Todos os edifícios de Rer são fantasticamente maciços, com fundações profundas, à prova d’âgua e das intempéries. No inverno, o vento que sopra nas planícies liberta a cidade da neve, mas quando há uma nevasca, ela se acumula nas ruas e não limpam nada, pois as ruas praticamente desaparecem. Usam, então, os túneis de pedra ou abrem túneis temporários através do gelo. As casas ficam como que submersas, apenas os telhados fazem protuberâncias nesse lençol branco e portas-janelas são instaladas sob os beirais, ou no próprio teto, como janelas de águas-furtadas, ou lucarnas.
O degelo é a pior época nesta planície cortada por muitos rios. Os túneis se transformam em esgotos de água e o espaço entre os edifícios vira lagos ou canais. Por eles circula, em botes, a população de Rer, quebrando com os remos a remanescente crosta de gelo. E sempre, tanto no inverno quanto no verão, as torres vermelhas lá estão, indestrutíveis como o próprio coração da cidade.
Instalei-me numa hospedaria cara e lúgubre, como que acocorada à sombra das torres. Após uma noite repleta de pesadelos, acordei cedo, paguei um absurdo pela cama e pelo café da manhã e obtive informações imprecisas quanto ao caminho que deveria seguir. Então parti a pé em busca de Otherhord, um antigo monastério não distante de Rer.
Logo me perdi. Mas mantendo minha direção com as torres atrás e a vastidão branca do Kargav à minha direita, saí da cidade no rumo sul. Uma criança, filha de fazendeiros, indicou-me o caminho para Otherhord. Lá cheguei ao meio- dia, quer dizer, julguei que chegara ao lugar desejado, mas não estava bem certo. Era, na verdade, um bosque espesso, não bem uma floresta, com suas árvores cuidadosamente cultivadas, mais do que o comum numa terra que já zelava bastante por suas florestas; uma picada se abria nos flancos do morro, entre as árvores.
Após caminhar um pouco deparei com uma cabana de madeira, bem à minha direita, e daí pude ver uma edificação bastante grande, também de madeira, mais longe, à minha esquerda. Chegava até mim o cheiro gostoso de peixe fresco sendo fritado.
Fui caminhando vagarosamente, um tanto inseguro. Eu não sabia como os handdaratas encaravam forasteiros. Realmente sabia muito pouco sobre eles. Handdara é uma seita, sem ser uma instituição, sem sacerdotes, hierarquia, votos ou credos. Ainda sou incapaz de dizer se eles têm um deus ou não. Sua única manifestação objetiva se dá nessas fortalezas, espécie de retiro ou mosteiro onde as pessoas se recolhem para passar uma noite ou toda a vida.
O que me levava a buscar este culto intangível, nos seus esconderijos secretos, era a vontade de obter uma resposta que os investigadores não tinham conseguido para a pergunta: “Que são esses augures? O que eles realmente fazem?” Eu tinha me demorado em Karhide muito mais que meus investigadores e duvidava muito das histórias dos áugures e de suas profecias. Lendas sobre vaticínios são comuns através de toda a história da humanidade. Deus fala, espíritos falam, computadores falam. Ambigüidade oracular ou probabilidades estatísticas dão margem de acerto e as discrepâncias são expurgadas. Os mitos, no entanto, são dignos de serem investigados. Eu não conseguira ainda convencer nenhum karhideano da existência da comunicação telepática — eles não acreditariam se não “vissem”. Exatamente como eu, em relação aos áugures dohanddara.
Enquanto prosseguia no meu caminho, observei que uma aldeia inteira se espalhava à sombra daquela floresta, ao pé da montanha, de maneira tão casual como tudo em Rer, mas pacífica, rural, secreta.
Acima dos tetos e das trilhas projetavam-se os ramos doshemmens, a árvore mais comum no planeta Inverno, uma robusta conífera com agulhas espessas de um vermelho pálido. As veredas estavam coalhadas dehemmen; o vento vinha perfumado com o pólen de hemmen, e todas as casas eram construídas com sua madeira escura. Parei, finalmente, me perguntando em qual casa deveria bater, quando uma pessoa apareceu entre as árvores e me cumprimentou cortesmente:
— Está procurando um lugar para morar? — perguntou.
