim, poderoso Magus."
A porta fechou-se e Magus atirou um olhar lúbrico para a cama.
A loura vaporosa gemia baixinho com as dores. Como habitualmente, aquilo excitou-o. Deixou o roupão cair na alcatifa, foi buscar o chicote e, nu e erecto de desejo, abeirou-se da cama.
"Anda, minha cabra", rosnou, desenrolando o chicote.
"Prepara-te para o segundo assalto."
358
LIV
A noite não foi especialmente agradável, nem alguma vez Tomás alimentou ilusões de que o seria. Dormir sentado não lhe parecia propriamente a experiência mais agradável, mas, considerando as circunstâncias, acabara por repousar melhor do que pensava ser possível. Tivera um sono agitado e havia acordado várias vezes, claro, sobretudo quando a composição se imobilizava numa estação, mas em todas as ocasiões acabara por conseguir voltar a adormecer, embalado pelo balouçar ritmado da carruagem.
Excepto da última vez. O comboio acabara de arrancar da estação de Génova e lançara-se ao longo da costa da Ligúria. O Sol nascera pouco antes e, apesar de ainda baixo, reflectia-se numa miríade de luzes relampejantes nas águas adormecidas do Mediterrâneo. Ainda entorpecido 359
a hora tão matinal, Tomás percebeu que dessa vez não seria capaz de voltar ao sono.
Levantou-se e foi ao quarto de banho aliviar a bexiga. Todos dormitavam na carruagem, incluindo os casalinhos e as freiras, os corpos estendidos nas posições mais incómodas, as cabeças penduradas de formas bizarras. O corredor estava pejado de pessoas enfiadas em sacos-cama, pelo que teve de saltitar pelos espaços vazios de modo a não pisar ninguém.
Quando minutos mais tarde regressou ao seu lugar, deu com Raquel a espreguiçar-se.
"Olá", cumprimentou-a com um sorriso. "Dormiste bem?"
A espanhola ainda esticava os braços.
"Nem por isso", resmungou ela. "E tu?"
"Não foi mal de todo."
"Ay, coo!", protestou Raquel com voz de bagaço. "Que inveja tenho!
Só consegui pregar olho aí pelas três da manhã."
"Não te podes queixar muito. Sempre que acordei e olhei para ti dormias que nem um anjinho."
Ela riu-se.
"Lá isso é verdade."
A agente da Interpol pôs-se de pé e seguiu para o quarto de banho com o seu saco. Conhecendo as mulheres, o português percebeu que ela iria gastar algum tempo a arranjar-se. Recostou-se no seu assento e ficou a contemplar a paisagem. A seguir levantou-se e tirou o computador do saco que guardava no espaço para a bagagem, sobre os assentos. Ligou-o e ficou a aguardar.
Minutos volvidos, o comboio deu entrada na estação de La Spezia. Tomás verificou] se ali na estação haveria ligação à internet. O
sinal de Wi-Fi deu positivo. Sabia que tinha pouco tempo, pelo que foi directo ao seu endereço electrónico e inspeccionou o inbox. Ainda não havia resposta do lar; isso não o preocupou, no fim de contas era 360
ainda cedo. Para compensar deu de caras com um novo e-mail de Filipe.
Carregou na linha e abriu a mensagem.
Leu-a três vezes, indeciso em relação ao que fazer. Ainda considerou a possibilidade de responder, mas o comboio voltou a pôr-se em movimento e ele percebeu que a todo o instante iria perder a rede de Wi-Fi. Desligou o computador portátil e devolveu-o ao saco guardado por cima do assento.
"Tiveste saudades minhas?"
Era Raquel que regressava depois de ter feito a toilette; vinha linda, os lábios pintados de carmesim, o cabelo arranjado e os olhos luminosos.
"Ena, que brasa!"
A espanhola girou sobre si mesma para exibir as suas formas.
"Estou, não estou?" Inclinou-se sobre Tomás e ofereceu-lhe o pescoço. "E o cheirinho?"
O perfume doce invadiu-lhe as narinas.
"Ah, uma maravilha!"
Raquel sentou-se no seu lugar e, pestanejando exage-radamente, respirou fundo e pousou as palmas das mãos no peito.
"Sabes, sonhei contigo..."
"A sério?"
"É verdade", confirmou ela. "Sonhei com aquilo que me contaste ontem à noite."
O historiador teve de se concentrar e, ao lembrar-se do que haviam dito, esboçou um esgar de enfado.
"O quê? A conversa do euro?"
"Pois é, sempre achei que o euro era uma maravilha para a economia", confessou ela. "Mas quando me disseste que isso não é verdade fiquei em estado de choque, acredita. Como é tal coisa possível?"
"Eu não disse que o euro não era uma maravilha", corrigiu Tomás.
361
"Limitei-me a rectificar a tua observação de que o euro ajudava o crescimento económico, só isso."
Raquel fez um gesto rápido com a mão, como se a resposta não passasse de um jogo semântico.
"Bueno, é a mesma coisa. O euro não ajuda as nossas economias a crescerem?"
"Não, segundo os números."
A espanhola manteve uma expressão de cepticismo no rosto.
"Ai não? Então o que dizem eles?"
Tomás suspirou. Não lhe apetecia retomar a conversa. Era cedo, sentia uma certa fome e tinha outras coisas em que pensar, mas percebia a curiosidade e até o entusiasmo que ela manifestava e não teve coragem de fugir à conversa.
"Está bem, vamos então ver isso."
Raquel ergueu-se e espetou-lhe um beijo quente na cara. "Gracias, cariño!"
"Comecemos, a título de exemplo, por ver o que aconteceu à economia de Portugal desde o nascimento do euro", propôs. "Com o início da moeda única, as taxas de juro caíram para valores irrisórios e, vendo o dinheiro tão barato, toda a gente se endividou. Estado, empresas e famílias foram buscar o dinheiro aos bancos e puseram-se a gastar como malucos. Em 2000 a dívida externa líquida de Portugal era de quarenta e quatro mil milhões de euros, equivalentes a trinta e oito por cento do PIB, e em 2010 já era de cento e oitenta e cinco mil milhões de euros, equivalentes a cento e nove por cento do PIB. Ou seja, a dívida aumentou doze mil milhões de euros por ano! Qualquer dona de casa percebe que Uma evolução destas é insustentável. Mas como os nossos governantes são burros que nem portas, ou mais provavelmente criminosos diplomados, deixaram andar. Os manuais explicam que, em circunstâncias destas, o estado deve reduzir as despesas ou aumentar os impostos para diminuir a despesa privada 362