- Desafio foi construída para abrigar vinte milhões - Gwen explicou. - Você dificilmente pode esperar dar de cara com um deles, mas estão aqui. Nas outras cidades também, embora não tantos quanto em Desafio. A vida é mais fácil aqui. A morte seria fácil também, se os altos-senhores de Braith alguma vez pensassem em começar a caçar nas cidades, em vez de nos bosques. Esse sempre foi o grande medo de Jaan.
- Quem são eles? - Dirk quis saber, curioso. - Como vivem? Não entendo. Desafio não perde uma fortuna a cada dia?
- Sim. Uma fortuna em energia, jogada no lixo, desperdiçada. Mas esse é o ponto central de Desafio, de Larteyn e de todo o Festival. Desperdício, um desperdício descomunal, para provar que a Orla era rica e forte, desperdício em uma escala que o reino humano jamais conhecera antes, um planeta inteiro moldado e então abandonado. Você vê? Quanto a Desafio, bem, verdade seja dita, a vida da cidade é um movimento vazio, agora. Ela se auto-alimenta de reatores de fusão e descarrega energia em fogos de artifício que ninguém vê. Colhe toneladas de comida todos os dias, com suas imensas máquinas agrícolas, mas ninguém come, exceto um punhado de ermitões, fanáticos religiosos, crianças perdidas que se tornaram selvagens, qualquer que seja a escória que sobrou do Festival. A cidade envia um barco para Musquel todos os dias, para buscar peixe. Não há peixe algum, é claro.
- A Voz não reescreve o programa?
- Ah, o xis da questão! A Voz é idiota. Não pensa realmente, não consegue programar a si mesma. Oh, sim, os emerelianos queriam impressionar as pessoas, e a Voz é imponente, é claro. Mas, na realidade, é muito primitiva se comparada aos computadores da Academia, em Ávalon, ou às Inteligências Artificiais da Antiga Terra. Não pode pensar, ou fazer mudanças. Faz o que lhe foi dito para fazer, e os emerelianos lhe disseram para seguir em frente, para suportar o frio o máximo que for capaz. E o computador fará isso. - Ela olhou para Dirk. - Como você. Insiste muito depois que sua persistência perdeu todo o sentido e o significado, segue em frente, para nada, depois que tudo está morto.
- Oh - exclamou Dirk. - Mas até que tudo esteja morto, você tem que seguir. Este é o ponto, Gwen. Não há outro jeito, há? Prefiro admirar a cidade, mesmo que ela seja a grande insensatez que você diz.
Ela balançou a cabeça.
- Você devia mesmo.
- E ainda há mais - ele continuou. - Você enterra tudo rápido demais, Gwen. Worlorn pode estar morrendo, mas ainda não está morto. E nós, bem, não temos que estar mortos também. O que você disse no restaurante, sobre Jaan e eu, acho que deveria pensar sobre isso. Decida o que sobrou para mim, para ele. Quão pesado este bracelete é no seu braço - ele apontou para a peça de jade-e-prata - e de que nome você gosta mais, ou mesmo quem tem mais possibilidade para dar a você seu próprio nome. Vê? Então, depois me diga o que está vivo e o que está morto!
Ele se sentiu muito satisfeito com seu pequeno discurso. Certamente, pensou, ela veria que ele podia deixar Jenny de lado e deixá-la ser Gwen com mais facilidade do que Jaantony Vikary poderia torná-la uma teyn feminina, em vez de uma mera betheyn. Parecia muito claro. Mas ela apenas olhou para ele, sem dizer nada, até que chegaram ao aeromóvel.
Então ela saiu do veículo acolchoado.
- Quando nós quatro escolhemos onde viveríamos em Worlorn, Garse e Jaan votaram por Larteyn, e Arkin por Décimo-Segundo Sonho - ela disse. - Eu não votei por nenhuma das duas. Nem por Desafio, apesar de toda a sua vitalidade. Não gosto de viver em um labirinto. Quer saber o que está morto e o que está vivo? Venha, então, vou lhe mostrar minha cidade.
Foram para fora mais uma vez, Gwen lacônica e silenciosa atrás dos controles, o repentino frio do ar da noite ao redor deles, a brilhante agulha de Desafio desaparecendo atrás deles. Agora era a profunda escuridão novamente, como havia sido na noite em que o Tremor de Inimigos Esquecidos trouxera Dirk t'Larien para Worlorn. Apenas uma dúzia de estrelas solitárias balançava no céu, e metade delas estava oculta por nuvens turbulentas. Todos os sóis haviam se posto.
