Os próximos dois destroços estavam intactos, mas eram fantasmas. Ele podia apenas supor que seus proprietários haviam morrido em Worlorn, e que os veículos ficaram aguardando nas profundezas da cidade muito tempo depois de terem sido esquecidos, até que sua fonte de energia se esgotasse. Experimentou ambos, mas nenhum respondeu ao seu toque e tentativas de conserto.
O quinto carro - encontrado ao fim de uma hora de buscas - respondeu imediatamente.
Tipicamente kavalariano, o atarracado carro de dois lugares tinha asas curtas e triangulares que pareciam ainda mais inúteis do que as asas dos outros aeromóveis produzidos em Alto Kavalaan. Era esmaltado de prata e branco, e a cabine metálica tinha um formato que lembrava a cabeça de um lobo. Canhões de laser haviam sido colocados nos dois lados da fuselagem. O veículo não estava trancado; Dirk empurrou a escotilha da cabine, que se abriu com facilidade. Entrou, fechou a cabine e olhou para fora dos grandes olhos do lobo com um sorriso irônico no rosto. Então experimentou os controles. O aeromóvel ainda tinha toda a energia.
Franzindo o cenho, desligou a força novamente e recostou-se no assento para pensar. Encontrara o meio de transporte que estava procurando, se ousasse pegá-lo. Mas não podia se enganar: este carro não era uma ruína como os outros que encontrara. Estava em condições muito boas. Sem dúvida, pertencia a um dos outros kavalarianos que ainda estavam em Larteyn. Se as cores significavam alguma coisa - ele não tinha certeza disso -, então o veículo provavelmente pertencia a Lorimaar ou um dos outros Braiths. Definitivamente, pegá-lo não era o caminho mais seguro a se escolher.
Dirk reconheceu o perigo e o considerou. A espera não tinha apelo algum para ele, mas nem a perspectiva do perigo. Com Jaan Vikary ou sem Jaan Vikary, roubar um aeromóvel poderia ser a desculpa para os Braiths entrarem em ação.
Relutante, saiu da cabine e desceu do veículo, mas nem bem fez isso e ouviu vozes. Baixou a escotilha da cabine e a fechou com um estalido baixo mas ainda assim audível. Dirk se agachou, buscando a segurança das sombras a alguns metros de distância do carro-lobo.
Pôde ouvir os kavalarianos conversando, e seus passos ecoando barulhentos, muito antes de vê-los; eram apenas dois, mas soavam como dez. Quando chegaram ao espaço iluminado próximo ao aeromóvel, Dirk estava se espremendo contra um nicho na parede da garagem, uma pequena cavidade cheia de ganchos que antigamente eram usados para pendurar ferramentas. Não tinha muita certeza do motivo de estar se escondendo, mas estava contente por passar despercebido. As coisas que Gwen e Jaan lhe contaram sobre os outros residentes de Larteyn não eram muito tranquilizadoras.
- Você tem certeza de tudo isso, Bretan? - um deles, o mais alto, estava dizendo quando chegaram à vista de Dirk. Não era Lorimaar, mas a semelhança era extraordinária: este homem tinha a mesma altura imponente, a mesma pele curtida e enrugada. Mas era mais gordo do que Lorimaar Alto-Braith, seu cabelo era completamente branco - ao contrário do outro, que era a maior parte grisalho - e tinha um bigode "escovinha". Tanto ele quanto seu companheiro usavam um casaco branco sobre calça e camisa de tecido-camaleão que estavam quase negros na pouca luz da garagem. E ambos carregavam lasers.
- Roseph não brincaria comigo - o segundo kavalariano disse em uma voz áspera e arenosa. Era muito mais baixo do que o outro homem, quase da altura de Dirk, e mais jovem e mais esbelto também. Seu casaco tinha as mangas cortadas para mostrar poderosos braços marrons e um grosso bracelete de ferro-e-pedrardente. Conforme se moveu na direção do aeromóvel, ficou totalmente sob a luz por um instante e pareceu encarar a escuridão onde Dirk estava escondido. Tinha apenas metade do rosto: o resto estava deformado por cicatrizes. Seu "olho" esquerdo se movia sem cessar quando seu rosto se virava, e Dirk não demorou para entender o motivo: uma pedrardente preenchia a órbita vazia.
