Um dos botões estava marcado com um ponto de interrogação. Experimentou-o e foi recompensado. A luz azul ficou mais clara, e de repente a tela estava cheia de pequenos caracteres, uma centena de números para uma centena de serviços básicos, tudo, desde ajuda médica e informações religiosas, até notícias de outros planetas.
Ele apertou a seqüência para "transporte de visitante". Figuras fluíam através da tela, e, uma por uma, as esperanças de Dirk murcharam. Havia serviços de aluguel de aeromóveis no porto espacial e em dez das catorze cidades. Todos fechados. Os veículos funcionais haviam partido de Worlorn com as multidões do Festival. Outras cidades ofereciam aluguéis de veículos movidos à hélice ou colchões de ar. Não mais. Em Musquel-Junto-ao-Mar, os visitantes podiam velejar pela costa em um genuíno veleiro da Colônia Esquecida. Serviço fora de operação. A linha de aerobus intercidades estava fechada, as estratonaves de propulsão nuclear de Tober e os dirigíveis de hélio de Eshellin haviam sido levados embora. A tela da parede mostrou para ele o mapa dos metrôs de alta velocidade que iam do porto espacial até cada uma das cidades, mas o mapa estava todo pintado de vermelho, e a legenda embaixo explicava que isso significava "fora de serviço".
Não havia outro meio de transporte para sair de Worlorn, exceto andando, pelo que parecia. Além disso, todos os outros visitantes tardios traziam os próprios veículos.
Dirk fez uma careta e fechou a imagem do mapa. Estava prestes a desligar a tela quando outra idéia lhe ocorreu. Teclou "Biblioteca" e conseguiu um ponto de interrogação e instruções. Então digitou "filhos da lesma" e "define". Esperou.
Foi uma espera curta, e dificilmente precisaria de toda a vasta informação que a biblioteca lhe forneceu, os detalhes da história, geografia e filosofia. Separou rapidamente a informação importante e descartou o resto. "Filhos da lesma", aparentemente, era um apelido comum para os seguidores de um culto pseudo-religioso baseado em drogas do Mundo do Oceano Vinhonegro. Eram chamados dessa maneira porque passavam anos vivendo no interior úmido e cavernoso de lesmas quilométricas que rastejavam com lentidão infinita no fundo dos mares. Os devotos chamavam as criaturas de Mães. As Mães alimentavam seus filhos com doces secreções alucinógenas, e acreditava-se que elas eram semi-sencientes. A crença, Dirk percebeu, não impedia os filhos da lesma de matarem as hospedeiras quando a qualidade de sua secreção de sonhos começava a declinar, o que invariavelmente ocorria quando as lesmas envelheciam. Livres de uma Mãe, os filhos da lesma iam atrás de outra.
Rapidamente Dirk limpou o tema dos dados e consultou a biblioteca novamente. O Mundo de Vinhonegro tinha uma cidade em Worlorn. Ficava sob um lago artificial de cinqüenta quilômetros de diâmetro, embaixo das mesmas águas escuras e férteis que cobriam a superfície do planeta natal dos vinhonegrinos. Era chamada de Cidade do Tanque sem Estrelas, e o lago ao redor era cheio de formas de vida trazidas para o Festival da Orla. Incluindo Mães, sem dúvida.
Por curiosidade, Dirk encontrou a cidade no mapa de Worlorn. Não tinha como ir até lá, é claro. Desligou a tela da parede e foi até a cozinha preparar uma bebida. Enquanto bebia - era um leite espesso e meio amarelado de algum animal kimdissiano, muito gelado, amargo mas refrescante -, tamborilava com os dedos impacientemente no balcão. A inquietude aumentava dentro dele, a urgência de fazer alguma coisa. Sentia-se preso ali, esperando que alguém retornasse, sem saber quem seria ou o que aconteceria em seguida. Tinha a impressão de que estivera se movendo para a frente e para trás ao capricho dos demais desde que descera do Tremor dos Inimigos Esquecidos. Nem sequer havia vindo por vontade própria; Gwen o chamara com a jóia- sussurrante, ainda que a recepção dela não tivesse sido muito calorosa quando ele chegou. Isso, ao menos, Dirk começara a entender. Ela estava presa em uma teia muito complexa, uma teia que era política e emocional ao mesmo tempo; e ele aparentemente tinha sido arrastado com ela, para observar impotente enquanto tempestades semi-compreendidas de tensão psicossocial e cultural giravam ao redor dele. Estava muito cansado de observar impotente.