A cidade da noite era vasta e intrincada, com apenas algumas luzes dispersas rasgando a escuridão que caíra sobre ela, como se uma pálida joia tivesse sido colocada em um macio feltro negro. Entre todas as cidades, era a única construída nos bosques além da cadeia de montanhas, e pertencia àquele lugar, entre as florestas de estranguladores, árvores-fantasmas e viúvos azuis. A partir da escuridão da mata, suas finas torres brancas se levantavam como espectros em direção às estrelas, ligadas por graciosas pontes penseis que reluziam como teias de aranhas congeladas. Cúpulas baixas se erguiam como vigias solitários entre uma rede de canais cujas águas capturavam as luzes das torres e o brilho das raras estrelas distantes, e circulando a cidade havia uma série de construções estranhas que pareciam mãos descarnadas e angulosas tentando agarrar o céu. As árvores - e como havia árvores - eram do mundo exterior; não havia grama, apenas grossos tapetes de musgo fosforescente que irradiavam um fulgor opaco.
E a cidade tinha uma canção.
Não era como nenhuma música que Dirk já ouvira. Era inquietante, selvagem e quase inumana, e se elevava, caía e deslocava-se constantemente. Era uma escura sinfonia do vazio, das noites sem estrelas e dos sonhos conturbados. Era feita de gemidos, sussurros e uivos, e uma estranha nota baixa que só podia ser o som da tristeza. Com tudo isso, era música.
Dirk olhou para Gwen, maravilhado.
- Como?
Ela escutava enquanto dirigia, mas a pergunta dele arrancou-a de seus acordes flutuantes e a fez sorrir de leve.
- Escuralba construiu esta cidade, e os escuralbinos são um povo estranho. Há um vão nas montanhas. Os guardiões do tempo fizeram os ventos soprarem por ele. Então construíram as torres, e em cima de cada uma delas há uma abertura. O vento toca a cidade como um instrumento. A mesma canção, uma vez e outra. Os aparelhos de controle do tempo guiam os ventos e, a cada mudança, algumas torres soam suas notas, enquanto outras ficam em silêncio. A música é uma sinfonia escrita em Escuralba há muitos séculos, por uma compositora chamada Lamiya-Bailis. Um computador a toca, eles dizem, fazendo funcionar as máquinas de vento. A coisa estranha nisso tudo é que os escuralbinos nunca usaram muito os computadores e têm pouca tecnologia. Outra história era popular durante os dias do Festival. Uma lenda, dizem. Ela afirma que Escuralba era um mundo sempre perigosamente no limite da sanidade, e que a música de Lamiya-Bailis, a maior das sonhadoras de Escuralba, empurrou a cultura inteira para a loucura e o desespero. Em punição, dizem, o cérebro da compositora foi mantido vivo, e pode agora ser encontrado nas profundezas sob as montanhas de Worlorn, conectado às máquinas de vento e tocando sua própria obra-prima uma vez após a outra, para sempre. - Ela estremeceu. - Ou, pelo menos, até que a atmosfera congele. Nem mesmo os guardiões do tempo de Escuralba podem parar isso.
- Isso... - Dirk, perdido na canção, não conseguia encontrar as palavras. - Isso se encaixa, de algum modo - disse, finalmente. - Uma canção para Worlorn.
- Se encaixa agora. - Gwen concordou. - É uma canção do crepúsculo e da noite que chega, com nenhum amanhecer novamente, jamais. Uma canção de finais. No auge dos dias do Festival, a música estava fora de lugar. Kryne Lamiya (este é o nome da cidade, Kryne Lamiya, embora seja freqüentemente chamada de Cidade Sereia, do mesmo modo que Larteyn era chamada de Fortaleza de Fogo), bem, nunca foi um lugar popular. Parece grande, mas na realidade não é. Foi construída para abrigar apenas cem pessoas, e nunca esteve com mais de um quarto de sua lotação. Como a própria Escuralba, suponho. Quantos viajantes já foram para Escuralba, bem na margem do Grande Mar Negro? E quantos vão para lá no inverno, quando o céu de Escuralba é quase totalmente vazio, com nada para ver além da luz de algumas galáxias muito distantes? Não muitos. É necessário um tipo de gente muito peculiar para isso. Aqui também, para amar Kryne Lamiya. As pessoas dizem que a música as perturba. E nunca para. Os escuralbinos não fizeram nem quartos de dormir à prova de som.