- Imagino que depende do que você vai dizer. Uma vez tentei começar tudo de novo. Você se lembra? Logo depois que terminamos. Enviei minha jóia-sussurrante para você. Você nunca respondeu, nunca veio. - Sua voz era equilibrada, com um leve toque de reprovação e arrependimento, mas sem raiva. De alguma forma, sua raiva havia se dissipado nesse exato momento.
- Você já imaginou por quê? - Gwen falou. - Eu recebi a joia e chorei. Ainda estava sozinha naquela época, não tinha conhecido Jaan, e queria alguém desesperadamente. Eu teria voltado para você se me chamasse.
- Eu chamei você. E você não veio.
Um sorriso triste.
- Ah, Dirk. A jóia-sussurrante veio em uma caixinha, e junto dela havia um bilhete. "Por favor", o bilhete dizia, "volte para mim agora. Preciso de você, Jenny". Era isso que estava escrito. Eu chorei e chorei. Se você estivesse escrito "Gwen", se você apenas amasse Gwen, a mim. Mas não, era sempre Jenny, mesmo depois de tudo, mesmo então.
Dirk se lembrou e fez uma careta.
- Sim - admitiu depois de um curto silêncio. - Acho que escrevi isso. Sinto muito. Nunca entendi. Mas agora entendo. É tarde demais?
- Eu disse isso. No bosque. É tarde demais, Dirk, está tudo morto. Você nos machucará se pressionar.
- Tudo morto? Você disse que restou algo e que está crescendo. Disse isso agora mesmo. Decida, Gwen. Não quero ferir você ou eu. Mas quero...
- Eu sei o que você quer. Não pode ser. Acabou.
- Por quê? - ele perguntou. Apontou através da mesa, para o bracelete dela. - Por causa disso? Jade-e-prata por todo o sempre, é isso?
- Talvez - ela disse. Sua voz vacilou, insegura. - Não sei. Nós... isso é, eu...
Dirk se lembrou de todas as coisas que Ruark lhe contara.
- Sei que não é fácil falar sobre isso - ele falou cuidadosa e gentilmente. - E eu prometi esperar. Mas algumas coisas não podem esperar. Você diz que Jaan é seu marido, certo? O que é Garse? O que betheyn significa?
- Esposa-escrava - ela disse. - Mas você não entende. Jaan é diferente dos outros kavalarianos, mais forte, mais sábio e mais decente. Ele está mudando as coisas, sozinho. Os velhos vínculos, de betheyn com o alto-senhor, nossos vínculos não são assim. Jaan não acredita nisso, não mais do que acredita em caçar quase-homens.
- Ele acredita em Alto Kavalaan - Dirk lembrou - e no código de honra. Talvez ele seja atípico, mas ainda é um kavalariano.
Foi a coisa errada para se dizer. Gwen apenas sorriu para ele se recompôs.
- Nossa - ela disse. - Agora você falou como Arkin.
- Falei? Talvez Arkin esteja certo, no entanto. Uma outra coisa. Você diz que Jaan não acredita em vários dos antigos costumes, certo?
Gwen assentiu.
- Muito bem. E quanto a Garse, então? Não tive muita chance de falar com ele. Devo supor que Garse é igualmente esclarecido?
Aquilo a fez parar.
- Garse... - começou. Então parou e balançou a cabeça em dúvida. - Bem, Garse é mais conservador.
- Sim - disse Dirk. Repentinamente pareceu compreender tudo. - Sim, acho que é, e essa é grande parte do seu problema, não é? Em Alto Kavalaan, não é homem e mulher. Não, é homem e homem, e talvez mulher, mas mesmo então ela não é tão terrivelmente importante. Você ama Jaan, mas não se importa o mesmo tanto com Garse Janacek, se importa?
- Tenho muita afeição por...
- Tem?
O rosto de Gwen endureceu.
- Pare - ela disse.
A voz dela o assustou. Ele recuou, repentina e doentiamente consciente da maneira que estava inclinado sobre a mesa, pressionando, empurrando, apontando, atacando e insultando-a, ele que viera para cuidar dela e ajudá-la.