Abruptamente lembrou-se de Kryne Lamiya. Na pista varrida pelos ventos, dois veículos estavam abandonados. Dirk colocou o copo no balcão pensativamente, secando os lábios com as costas da mão, e voltou para o painel da parede.
Era uma simples questão de encontrar a localização de todas as pistas de aterrissagem de Larteyn. Havia instalações no topo de todas as largas torres residenciais e uma grande garagem pública nas profundezas da rocha sob a cidade. A garagem, o diretório da cidade informava, podia ser acessada por qualquer um dos doze elevadores subterrâneos espalhados por Larteyn; as portas ocultas estavam no meio do penhasco escarpado que se erguia sobre a Comuna. Se os kavalarianos haviam deixado algum aeromóvel na cidade, era ali que poderia encontrá-lo.
Pegou o elevador, desceu até o térreo e foi para a rua. O Satã Gordo já ultrapassara o zênite e mergulhava em direção ao horizonte. As ruas de pedrardente estavam desbotadas e negras onde o brilho vermelho caía, mas quando atravessou as sombras entre as torres quadradas de ébano, Dirk pôde ver os fogos frios da cidade sob seus pés, o suave brilho vermelho da pedra, débil, mas ainda persistente. Nos espaços abertos, ele mesmo projetava sombras, espectros escuros e frágeis que se empilhavam desajeitadamente uns sobre os outros - quase mas não totalmente coincidentes - e afundavam rapidamente em seus calcanhares para despertar a pedrardente adormecida. Não viu ninguém durante o percurso, embora se perguntasse inquieto sobre os Braiths e, em determinado momento, tenha passado por algo que devia ser uma residência. Era uma construção quadrada com um telhado abobadado e pilares de ferro negro na porta. Acorrentado a um desses pilares estava um cão de caça que parecia mais alto do que Dirk, com brilhantes olhos vermelhos e um focinho comprido e sem pelos que o fazia lembrar um rato. A criatura estava roendo um osso, mas parou quando ele passou e rosnou profundamente. Quem quer que vivesse naquela construção claramente não apreciava a idéia de visitantes.
Os elevadores subterrâneos ainda funcionavam. Dirk entrou em um deles, a luz do dia desapareceu, e chegou às passagens inferiores, onde Larteyn tinha grande semelhança com as fortalezas dos grupos em Alto Kavalaan: salas de pedra ecoantes com cortinas de ferro forjado, portas de metal em todos os lugares, câmaras dentro de câmaras. Um forte de pedra, Ruark dissera certa vez. Um forte, sem nenhuma parte que pudesse ser facilmente tomada. Mas agora estava abandonado.
A garagem tinha dez níveis e era fracamente iluminada, com espaço suficiente para mil aeromóveis em cada andar. Dirk vagou pela poeira por meia hora antes de encontrar um veículo. Era inútil para ele. Outro carro com forma de animal, decorado com metal azul-marinho que lhe dava a aparência grotesca de um morcego gigante, mais realista e assustador do que a arraia-banshee estilizada do veículo de Jaan Vikary. Mas era um casco vazio. Uma das asas ornamentadas estava torcida e semi-derretida, e do próprio aeromóvel restava apenas o corpo. As instalações interiores, a fonte de alimentação e o armamento haviam desaparecido, e Dirk suspeitava que o controle de gravidade também estivesse faltando, embora não pudesse ver a parte inferior do veículo. Deu uma volta ao redor da carcaça e seguiu adiante.
O segundo aeromóvel que encontrou estava ainda em condições piores. Na verdade, aquilo dificilmente poderia ser chamado carro. Não restava nada além de uma armação de metal nu e quatro assentos apodrecidos recostados no esqueleto de tubulação completamente destruído. Dirk passou por esse também.