- Ah, de muitas coisas. Eu explicarei. Mas devo dizer que há uma segunda coisa pela qual lamento: o desjejum que prometemos a você não está pronto. - Sorriu.
- Posso esperar. - Foram para a sala de jantar e se sentaram. Gwen ainda estava silenciosa e preocupada. - Do que Garse me chamou? - Dirk perguntou. - Kora-alguma coisa, o que significa?
Vikary pareceu hesitar.
- A palavra é korariel. É uma palavra em antigo kavalariano. O significado tem mudado ao longo dos séculos. Hoje, aqui neste lugar, quando usado por Garse ou por mim, significa protegido. Protegido por nós, protegido por Jadeferro.
- Isso é o que você gostaria que significasse, Jaan - Gwen disse, sua voz crispada e furiosa. - Conte a ele o real significado!
Dirk esperou. Vikary cruzou os braços e seus olhos passaram de um para o outro.
- Muito bem, Gwen, se é o que você quer. - Virou-se para Dirk. - O significado completo, mais antigo, é propriedade sob proteção. Só posso esperar que não considere isso um insulto. Não é nossa intenção. Korariel é uma palavra para pessoas que não fazem parte do grupo, mas mesmo assim são guardadas e valiosas.
Dirk lembrou-se das coisas que Ruark lhe contara na noite anterior, as palavras vagamente percebidas através de uma névoa do vinho verde. Sentiu a raiva subindo como uma maré vermelha por seu pescoço, e lutou para reprimi-la.
- Não estou acostumado a ser propriedade de ninguém - disse, amargamente -, não importa de quão alto valor. E contra quem se supõe que vocês estão me protegendo?
- Lorimaar e seu teyn, Saanel - Vikary respondeu. Inclinou-se por sobre a mesa e pegou o braço de Dirk apertado. - Garse pode ter usado a palavra de maneira apressada, t'Larien. Mesmo assim, para ele, sem dúvida pareceu correta naquele momento, uma palavra antiga para um conceito antigo. Errada, sim, eu reconheço o erro. Errada porque você é um humano, uma pessoa, não a propriedade de alguém. Mesmo assim, foi a palavra adequada para usar com alguém como Lorimaar Alto-Braith, que entende essas coisas e pouco além disso. Se isso o incomoda tanto, como sei que o conceito incomoda Gwen, então realmente sinto muito que meu teyn a tenha usado.
- Bem - Dirk ponderou, tentando ser razoável. - Agradeço pelas desculpas, mas não é o suficiente. Ainda não sei o que está acontecendo. Quem é Lorimaar? O que ele queria? E por que tenho que ser protegido contra ele?
Vikary suspirou e soltou o braço de Dirk.
- Não é tão simples responder a essas questões. Teria que lhe contar a história do meu povo, o pouco que sei e o muito que conjecturei. - Virou-se para Gwen. - Podemos comer enquanto conversamos, se ninguém faz objeção a isso. Você pode nos trazer a comida?
Ela assentiu e partiu, retornando alguns minutos depois, carregando uma grande bandeja com pilhas altas de pão preto, três tipos de queijo e ovos cozidos em brilhantes cascas azuis. E cerveja, é claro. Vikary inclinou-se para a frente e descansou os cotovelos na mesa. Começou a falar enquanto os outros comiam.
- Alto Kavalaan tem sido um mundo violento - disse. - E o mais antigo dos mundos exteriores, com exceção da Colônia Esquecida, e todas as suas longas histórias falam sobre batalhas. Infelizmente, essas histórias são também em grande parte invenções ou lendas, repletas de mentiras etnocêntricas. Mesmo assim, esses contos foram considerados verdadeiros até o momento em que as naves estelares regressaram, depois do interregno. Nas famílias do grupo Jadeferro, por exemplo, ensinam aos meninos que o universo tem apenas trinta estrelas, e Alto Kavalaan está no centro delas. A humanidade se originou ali, quando Kay Ferro-Ferreiro e seu teyn Roland Lobo-Jade nasceram da cópula entre um vulcão e uma tempestade. Saíram fumegantes dos lábios do vulcão, para um mundo cheio de demônios e monstros, e, por muitos anos, vagaram de um lado a outro, protagonizando várias aventuras. Finalmente se depararam com uma profunda caverna ao pé de uma montanha e dentro dela encontraram uma dúzia de mulheres, as primeiras mulheres do mundo. As mulheres tinham medo dos demônios e não queriam sair. Então Kay e Roland ficaram, tomaram as mulheres à força e fizeram delas suas eyn-kethi. A caverna tornou-se sua fortaleza, as mulheres deram à luz muitos filhos, e assim começou a civilização kavalariana. O caminho para fora da caverna não era fácil, dizem as histórias. Os meninos nascidos das eyn-kethi eram todos da semente de Kay e Roland, fogosos, perigosos e autoritários. Havia muitas brigas. Um filho, o astuto e maligno John Carvão- -Negro, costumava