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Havia escuras ranhuras horizontais no corpo da cidade - pistas de aterrissagem, separadas por dez níveis de distância umas das outras. Dirk se dirigiu para uma delas, e, quando se aproximou, a ranhura negra se iluminou. A abertura estava facilmente localizada a dez metros de altura; ele não teve problemas para pousar na espaçosa pista do centésimo nível.

Quando desceram do aeromóvel, uma voz profunda e suave falou de lugar algum.

- Bem-vindos - disse. - Sou a Voz do Desafio. Posso ajudar vocês?

Dirk olhou de relance por sobre o ombro, e Gwen riu para ele.

- O cérebro da cidade - ela explicou. - Um supercomputador. Eu lhe disse que esta cidade ainda vivia.

- Posso ajudar vocês? - a Voz repetiu. Vinha das paredes.

- Talvez - Dirk se aventurou. - Acho que estamos provavelmente com fome. Pode nos alimentar?

A Voz não respondeu, mas um painel deslizou em uma parede a vários metros e um silencioso veículo acolchoado saiu pela abertura e parou diante deles. Eles entraram no veículo, que se moveu em direção a outra prestativa parede.

Foram levados em suaves pneus-balão através de uma sucessão de imaculados corredores brancos, passando por incontáveis fileiras de portas numeradas, enquanto uma música tocava serenamente em volta deles. Dirk notou rapidamente que as luzes brancas faziam um brusco contraste com o opaco céu crepuscular de Worlorn, e instantaneamente os corredores se tornaram de um azul suave e calmo.

O carro de gordos pneus os deixou em um restaurante, e um robô-garçom que soava muito parecido à Voz lhes ofereceu os cardápios e as cartas de vinho. As duas seleções eram extensas, não limitadas à culinária de di-Emerel ou mesmo dos mundos exteriores, mas incluía famosos pratos e vinhos antigos de todos os mundos devastados do reino humano, até mesmo alguns que Dirk nunca ouvira falar. No menu, cada prato tinha seu mundo de origem impresso em letras pequenas. Refletiram sobre a seleção por um longo tempo. Finalmente, Dirk escolheu dragão de areia fervido em manteiga, do Mundo de Jamison, e Gwen pediu ovas azuis com queijo, da Antiga Posseidon.

O vinho que escolheram era límpido e branco. O robô o trouxe congelado em um cubo de gelo, então quebrou a pedra diante deles e, de alguma forma, a bebida já estava líquida e ainda bem gelada. É assim que deve ser servido, a Voz insistiu. O jantar veio em pratos quentes de prata e ossos. Dirk puxou uma perna com garras de sua entrada, tirou a casca, e provou a carne branca e tenra.

- Está incrível - disse, acenando com a cabeça em direção ao prato. - Vivi no Mundo de Jamison por um tempo, e aqueles jamisianos realmente amam seus dragões de areia recém-fervidos, e este está tão bom quanto qualquer um de lá. Congelado? Congelado e trazido para cá? Diabos, os emerelianos devem ter precisado de uma frota para trazer toda a comida que necessitavam para este lugar.

- Não é congelada - veio a resposta. Não era Gwen, embora ela o encarasse com um sorriso divertido. A Voz respondeu para ele. - Antes do Festival, o navio mercantil Placa Azul, de di-Emerel, visitou todos os mundos que conseguiu alcançar, coletando e preservando amostras de seus alimentos mais finos. A viagem, longamente planejada, levou quarenta e três anos-padrão, comandada por quatro capitães e a mesma quantidade de tripulações. Finalmente, o navio veio para Worlorn, e nas cozinhas e biotanques do Desafio as amostras coletadas foram clonadas e reclonadas para alimentar as multidões. Assim, os peixes e os pães foram multiplicados, não por um falso profeta, mas pelos cientistas de di-Emerel.

- Soa muito convencido. - Gwen comentou com uma risadinha.

- Soa como um discurso padrão - Dirk respondeu. Então deu de ombros e voltou para seu jantar, assim como Gwen. Os dois estavam sozinhos, exceto pelo robô-garçom e pela Voz, no centro do restaurante construído para comportar centenas de pessoas. Tudo ao redor deles estava vazio mas imaculado, outras mesas esperando com toalhas vermelho-escuras e jogos de jantar de prata brilhante. Os clientes haviam partido havia décadas; mas a Voz e a cidade tinham uma paciência infinita.

Depois, enquanto tomavam café (negro e grosso, com creme e especiarias, uma mistura de Ávalon e memórias agradáveis), Dirk sentiu-se tranqüilo e relaxado, talvez mais confortável do que estivera desde que chegara a Worlorn. Jaan Vikary e o jade-e-prata - que brilhava escuro e belo sob as luzes tênues do restaurante, primorosamente trabalhado, mas estranhamente drenado de sua ameaça e significado - haviam diminuído de importância agora que estava novamente com Gwen. Diante dele, enquanto bebia de uma xícara de porcelana branca e sorria com uma expressão sonhadora e distante, ela parecia muito acessível, muito com a Jenny que ele conhecera e amara certa vez, a dama de sua joia-sussurrante.

- Agradável - ele comentou, com um aceno de cabeça que indicava tudo ao redor deles.

E Gwen acenou de volta para ele.

- Agradável - concordou, sorrindo.

Dirk a desejava, a Guinevere dos grandes olhos verdes e do cabelo negro sem-fim, aquela que havia amado, sua alma-gêmea perdida.

Ele se inclinou para a frente e encarou sua xícara. Não havia presságios no café. Tinha que falar com ela.

- Está sendo uma noite agradável - disse. - Como em Ávalon. - Quando ela murmurou, concordando novamente, ele continuou. - Sobrou alguma coisa, Gwen?

Ela o olhou fixamente e tomou um gole do café.

- Não é uma pergunta justa, Dirk, você sabe. Sempre sobra alguma coisa. Se o que você teve era real, para começar. Se não, bem, então não importa. Mas, se era real, então resta alguma coisa, um pouco de amor, uma taça de ódio, desespero, ressentimento, luxúria. O que quer que seja. Mas alguma coisa.

- Não sei - Dirk t'Larien disse, suspirando. Baixou o olhar, introspectivo. - Talvez você seja a única realidade que tive, então.

- Triste - ela disse.

- Sim - respondeu. - Acho que sim. - Ergueu os olhos. - Para mim sobrou muita coisa, Gwen. Amor, ódio, ressentimento, tudo isso. Como você disse. Luxúria. - Deu uma risada.

Gwen apenas sorriu.

- Triste - ela disse novamente.

Ele não estava disposto a deixar para lá.

- E você? Alguma coisa, Gwen?

- Sim. Não posso negar isso. Alguma coisa. E tem aumentado.

- Amor?

- Você está me pressionando - ela disse gentilmente, abaixando sua xícara. O robô-garçom ao seu lado encheu-a novamente com café, sempre cremoso e com especiarias. - Pedi para não fazer isso.

- Tenho que fazer - ele disse. - Já é difícil o suficiente ficar tão perto de você e falar sobre Worlorn ou sobre os costumes kavalarianos ou mesmo sobre caçadores. Não é sobre isso que quero falar!

- Eu sei. Dois antigos amantes juntos, conversando. É uma situação comum e uma tensão comum. Ambos assustados, sem saber se devem tentar abrir velhos portões novamente, sem saber se o outro quer despertar esses sentimentos adormecidos ou se prefere deixar para lá. Cada vez que lembro de alguma coisa de Ávalon e estou prestes a fazer algum comentário sobre isso, eu me pergunto, ele quer que eu fale sobre isso, ou está rezando para que eu não faça?