Dirk se reclinou contra o encosto do sofá e assentiu.
- Tudo bem, Janacek. Vá em frente.
Janacek franziu o cenho.
- Seu problema, t'Larien, é que você sabe pouco e entende menos ainda sobre Jaan, sobre mim e nosso mundo.
- Sei mais do que você pensa.
- Sabe? Você leu os escritos de Jaan sobre as Canções do Demônio, e, certamente, as pessoas falaram coisas para você. Mesmo assim, o que é isso? Você não é kavalariano. Você não entende os kavalarianos, eu diria, mas você está aqui, e vejo julgamento em seus olhos. Com que direito? Quem é você para nos julgar? Você mal nos conhece. Vou lhe dar um exemplo. Há um segundo você me chamou de Janacek.
- Esse é seu nome, não é?
- Essa é parte do meu nome, a última parte, a menos importante e a menor parte de quem sou. É meu nome-escolhido, o nome de um antigo herói do grupo Jadeferro que viveu uma longa e frutífera vida, por muitas vezes defendendo honradamente o grupo e seus kethi em altas-guerras. Sei porque você o usa, é claro. Em seu mundo, e de acordo com seu sistema de nomes, costuma-se interpelar a quem se trata com distância e hostilidade pelo último componente do nome... a alguém íntimo você chama pelo primeiro nome, não é?
Dirk assentiu.
- Mais ou menos. Não é tão simples assim, mas você está bem perto.
Janacek esboçou um sorriso; seus olhos azuis pareciam brilhar.
- Vê? Eu entendo seu povo muito bem. E lhe dou o benefício de seus próprios costumes. Eu o chamo de t'Larien porque sou hostil a você, e isso é correto. Você não é recíproco, no entanto. Você se dirige a mim como Janacek, sem um instante de consideração ou preocupação, me impondo quase deliberadamente seu próprio sistema de nomes.
- Como eu deveria chamá-lo? Garse?
Janacek fez um gesto brusco e impaciente.
- Garse é meu nome verdadeiro, mas não é adequado para você. Segundo o costume kavalariano, o uso do nome sozinho indica um relacionamento que não existe de fato entre nós. Garse é um nome para meu teyn, para minha cro-betheyn e para meus kethi, não para alguém de outro mundo. A rigor, você deveria me chamar de Garse Jadeferro, e meu teyn de Jaantony Alto-Jadeferro. Essas são as formas tradicionais e corretas de um igual, um kavalariano de outra casa com quem estou conversando. Eu lhe dou o benefício de muitas dúvidas. - Sorriu. - Agora entenda, t'Larien, que isso que lhe contei é apenas um exemplo. Eu me importo muito pouco se você me chama de Garse, de Garse Jadeferro, ou de Senhor Janecek. Me chame do que deixar seu coração mais feliz, e não tomarei isso como insulto. O kimdissiano Arkin Ruark sempre me chamou de Garsinho, mas eu resisti à vontade de furá-lo para ver se ele arrebenta. Quanto a essas questões de cortesia e etiqueta, não preciso que Jaan me diga que são coisas antigas, legados de dias mais elaborados e mais primitivos, moribundos nestes tempos modernos. Hoje os kavalarianos viajam em naves de uma estrela a outra, conversam e negociam com criaturas que antigamente teríamos exterminado como demônios, até mesmo moldam planetas, como moldamos Worlorn. O antigo kavalariano, a língua dos grupos por milhares de seus anos-padrão, mal é falada agora, embora alguns poucos termos permaneçam e continuarão a permanecer, desde que apontem realidades que podem ser nomeadas apenas desajeitadamente ou que não possam completamente ser nomeadas nas línguas dos viajantes estrelares... realidades que logo desaparecerão se desistirmos de seus nomes, dos termos em antigo kavalariano. Tudo mudou, mesmo nós de
Alto Kavalaan, e Jaan diz que deveremos mudar ainda mais se quisermos cumprir nosso destino na história dos homens. Assim, as velhas regras de nomes e de nomes de laço se quebram, e mesmo os altos-senhores ficam mais ambíguos em seus discursos, e Jaantony Alto-Jadeferro passa a se chamar Jaan Vikary.
- Se isso não importa - Dirk falou -, aonde quer chegar?
- Tudo isso era um exemplo, t'Larien, uma simples e elegante ilustração do quanto sua própria cultura tem erroneamente a pretensão de fazer parte da nossa, de como você coloca seus julgamentos e seus valores em nós a cada palavra e ato. Esse é o ponto. Há coisas mais importantes em jogo, mas o padrão é o mesmo; você comete o mesmo erro, um erro que não devia cometer. O preço pode ser maior do que você é capaz de pagar. Acha que não sei o que está tentando fazer?
- O que estou tentando fazer?
Janacek sorriu novamente, seus olhos apertados e duros, pequenas rugas formando-se nos cantos.
- Está tentando tirar Gwen Delvano do meu teyn. Verdade?
Dirk não disse nada.
- É verdade - Janacek falou. - E é errado. Entenda que isso nunca será permitido. Eu não permitirei. Sou ligado por ferro-e-fogo a Jaantony Alto-Jadeferro e não me esqueci disso. Somos teyn-e-teyn, nós dois. Nenhum laço que você já conheceu é mais forte.
Dirk pegou a si mesmo pensando em Gwen e em uma gota de lágrima profundamente vermelha, cheia de lembranças e promessas. Pensou que era uma pena que não pudesse dar a jóia-sussurrante para que Janacek a segurasse por um momento, para que o arrogante kavalariano pudesse experimentar o quão forte era o laço que Dirk tinha com sua Jenny. Mas tal gesto seria inútil. A mente de Janacek não teria ressonâncias com os padrões que o ésper havia talhado na pedra; seria apenas uma gema para ele.
