- Não - ele disse.
Gwen pestanejou.
- Não? - repetiu.
E repentinamente as palavras vieram, as palavras que o outro Dirk t'Larien teria dito para sua Jenny, e as palavras estavam na ponta de sua língua, embora não tivesse certeza se podia acreditar nelas, e pegou a si mesmo dizendo tudo mesmo assim.
- Não! - exclamou, gritando para a cidade, sentindo uma raiva súbita pela música zombeteira de Kryne Lamiya. - Maldição, Gwen, todos temos algo desta cidade em nós mesmos, sim. O teste é como enfrentamos isso. Tudo isto é assustador - soltou as mãos dela para gesticular em direção à escuridão, o gesto de sua mão abarcando tudo - o que a cidade diz é assustador, e o pior é o medo que você sente quando parte de sua alma concorda, quando você sente que é tudo verdade, que você pertence a este lugar. Mas o que você faz a esse respeito? Se você é fraco, ignora. Finge que não existe, entende? E talvez isso vá embora. Ocupa-se durante todo o dia com tarefas triviais e nunca pensa na escuridão lá fora. E, deste modo, você a deixa ganhar, Gwen. No fim, a cidade engole você e todas as suas coisas triviais, e você e outros tolos mentem uns para os outros reciprocamente e aceitam isso. Não pode ser assim, Gwen, você não pode ser assim. Tem que tentar. Você é uma ecologista, certo? E sobre o que a ecologia trata? De vida! Você tem que estar do lado da vida, tudo o que você é diz isso. Esta cidade, esta maldita cidade branca como ossos, com seu hino morto, é a negação de tudo o que acredita, de tudo o que você é. Se você é forte, encara isso, luta, chama-a pelo nome. Desafia isso.
Gwen parara de chorar.
- Isso é inútil - ela disse, balançando a cabeça.
- Você está errada - ele respondeu. - Sobre esta cidade, sobre nós. Está tudo entrelaçado, percebe? Você diz que quer viver aqui? Muito bem! Viva aqui! Viver nesta cidade seria uma vitória em si mesma, uma vitória filosófica. Mas viva aqui porque você sabe que a vida refuta Lamiya-Bailis, viva aqui e ria desta absurda música dela, não viva aqui e concorde com este maldito lamento mentiroso. - Pegou a mão dela novamente.
- Não sei - ela disse.
- Você sabe - ele refutou, mentindo.
- Você realmente acha que... que poderíamos fazer dar certo novamente? Melhor do que antes?
- Você não será Jenny - ele prometeu. - Nunca mais.
- Não sei - ela repetiu, num sussurro.
Ele pegou o rosto dela com as duas mãos e levantou-o, para que os olhos dela encontrassem os dele. Beijou-a muito suavemente, apenas roçando os lábios nos dela. A cidade gemia. A buzina soava profunda e queixosa ao redor deles, as torres distantes gritavam e lamentavam, e o tambor solitário continuava a tocar seu bumbo sem sentido.
Depois do beijo, ficaram parados em meio à música, encarando um ao outro.
- Gwen - ele finalmente disse, em uma voz nem tão forte ou tão segura quanto tinha estado alguns momentos antes - , eu também não sei, acho. Mas, talvez, possa valer a pena tentar...
- Talvez - ela respondeu, desviando e baixando os grandes olhos verdes. - Seria difícil, Dirk. E há Jaan para se considerar, e Garse, tantos problemas. E nem mesmo sabemos se valeria a pena. Não sabemos se fará a mínima diferença.
- Não, não sabemos - ele concordou. - Muitas vezes, nestes poucos últimos anos, decidi que não importava, que não valia a pena tentar. Não me senti bem, então, apenas cansado, infinitamente cansado. Gwen, se não tentarmos, nunca saberemos.
Ela assentiu.
- Talvez - disse, e nada mais. O vento soprava frio e forte; a música da loucura escuralbina se ergueu e baixou novamente. Foram para dentro, então desceram as escadas do balcão, passaram pelos painéis opacos e tremulantes de luzes cinza e brancas, para onde a sólida sanidade do aeromóvel os esperava para levá-los de volta a Larteyn.
Capítulo 5
Voaram das altas torres brancas de Kryne Lamiya até as fogueiras desvanecidas de Larteyn em um silêncio solitário, sem se tocarem, ambos perdidos nos próprios pensamentos. Gwen deixou o aeromóvel no lugar costumeiro do telhado, e Dirk a seguiu escada abaixo até a porta do apartamento dela.
