ou uma mistura dos dois, mas aqueles camelos, com medo de perder votos, fizeram exactamente o contrário."
"Então a culpa não é do euro..."
"Não é de facto do euro", reconheceu o historiador. "Mas a moeda única, com as suas taxas de juro baixas, criou as condições para este descalabro. A má governação fez o resto."
"Pois, tens razão."
"Agora vejamos o desemprego", prosseguiu. "A taxa de desemprego em Portugal em 2000 era de quatro por cento. Em 2011, ano da chegada da troika, estava já nos catorze por cento. Ou seja, o euro não ajudou a combater o desemprego."
"Coño!", praguejou ela. "E o crescimento económico? Qual o impacto do euro no crescimento económico?"
"Uma
desgraça",
respondeu
Tomás.
"O
crescimento
económico em Portugal em 1998 era de cinco por cento."
"Não é assim tão mau..."
"Isso foi no ano antes de nascer o euro", notou o historiador.
"A moeda única apareceu em 1999 e, a partir daí, foi uma miséria.
De 1999 a 2009, ano em que começou a crise das dívidas soberanas, a economia portuguesa cresceu a uma taxa média anual de um vírgula dois por cento, sempre em plano descendente com o avanço da década e em divergência com o resto da Europa. Foi o pior crescimento anual médio do país desde a Primeira Guerra Mundial."
Raquel abanou a cabeça, ainda a digerir estes números.
"Dios mio!", murmurou. "Não imaginava que tivesse sido assim tão mau. Isso deveu-se mesmo ao euro?"
"É difícil ter a certeza. O período do nascimento do , euro coincidiu com o crédito barato que vinha da América, com a integração dos países do Leste da Europa na União, . com a adesão da China em 2001 à Organização Mundial do Comércio e com o maior envelhecimento da população, factos que pressionaram negativamente 363
a economia europeia em geral e a de Portugal em particular.
Considero até que o mais importante destes factores tenha sido a entrada da China no mercado global, que conduziu a uma assustadora desindustrialização do Ocidente. Mas todos estes acontecimentos eram do conhecimento público e os diversos governos, e neste caso os portugueses, deviam ter actuado para enfrentar os desafios que aí vinham. Nada fizeram, com medo de perderem os seus ricos votinhos. Os governantes portugueses foram criminosamente lapsos na preparação do país para os desafios do euro. Os economistas tinham avisado que a perda da moeda nacional, e consequente impossibi-lidade de proceder a desvalorizações que desencorajassem as importações e fomentassem as exportações, obrigava a reformas estruturais que criassem flexibilidade laborai. Nada foi feito. Pior ainda, em Portugal os governos puseram-se a aumentar os salários acima da taxa de crescimento económico. Enquanto a economia crescia entre 1999 e 2009 a uma taxa média anual de um vírgula dois por cento, no mesmo período os salários da função pública cresciam a uma taxa média anual de um vírgula sete por cento, o que significa que parte desses aumentos não resultava de efectivo crescimento da riqueza do país, mas de empréstimos contraídos no exterior. Como os salários cresceram mais do que a economia, os produtos portugueses tornaram-se mais caros e, consequentemente, ainda menos atractivos no estrangeiro.
Nestas condições, a economia portuguesa era um desastre à espera de acontecer."
"Sim, mas qual o contributo do euro para esse desastre?"
"Olha, Raquel, desde que nasceu o euro correu tudo mal a Portugal", sublinhou o historiador. "O crescimento económico abrandou, o desemprego disparou, a dívida ficou descontrolada, a competitividade caiu. O euro até pode não ter culpa, mas o facto é que não nos protegeu." Levantou o dedo, como se tivesse algo mais a dizer.
"Além disso, os modelos desenvolvidos pelos economistas mostram que 364
Portugal teria crescido pelo menos mais meio ponto em média anual do que cresceu no período de 1999 a 2009 se estivesse fora do euro, e estaria em convergência com o resto da Europa. Teria, é certo, sido mais abalado pela crise financeira, tal como aconteceu com a Islândia e os países bálticos, mas a recuperação também teria sido muito mais rápida." Afastou os braços e todo o seu corpo pareceu formar uni grande ponto de interrogação. "O que ganhámos nós afinal com a moeda única? Será que alguém me pode explicar?"
A espanhola parecia pensativa, tentando enumerar as vantagens.
"Bem... podemos viajar sem trocar dinheiro, o que é bem agradável. Há também a credibilidade da moeda a considerar. O
euro é muito mais credível do que a peseta ou o escudo."
"É verdade. Mas não achas que isso é pouco, sobretudo quando comparado com os inconvenientes?"
Raquel mordeu o lábio inferior.
"Talvez", admitiu. "De qualquer forma, apenas falaste no caso português. A situação é com certeza diferente nos outros países da zona euro..."
"O caso português, e ao contrário do que pensas, é típico. Onde eu disse 'Portugal' podes ouvir, com diferentes nuances, o nome de qualquer país do Club Med. É certo que a Espanha registou neste período um crescimento interessante, mas isso nada teve a ver com um aumento da produtividade. O crescimento espanhol foi essencialmente sustentado pela dívida contraída para alimentar a colossal bolha do imobiliário e os gastos nas regiões. Uma vez interrompido o fluxo de dinheiro do estrangeiro, a bolha rebentou, os bancos e os orçamentos regionais entraram em colapso e a economia espanhola precipitou-se na crise. Da Grécia nem vale a pena falar, toda a gente já percebeu o desgoverno do país. O governo grego usou o dinheiro que vinha do exterior para contratar pessoas para trabalhos inexistentes. Derreteram assim o dinheiro." Mudou de 365
posição no assento. "Há, porém, um caso interessante. A Irlanda."
"Esse não é do Club Med..."
"Pois não, mas é um país periférico e tem uma história ilustrativa. Quando o governo irlandês cortou os impostos das empresas para doze e meio por cento, a economia disparou. Todos queriam investir na Irlanda! Em 1993, ano em que o imposto foi reduzido, o crescimento económico do país estava nos dois e meio por cento. Em 1997, apenas quatro anos depois, tinha cavalgado para cima dos dez por cento."
"Joder!", pasmou-se Raquel. "A sério?"
"A Irlanda entrou no euro em velocidade de cruzeiro, as finanças públicas em ordem e a inflação controlada. O euro, no entanto, trouxe-lhe taxas de juro muito baixas, que alimentaram uma gigantesca bolha do imobiliário. Em resultado disso, a dívida total do país relativamente ao PIB mais do que duplicou de 2001 a 2008.
Para que percebas melhor o que aconteceu, basta veres que, em cada oito euros que circulavam no país, a Irlanda tinha criado apenas um e pedido emprestados os restantes sete. Quando os bancos alemães deixaram de emprestar dinheiro, foi o caos neste país que até ao nascimento da moeda única ia tão bem." Cruzou os braços, como se desse por terminada a sua argumentação. "Conclusão, o euro revelou-se uma catástrofe total para os Irlandeses..."