Dirk não disse nada. Estava olhando para as mágicas torres e as escutava cantar.
- Quer descer? - Gwen perguntou.
Ele assentiu, e ela fez uma espiral em direção ao solo. Encontraram uma clareira ao lado de uma das torres. Ao contrário das pistas de aterrissagem de Desafio e de Décimo-Segundo Sonho, esta não estava completamente vazia. Dois outros aeromóveis descansavam ali, um modelo esportivo vermelho de asas curtas e um pequeno negro e prateado com forma de lágrima, ambos havia muito abandonados. A poeira soprada pelo vento formava uma camada grossa em suas cabines e tetos, e os estofados dentro do modelo esportivo já haviam começado a apodrecer. Só por curiosidade, Dirk experimentou os dois veículos. O esportivo estava morto, queimado, sua energia esvaída havia anos. Mas o pequeno aeromóvel em forma de lágrima ainda ligava sob seu toque, e o painel de controle se acendeu e piscou, mostrando que uma pequena reserva de energia ainda sobrava. A imensa arraia cinzenta de Alto Kavalaan era maior e mais pesada do que os dois objetos abandonados juntos.
Da pista de pouso, foram por uma longa galeria, onde painéis luminosos cinza e brancos oscilavam e giravam em formas opacas que acompanhavam o ritmo da música. Então subiram até um balcão que haviam visto quando chegaram.
Do lado de fora, a música estava por todas as partes, chamando-os com vozes sobrenaturais, tocando-os e brincando com seus cabelos, aumentando e reverberando como um trovão da paixão. Dirk pegou a mão de Gwen e ficou ouvindo, enquanto lançava um olhar perdido para além das torres, cúpulas e canais, em direção à floresta e às montanhas depois dela. A música do vento parecia arrastá-lo. Era como se falasse com ele suavemente, instando-o a pular, a acabar com tudo, com toda a tolice, indignidade e insignificante futilidade que ele chamava de vida.
Gwen viu em seus olhos. Apertou a mão dele e, quando ele olhou para ela, disse:
- Durante o Festival, mais de duzentas pessoas cometeram suicídio em Kryne Lamiya. Dez vezes o número de qualquer outra cidade. E isso apesar de que esta cidade tinha a menor população de todas.
Dirk assentiu.
- Sim. Posso sentir. A música.
- A celebração da morte - Gwen falou. - Sim, você sabe, a Cidade Sereia não está morta, não como Musquel ou Décimo-Segundo Sonho. Ela ainda vive, teimosamente, apenas para exaltar o desespero e glorificar o vazio da vida ao qual ela mesma se aferra. Estranho, não?
- Por que construíram tal lugar? É bonito, mas...
- Tenho uma teoria - Gwen respondeu. - Os escuralbinos são niilistas de humor negro, antes de tudo, e acho que Kryne Lamiya é sua piada amarga para Alto Kavalaan, Tocadolobo, Tober e os outros mundos que se esforçaram tanto pelo Festival na Orla. Os escuralbinos vieram, tudo bem, e construíram uma cidade que diz que tudo é sem valor. Tudo sem valor: o Festival, a civilização humana, a vida em si. Pense nisso! Que armadilha para um turista desprevenido! - Jogou a cabeça para trás e começou a gargalhar descontroladamente, e por um breve momento Dirk sentiu um súbito medo irracional, como se Gwen tivesse enlouquecido.
- E você queria viver aqui? - ele perguntou.
Sua gargalhada morreu tão abruptamente quanto começara; o vento a levou embora. Longe, à direita deles, uma torre espigada emitia uma nota breve e penetrante que vagava como o uivo de um animal em dor. A torre em que estavam respondia com um triste gemido baixo de uma buzina, lento e interminável. A música rodopiava ao redor deles. Bem ao longe, Dirk pensou ter ouvido o bater de um único tambor, golpes graves e contundentes, uniformemente espaçados.
- Sim - Gwen confirmou. - Eu queria viver aqui. - A buzina desapareceu; quatro torres avermelhadas do outro lado do canal, unidas por pontes pênseis, começaram a ulular selvagemente, cada nota mais alta do que a anterior, até que finalmente se tornaram inaudíveis. O tambor continuou, imutáveclass="underline" bum, bum, bum.