- Espere - Gwen disse em um rápido sussurro, quando ele achou que ela fosse dizer boa noite. Ela desapareceu lá dentro; Dirk esperou, intrigado. Havia barulho do outro lado da porta, vozes, então, abruptamente Gwen voltou, empurrando um grosso manuscrito nas mãos dele, uma massa de papel impressionantemente pesada, encapada à mão com couro negro. - Leia - sussurrou, inclinando-se porta afora. - Venha amanhã de manhã e conversaremos mais.
Beijou-o levemente no rosto e fechou a porta pesada com um pequeno estalo. Dirk ficou parado por um momento, inspecionando o manuscrito encadernado, então virou-se em direção aos elevadores.
Havia dado apenas alguns passos quando ouviu o primeiro grito. Então, de alguma maneira, não pôde continuar; os sons o levaram de volta, e ele ficou parado ouvindo através da porta de Gwen.
As paredes eram grossas, e muito pouco do que era dito passava por elas. Não entendia as palavras, nem o que significavam, mas o tom das vozes dizia bastante. A voz de Gwen predominava: alta, mordaz - às vezes ela gritava -, próxima da histeria. Em sua mente, Dirk podia vê-la caminhando pela sala de estar, diante das gárgulas, do jeito que sempre fazia quando estava zangada. Os dois kavalarianos deviam estar presentes, repreendendo-a, pois Dirk tinha certeza de ter ouvido mais duas vozes: uma calma e segura, sem raiva, questionando implacavelmente. Essa tinha que ser a voz de Jaan Vikary. Sua cadência o entregava, as marcações de seu discurso podiam ser distinguidas mesmo através da parede. A terceira voz, Garse Janacek, falava pouco no início, então mais e mais, com crescente volume e ira. Depois de um tempo, a primeira voz masculina calma estava praticamente em silêncio, enquanto Gwen e Garse gritavam um com o outro. Então ouviu-se alguma coisa, uma ordem forte. E Dirk ouviu um barulho, uma pancada surda. Um golpe. Alguém tinha batido em alguém, não podia ser outra coisa.
Finalmente Vikary começou a dar ordens, e, a seguir, o silêncio. A luz se apagou dentro do aposento.
Dirk ficou parado quieto, segurando o manuscrito de Vikary e se perguntando como agir. Não parecia ter nada que pudesse fazer, exceto conversar com Gwen na manhã seguinte e descobrir quem batera em quem, e por quê. Devia ser Janacek, pensou.
Ignorando os elevadores, decidiu descer as escadas até os aposentos de Ruark.
Uma vez na cama, Dirk descobriu que estava imensamente cansado e profundamente abalado pelos eventos do dia. Era muita coisa ao mesmo tempo, e ele mal conseguia lidar com isso. Os caçadores kavalarianos e seus quase-homens, a estranha e amarga vida que Gwen levava com Vikary e Janacek, a súbita e desconcertante possibilidade de ela voltar para ele. Incapaz de dormir, pensou em tudo isso por um longo tempo. Ruark já estava dormindo; não havia ninguém com quem conversar. Finalmente, Dirk pegou o grosso manuscrito que Gwen lhe dera e começou a folhear as primeiras páginas. Não havia nada melhor do que um sisudo trabalho acadêmico para colocar um homem para dormir, refletiu.
Quatro horas e meia dúzia de xícaras de café mais tarde, ele baixou o manuscrito, bocejando e esfregando os olhos. Então desligou a luz e encarou a escuridão.
A tese de Jaan Vikary - Mito e história: origens da sociedade dos grupos baseada na interpretação do ciclo de Canções do Demônio de Jamis-Leão Taal - era uma acusação contra seu povo pior do que qualquer coisa que Arkin Ruark pudesse dizer, Dirk pensou. Ele tinha colocado tudo para fora, com fontes e documentos dos bancos de dados dos computadores de Ávalon, longas citações da poesia de Jamis-Leão Taal e ainda mais longas dissertações sobre o que Jamis Taal queria dizer. Todas as coisas que Jaan e Gwen haviam contado para Dirk naquela manhã estavam ali, em detalhes. Vikary fornecia teorias sobre teorias, tentando explicar tudo. Explicara até mesmo os quase-homens, mais ou menos. Argumentava que, durante o Tempo do Fogo e dos Demônios, alguns sobreviventes das cidades haviam alcançado os acampamentos de mineração e buscaram abrigo. Uma vez lá dentro, no entanto, provaram-se perigosos. Alguns eram vítimas de doenças causadas pela radiação; morriam lentamente e de forma horrível, e possivelmente contaminavam aqueles que cuidavam deles. Outros, parecendo saudáveis, viveram e se tornaram parte dos protogrupos, até que se casaram e geraram crianças. Então os efeitos da radiação se mostraram. Eram tudo conjecturas da parte de Jaan, com nada além de uma linha ou duas de apoio de Jamis-Leão, mesmo assim parecia uma racionalização possível e plausível do mito dos quase-homens.