- Eu amei Gwen - disse bruscamente. - Duvido que qualquer um de seus laços seja mais forte do que esse.
- Duvida? Bem, você não é kavalariano, não mais do que Gwen é, você não entende o ferro-e-fogo. Conheci Jaan quando ambos éramos muito jovens. Eu era mais jovem do que ele, na verdade. Ele gostava de brincar com crianças mais novas, em vez de ficar com os de sua idade, e vinha freqüentemente até nossa creche. Eu o tomei em grande estima logo de início, como apenas um garoto é capaz, porque ele era mais velho do que eu e, portanto, lhe faltava menos para ser um alto-senhor, e porque ele me levava em aventuras por estranhos corredores e cavernas, e porque ele me contava histórias fascinantes. Quando fiquei mais velho, me interei do motivo pelo qual Jaantony ficava com tanta freqüência entre as crianças mais novas e fiquei chocado e envergonhado. Ele tinha medo dos de sua idade, porque eles o insultavam e freqüentemente batiam nele. Mas, quando descobri isso, já havia um laço entre nós. Você poderia chamar isso de amizade, mas estaria errado; estaria impondo seus próprios conceitos em nossa vida mais uma vez. Era mais do que sua amizade de outros mundos, já havia ferro entre nós, embora ainda não fôssemos teyn-e-teyn. Da próxima vez que Jaan e eu fomos explorar juntos (estávamos bem longe da fortaleza do nosso grupo, em uma caverna que conhecíamos bem), eu o surpreendi e bati nele até que cada parte de seu corpo estivesse com hematomas e inchada. Ele não apareceu na barraca das crianças da minha idade durante todo o inverno, mesmo assim, um dia retornou. Não havia amargura entre nós. Começamos a explorar e a caçar juntos mais uma vez, e ele me contou mais histórias, mitos ou não. De minha parte, eu o atacava nos momentos mais inesperados, sempre pegando-o desprevenido e derrotando-o. Com o tempo, ele começou a revidar, e bem. Com o tempo, não consegui mais surpreendê-lo com meus punhos. Um dia escondi uma faca de Jadeferro sob minha camisa e cortei Jaan com ela. Então, ambos começamos a carregar facas. Quando ele chegou à adolescência, a idade que deveria adotar seus nomes-escolhidos e tornar-se sujeito ao código de honra, Jaantony já deixara de ser um sujeito facilmente insultável. Ele sempre foi impopular. Você deve entender que ele sempre foi um tipo questionador, que fazia perguntas incômodas e com opiniões pouco ortodoxas, um amante da história, mas com um desprezo aberto em relação à religião, com um interesse pouco saudável nos outros mundos que se moviam entre nós. Por isso, foi desafiado uma vez após outra naquele primeiro ano em que atingiu a idade para duelar. E sempre venceu. Quando eu cheguei à adolescência alguns anos depois, e nós nos tornamos teyn-e-teyn, eu dificilmente conseguia alguém com quem lutar. Jaantony pusera medo em todos eles, então não nos desafiavam. Fiquei muito desapontado. Desde essa época, duelamos juntos muitas vezes. Estamos ligados por toda a vida, e passamos por muitas coisas, e não me importo em ouvir você jorrar comparações com esse "amor" sem significado que encanta tanto vocês de outros mundos, esse laço quase-humano que vem e vai de acordo com o momento. O próprio Jaantony foi muito corrompido por esse conceito durante seus anos em Ávalon, e isso, de certa maneira, foi minha culpa, porque eu o deixei sozinho. Era verdade que em Ávalon eu não teria função ou lugar, mesmo assim, eu deveria ter ido para lá. Falhei com Jaan nisso. Nunca mais falharei de novo. Sou teyn dele e sempre serei seu teyn, e não permitirei que ninguém o mate, o machuque, deturpe sua mente ou manche seu nome. Essas coisas são parte de meu laço e de meu dever. Hoje em dia, Jaan permite com freqüência que o nome dele seja ameaçado por tipos como você e Ruark. De muitas maneiras, Jaan é um homem perverso e perigoso, e os equívocos da mente dele em geral nos colocam em perigo. Mesmo os heróis dele... Um dia me lembrei de algumas das histórias que ele havia me contado quando eu era criança, e me surpreendi com o fato de que todos os heróis favoritos de Jaan eram homens solitários que finalmente foram derrotados. Aryn Alto-Pedrardente, por exemplo, que dominou toda uma época da história. Ele governou, pela força de sua personalidade, o mais poderoso grupo que Alto Kavalaan já conheceu, a Montanha Pedrardente; e quando seus inimigos se uniram em uma alta-guerra e todas as mãos se ergueram contra ele, ele colocou espadas e escudos nos braços de suas eyn-kethi e mandou-as para a batalha, para engrossar as fileiras de seu exército. Seus inimigos foram desbaratados e humilhados, segundo a versão que Jaan me contou da história. Mais tarde, descobri que Aryn Alto-Pedrardente não conseguiu vitória alguma. Tantas eyn-kethi de seu grupo foram mortas naquele dia, que poucas sobraram para dar à luz novos guerreiros. O poder e a população de Montanha Pedrardente declinaram paulatinamente, e quarenta anos depois do ousado golpe de Aryn, os Pedrardentes caíram, e os altos-senhores de Taal, de Jadeferro e de Punho de Bronze tomaram suas mulheres e crianças, deixando a fortaleza do grupo abandonada. A verdade é que Aryn Alto-Pedrardente era um fracassado e um tolo, um dos párias da história. E tais tipos são os loucos heróis de Jaan.