- Sinto muito - murmurou.
Silêncio. Ela o olhava fixamente, o lábio inferior tremendo, enquanto se recompunha e recuperava as forças.
- Você está certo - ela finalmente falou. - Em parte, ao menos. Eu não... bem... não estou inteiramente feliz com meu grupo. - Forçou uma gargalhada irônica. - Acho que me engano muito. Uma má idéia, enganar a si mesmo. Todo mundo faz isso, no entanto, todo mundo. Eu visto o jade-e-prata e digo para mim mesma que sou mais do que uma esposa-escrava, mais do que outra mulher kavalariana. Por quê? Só por que Jaan me diz isso? Jaan Vikary é um bom homem, Dirk, ele realmente é, de muitas maneiras é o melhor homem que já conheci. Eu o amava, talvez ainda o ame. Não sei. Estou muito confusa agora. Mas, amando-o ou não, eu devo a ele. Dívidas e obrigações, esses são os laços kavalarianos. Amor é apenas algum que Jaan conheceu em Ávalon, e não estou certa se já aprendeu a dominar bem esse sentimento. Eu teria sido seu teyn, se pudesse. Mas ele já tinha um teyn. Além disso, nem mesmo Jaan iria tão longe contra os costumes de seu mundo. Você ouviu o que ele disse sobre os duelos, e tudo porque ele fez uma pesquisa em alguns bancos de dados de computadores antigos e descobriu que um dos heróis populares kavalarianos tinha tetas. - Sorriu sombriamente. - Imagine o que teria acontecido se ele me tomasse como teyn! Ele teria perdido tudo, absolutamente tudo. Jadeferro é relativamente tolerante, sim, mas ainda serão necessários séculos até que o grupo esteja pronto para isso. Nenhuma mulher jamais usou ferro-e-pedrardente.
- Por quê? - Dirk falou. - Não entendo. Todos vocês ficam fazendo esses comentários... sobre mulheres parideiras, esposas- -escravas e mulheres escondidas nas cavernas com medo de sair para fora, toda essa coisa. E eu continuo sem acreditar nelas. Como Alto Kavalaan pode estar tão distorcido? O que eles têm contra as mulheres? Por que é tão crítico que a fundadora de Jadeferro seja uma mulher?
Gwen lhe deu um sorriso amarelo e esfregou as têmporas gentilmente com as pontas dos dedos, como se tivesse uma dor de cabeça que quisesse espantar.
- Você devia ter deixado Jaan terminar a história - ela respondeu. - Então saberia tanto quanto nós. Ele estava apenas se aquecendo. Nem chegou até a Praga Dolorosa - suspirou. - É tudo uma história muito longa, Dirk, e neste momento não tenho a maldita energia para isso. Espere até voltarmos para Larteyn. Eu encontrarei uma cópia da tese de Jaan e você poderá lê-la com seus próprios olhos.
- Tudo bem - Dirk concordou. - Mas há algumas coisas que não serei capaz de ler em nenhuma tese. Há alguns minutos você disse que não tinha certeza se ainda amava Jaan. Você certamente não ama Alto Kavalaan. Acho que odeia Garse. Então, por que está fazendo tudo isso consigo mesma?