Dirk suspirou.
- Entendo - disse, em uma voz muito cansada. - Eu teria vivido aqui também, suponho, embora me pergunte quanto tempo viveria se fizesse isso. Braque era um pouco assim, o mais suave dos ecos, especialmente à noite. Talvez fosse por isso que eu vivesse lá. Estava muito cansado, Gwen. Muito. Acho que tinha desistido. Nos velhos tempos, você sabe, eu estava sempre procurando... por amor, por dinheiro fácil, pelos segredos do universo, pelo que quer que fosse. Mas depois que você me deixou... não sei, tudo dava errado, me deixava um gosto amargo na boca. E quando alguma coisa dava certo, eu achava que não importava, não fazia nenhuma diferença. Era tudo vazio. Tentei e tentei, mas tudo o que consegui foi me cansar, me tornar apático e cínico. Talvez tenha sido por isso que vim até aqui. Você... bem, eu era melhor naquela época. Se eu encontrasse você de novo, talvez conseguisse me encontrar novamente também. Não funcionou bem desse jeito. Não sei se funcionou de algum jeito.
- Ouça Lamiya-Bailis - Gwen falou -, e a música da cidade lhe dirá que nada funciona, que nada significa coisa alguma. Eu queria viver aqui, você sabe. Eu votei... bem, não planejava votar desse jeito, mas estávamos conversando sobre isso quando chegamos aqui pela primeira vez, e simplesmente saiu. Isso me assustou. Talvez você e eu ainda tenhamos muito em comum, Dirk. Fiquei cansada também. Em geral, não demonstro. Tenho meu trabalho para me manter ocupada, Arkin é meu amigo, e Jaan me ama. Mas quando venho aqui... ou algumas vezes simplesmente paro e começo a pensar demais, então me questiono. As coisas que tenho não são suficientes. Não é o que eu queria. - Ela se virou na direção dele e pegou sua mão. - Sim, eu tenho pensado em você. Tenho pensado que as coisas eram melhores quando você e eu estávamos juntos em Ávalon, e tenho pensado que talvez ainda seja você quem eu amo, e não Jaan, e tenho pensado que você e eu podíamos trazer a mágica de volta, fazer tudo ter sentido outra vez. Mas você não vê? Não é assim, Dirk, e toda a sua pressão não vai fazer com que seja. Ouça a cidade, ouça Kryne Lamiya. Eis a sua verdade. Você pensa em mim, e algumas vezes eu penso em você, apenas porque a morte está entre nós. Esta é a única razão pela qual parece melhor. Felicidade ontem e felicidade amanhã, mas nunca hoje, Dirk. Não pode ser, porque tudo é apenas ilusão no final das contas, e ilusões só parecem reais a distância. A nossa terminou, meu amor perdido e sonhador terminou, e isso é o melhor de tudo, porque é a única coisa que o faz ser bom.
Ela estava chorando; as lágrimas escorriam lentamente por seu rosto. Kryne Lamiya chorava com ela, as torres pranteando o lamento deles. Mas a cidade zombava dela também, como se dissesse, "Sim, vejo sua dor, mas a dor não tem mais significado do que todo o resto, a dor é tão vazia quanto o prazer". As torres gemiam, grades finas riam insanamente, e o som baixo do tambor continuava: bum, bum, bum.
Novamente, mais forte dessa vez, Dirk quis saltar do balcão, em direção à pedra clara e aos canais escuros embaixo deles. Uma queda vertiginosa, e então o descanso finalmente. Mas a cidade cantava para ele como para um tolo: Descanso?, cantava, não há descanso na morte. Apenas o nada. Nada. Nada. O tambor, os ventos, os gemidos. Ele tremeu, ainda segurando as mãos de Gwen. Olhou em direção ao solo abaixo.
Algo avançava pelo canal. Balançando e flutuando, facilmente à deriva, vindo na direção dele. Um barco negro, com um remador solitário.