matar seus kethi, seus irmãos de grupo, por inveja, porque não caçava tão bem quanto eles. Então, esperando conseguir alguma de suas habilidades e força, começou a comer o corpo dos mortos. Certo dia, Roland o encontrou em meio a um desses banquetes, e perseguiu o filho através das montanhas, batendo nele com um grande mangual. Depois disso, John não voltou para Jadeferro, mas começou seu próprio grupo em uma mina de carvão e tomou um demônio como teyn. Essa foi a origem dos altos-senhores canibais das Moradas do Carvão Profundo. Outros grupos foram fundados da mesma maneira, embora as histórias Jadeferro simpatizem muito mais com outros rebeldes do que com John Negro. Roland e Kay eram mestres severos, não era fácil viver com eles. Shan, o Espadachim, por exemplo, era um garoto bom e forte que partiu com seu teyn e com sua betheyn depois de uma violenta luta com Kay, que não respeitou sua jade-e-prata. Shan foi o fundador do grupo Shanagate. Jadeferro reconhece sua linhagem como totalmente humana, e sempre foi assim. Da mesma maneira com a maioria dos grandes grupos. Aqueles que desapareceram, como a Morada do Carvão Profundo, não se saíram tão bem nas lendas. Essas lendas são muito extensas, e muitas são esclarecedoras. Há um conto do kethi desobediente, por exemplo. O primeiro Jadeferro soube que o único lar adequado para um homem era nas profundezas da rocha, na solidez da pedra, em uma caverna ou mina. Mesmo assim, aqueles que vieram depois não acreditaram; as planícies pareciam abertas e convidativas aos seus olhos ingênuos. Então saíram, com suas eyn-kethi e filhos, e erigiram altas cidades. Foi uma insensatez. Fogos caíram do céu e os destruíram, derretendo e retorcendo as torres que haviam levantado, queimando as cidades dos homens, mandando os sobreviventes correndo de volta ao subsolo, aterrorizados, para onde as chamas não podiam alcançá-los. E então as eyn-kethi deram à luz, e as crianças eram demônios, nenhum era humano. Algumas vezes comiam seu caminho para fora do útero.
Vikary fez uma pausa e tomou um gole de sua caneca. Dirk, quase no fim de seu desjejum, empurrou alguns pedaços de queijo em seu prato e franziu o cenho.
- Tudo isso é fascinante - disse -, mas temo que não vejo a relevância.
Vikary bebeu novamente e mordiscou um pedaço de queijo.
- Tenha paciência - disse.
- Dirk - Gwen disse secamente -, as histórias dos quatro grupos-coalizão sobreviventes diferem em vários aspectos, mas há dois grandes eventos com os quais todos concordam. São os embasamentos dos mitos kavalarianos. Todos eles têm uma versão desta última história: a queima das cidades. É chamado Tempo do Fogo e dos Demônios. Uma história mais tardia, a Praga Dolorosa, também é repetida praticamente palavra por palavra em cada grupo.
- É verdade - Vikary concordou. - Mas essas histórias são os únicos relatos dos dias antigos que me foram dados para trabalhar. Na época do meu nascimento, nenhum kavalariano em sã consciência acreditava nelas. - Gwen tossiu polidamente. Vikary olhou de relance para ela e sorriu. - Sim, Gwen me corrige - disse. - Poucos kavalarianos em sã consciência acreditavam nisso. - Prosseguiu. - Mesmo assim, os que duvidavam não tinham nada mais em que acreditar, nenhuma verdade alternativa para professar. A maioria deles não estava particularmente interessada nisso. Quando as viagens estelares recomeçaram, e os lupinos, os toberianos e, mais tarde, os kimdissianos foram para Alto Kavalaan, encontraram-nos ávidos em aprender as artes perdidas da tecnologia, e foi isso que nos ensinaram em troca de nossas pedras preciosas e metais pesados. Em pouco tempo tínhamos naves espaciais, mas ainda não tínhamos história. - Sorriu. - Encontrei as verdades que temos agora durante meus estudos em Ávalon. Era bem pouco, mas suficiente. Escondidos nos grandes bancos de dados da Academia, achei os registros da colonização original de Alto Kavalaan. Foi quase no final da Guerra Dupla. Um grupo de colonos partiu de Tara para um mundo além do Véu do Tentador, onde esperavam ficar seguros dos ataques dos hranganos e das raças-escravas dos hranganos. Os computadores indicam que por um tempo conseguiram seu objetivo. Descobriram um planeta inóspito e estranho, mas rico. Rapidamente construíram uma colônia de alto nível, baseada na mineração. Há registros de comércio entre Tara e a colônia por quase vinte anos, então o planeta além do Véu abruptamente desapareceu da história humana. Tara quase nem notou. Esses eram os anos mais cruéis da guerra.