- Como você sabe isso? - o homem mais velho disse quando os dois pararam por um tempo ao lado do carro-lobo. - Roseph gosta de brincadeiras.
- Eu não gosto - disse o outro, o que fora chamado de Bretan. - Roseph pode brincar com você, com Lorimaar ou mesmo com Pyr, mas não ousa brincar comigo. - A voz dele era horrivelmente desagradável; havia uma aspereza sibilante que ofendia o ouvido, mas com cicatrizes tão grossas cobrindo seu pescoço, Dirk achou surpreendente que o homem ainda conseguisse falar.
O kavalariano mais alto apertou o lado da cabeça do lobo, mas a cabine não se abriu.
- Bem, se isso é verdade, temos que nos apressar - disse, queixosamente. - A fechadura, Bretan, a fechadura!
O caolho Bretan fez um barulho estranho, algo entre um grunhido e um rosnado. Tentou abrir a cabine.
- Meu teyn - falou com a voz áspera. - Deixei a cabine entreaberta... eu... levei só um momento para subir e me encontrar com você.
Nas sombras, Dirk pressionou o corpo contra a parede, e os ganchos se cravaram dolorosamente em suas costas, entre as omoplatas. Bretan franziu o cenho e se ajoelhou, enquanto seu companheiro mais velho ficou parado e parecia intrigado.
Então, repentinamente, o Braith ficou em pé novamente, e sua pistola laser estava empunhada em sua mão direita, apontada para Dirk. Seu olho de pedrardente brilhava opacamente.
- Saia e mostre-nos quem você é - exclamou. - O rastro que deixou no pó é muito claro de se ver.
Dirk, em silêncio, ergueu as mãos sobre a cabeça e saiu de seu esconderijo.
- Um quase-homem - o kavalariano mais alto se surpreendeu. - Aqui embaixo!
- Não - Dirk respondeu cuidadosamente. - Dirk t'Larien.
O homem alto o ignorou.
- Isso é que é ter sorte - comentou para seu companheiro com o laser. - Aqueles filhos da lesma de Roseph não teriam sido presas interessantes. Esse aí parece adequado.
Seu jovem teyn fez o barulho estranho novamente, e o lado esquerdo de seu rosto teve um espasmo. Mas o laser em sua mão ainda estava apontado.
- Não - disse para o outro Braith. - Infelizmente, não acho que podemos caçá-lo. Esse só pode ser aquele sobre quem Lorimaar falou. - Deslizou a pistola laser para dentro do coldre e acenou com a cabeça para Dirk, um movimento tão suave que mais parecia um dar de ombros. - Você é grosseiramente negligente. A cabine se tranca automaticamente quando é totalmente fechada. Pode ser aberta pelo lado de dentro, mas...
- Percebo isso agora - Dirk respondeu. Abaixou as mãos. - Eu estava apenas procurando por um carro abandonado. Preciso de transporte.
- Então tentou roubar nosso aeromóvel.
-Não.
- Sim. - A voz do kavalariano transformava cada palavra em um esforço doloroso. - Você é korariel de Jadeferro?
Dirk hesitou, com a negativa presa na garganta. Qualquer resposta que desse podia deixá-lo em apuros.
- Não tem resposta para isso? - disse o homem coberto de cicatrizes.
- Bretan - o outro advertiu. - As palavras do quase-homem não importam para nós. Se Jaantony Alto-Jadeferro o declarou korariel, então é verdade. Tais animais não têm voz sobre seu status. Ainda que dissesse que não, não pode mudar seu nome, então a realidade é a mesma independentemente disso. Se o matarmos, teremos roubado propriedade de Jadeferro e eles certamente exigirão duelo.
- Peço que considere as possibilidades, Chell - Bretan disse. - Este aí, este Dirk t'Larien pode ser homem ou quase-homem, korariel de Jadeferro ou não. Verdade?
- Verdade. Mas ele não é homem de verdade. Ouça-me, meu teyn. Você é jovem, e eu sei dessas coisas de kethi mortos há muito tempo.
- Considere mesmo assim. Se ele é quase-homem e os Jade-ferros o declararam korariel, então ele é korariel quer admita, quer não. Mas, se isso é verdade, Chell, então você e eu devemos ir contra os Jadeferros em duelo. Ele estava tentando roubar de nós, lembre-se disso. Se ele é propriedade Jadeferro, então é um ladrão Jadeferro.