- Você leva jeito para fazer perguntas desagradáveis - ela disse amargamente. - Mas antes de lhe responder, deixe-me corrigi-lo em alguns pontos. Posso odiar Garse, como você diz. Algumas vezes tenho quase certeza de que odeio Garse, embora creia que Jaan morreria se me ouvisse dizer isso. Em outras vezes, contudo... eu não estava mentindo antes, quando disse para você que tenho uma considerável afeição por ele. Assim que cheguei a Alto Kavalaan, era totalmente cega, inocente e vulnerável. Jaan havia me explicado tudo de antemão, é claro, muito pacientemente, muito minuciosamente, e eu havia aceitado. Eu era de Ávalon, afinal de contas, e ninguém pode ser mais sofisticado do que em Ávalon, pode? Não, a menos que você seja um terráqueo. Eu estudara todas as estranhas culturas que a humanidade espalhara entre as estrelas e sabia que qualquer um que entrava em uma nave espacial devia estar preparado para se adaptar a sistemas sociais e moralidades completamente diferentes dos seus. Eu sabia que costumes sexuais-familiares variam e que Ávalon não é necessariamente mais sábio do que Alto Kavalaan nesta área. Eu era muito esperta, pensava. Mas não estava pronta para os kavalarianos, oh, não. Por mais que viva, jamais me esquecerei por um segundo do medo e do trauma do meu primeiro dia e da minha primeira noite nas fortalezas de Jadeferro, como betheyn de Jaan Vikary. Especialmente a primeira noite. - Ela riu. - Jaan tinha me avisado, é claro, e... que inferno, eu não estava pronta para ser partilhada. O que posso dizer? Foi ruim, mas sobrevivi. Garse me ajudou. Ele estava honestamente preocupado comigo, e muito mais com Jaan. Seria possível dizer que foi terno. Confiei nele; ele escutou e foi cuidadoso. E, na manhã seguinte, o abuso verbal começou. Eu fiquei assustada e machucada; Jaan ficou desconcertado e incrivelmente zangado. Mandou Garse com um empurrão para o outro lado da sala da primeira vez que ele me chamou de cadela betheyn. Garse ficou quieto por um tempo depois disso. Ele me dá trégua com freqüência, mas nunca para. Ele é verdadeiramente notável, de certa forma. Teria desafiado e matado qualquer kavalariano que me insultasse a metade do que ele faz. Sabe que suas piadas irritam Jaan e provocam terríveis brigas... ou pelo menos provocavam. A essa altura, Jaan se tornou indiferente a tudo isso. Mesmo assim, Garse persiste. Talvez não possa evitar, ou talvez me deteste realmente, ou talvez simplesmente goste de provocar dor. Se for isso, não lhe dei muitas alegrias nos últimos anos. Uma das primeiras coisas que decidi foi que não o deixaria me fazer chorar novamente. E não deixei. Mesmo quando ele chega e diz alguma coisa que me faz querer arrancar sua cabeça com um machado, eu apenas sorrio, mostrando os dentes, e tento pensar em algo desagradável para responder para ele. Uma ou duas vezes consegui tirá-lo dos trilhos. Normalmente, fico me sentindo como um inseto esmagado. Mesmo assim, a despeito de tudo isso, há outros momentos também. Tréguas, pequenos cessar-fogo em nossa guerra sem-fim, momentos de assombroso calor e compaixão. Muitos deles à noite. Esses momentos sempre me surpreendem quando acontecem. São muito intensos. Uma vez, acredite ou não, disse a Garse que o amava. Ele riu de mim. Ele não me amava, disse em voz alta, eu simplesmente era sua cro-betheyn e ele me tratava como era obrigado a tratar pelos laços que existiam entre nós. Essa foi a última vez que quase chorei. Lutei, lutei e venci. Não chorei. Apenas gritei alguma coisa para ele e saí correndo pelo corredor. Vivemos no subsolo, você sabe. Todo mundo vive no subsolo em Alto Kavalaan. Não estava vestindo muita coisa além do meu bracelete, e corri como louca, e finalmente um homem tentou me parar... um bêbado, um idiota, um cego que não pôde ver o jade-e-prata, não sei. Eu estava tão furiosa que puxei sua arma do coldre e esmaguei seu rosto com um golpe, era a primeira vez que batia em outro ser humano com raiva, e bem quando Jaan e Garse chegaram. Jaan parecia calmo, mas estava muito transtornado. Garse estava quase feliz, e pedindo por uma briga. Como se o homem que eu havia derrotado não tivesse sido insultado o suficiente, Garse ainda me disse para pegar todos os dentes que eu arrancara para devolvê-los, pois eu já tinha dentes suficientes. Tiveram sorte de que esse comentário não deu origem a um duelo.