— Vim fazer uma consulta aos áugures.
Decidi que eles deveriam tomar-me por um karhideano, pelo menos no começo. Nunca tivera nenhum trabalho de passar por um nativo, se eu o desejasse. Entre todos os dialetos existentes, o meu sotaque passava despercebido e minhas diferenças sexuais estavam escondidas pelo vestuário pesado.
Eu não tinha a cabeleira abundante e fina dos gethenianos, assim como a obliqüidade dos olhos; era mais escuro e mais alto que a maioria, mas não além dos limites da média. Tinha feito uma depilação definitiva da barba quando ainda estava em Ollul. (Naquela ocasião não sabíamos das tribos “peludas” de Perunter, que não são apenas barbados, mas têm cabelos pelo corpo, como os terráqueos.) Eu tinha um nariz achatado, enquanto os dos gethenianos eram proeminentes e estreitos, adaptados à respiração em atmosfera extremamente fria. Às vezes perguntavam como quebrara o nariz.
A pessoa que estava no caminho de Otherhord olhava para meu nariz com uma certa curiosidade.
— Então, quer falar com o áugure-mestre? Ele está ali na clareira, agora, a não ser que tenha saído de trenó. Ou preferia falar, primeiro, com um dos celibatários?
— Não estou bem certo… Sou muito ignorante…
O jovem sorriu e fez vénia com a cabeça.
— Tenho muita honra em saber. Já vivo aqui há três anos, mas não adquiri ignorância suficiente para ser digno de mencioná-lo.
Ele estava com disposição para brincar, mas seus modos eram gentis, e pelo que eu já havia captado do modo de pensar do handdara podia perceber que tinha me vangloriado ao dizer aquilo, o equivalente a dizer “sou muito bonito”…
— Bem — procurei completar —, eu nada sei sobre os áugures. ..
— O que é invejável — respondeu o jovem. — Posso conduzi-lo à clareira? Meu nome é Goss. — Era seu primeiro nome.
— O meu é Genry — disse-lhe desistindo de pronunciar o “1” do meu nome certo. Seguimos para o interior da floresta sombria através de um cáminho que mudava freqüentemente de direção, ora subindo, ora descendo. Junto dos maciços troncos de hemmens estavam as pequenas casas coloridas da floresta. Tudo era vermelho e castanho, calmo, fragrante, úmido e sombrio. De uma cabana partia o doce e discreto sopro de uma flauta. Goss caminhava rápido e ágil, gracioso como uma adolescente, alguns passos à minha frente. De repente, sua roupa se iluminou: era a luz do sol que batia em cheio num prado completamente verde.
Na nossa frente estava uma figura ereta, imóvel, túnica vermelha e camisa branca, recortada contra a pradaria verde como uma incrustação de esmalte brilhante. Mais adiante, outra, imóvel como uma estátua, em azul e branco. Esta nem sequer se moveu em nossa direção durante o tempo em que nos dirigíamos à primeira. Estavam praticando o handdara do ser, que é uma espécie de transe. O handdarata, voltado para as negativas, chama esta prática de “não-transe”, que envolve uma espécie de esquecimento de si próprio através de uma extrema receptividade e consciência sensorial. Apesar de a técnica ser o oposto exato da maior parte das práticas de misticismo, é também, no fundo, uma disciplina mística voltada para a experiência da imanência. Não posso, porém, falar com segurança de nenhuma prática dos handdaratas.
Goss dirigiu-se ao primeiro, o de túnica vermelha. Ele saiu de sua profunda meditação, de sua imobilidade, olhou- nos e veio lentamente na nossa direção. Senti respeito e espanto: ao meio-dia, em plena luz do sol, ele brilhava com intensidade, com uma luz toda sua, interior. Era tão alto quanto eu, porém mais esbelto. Seu rosto era belo, aberto, límpido. Quando seu olhar encontrou o meu, senti, subitamente, vontade de dirigir-me a ele através da comunicação mental que até então não usara, desde que descera em Gethen, e não deveria usar ainda. Mas o impulso de fazê-lo foi mais forte que meu controle. Tentei enviar-lhe meus pensamentos. Não houve resposta. Parecia que nenhum contato fora feito. Ele continuava a olhar direto para mim. Após um momento, sorriu e falou numa voz suave: