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Então, chegava até a beira do telhado e voltava pelo mesmo caminho, e tudo mudava. O lado esquerdo de seu rosto era inumano, uma paisagem de planícies retorcidas e ângulos que nenhum rosto devia ter. A carne fora costurada em meia dúzia de lugares, e o resto tinha o brilho liso do esmalte. Desse lado, Bretan não tinha cabelo em lugar algum, nem orelha - apenas um buraco - e a metade esquerda de seu nariz era uma pequena peça de plástico colorido. Sua boca era uma abertura sem lábios e, o pior de tudo, se movia. Ele tinha um tique nervoso grotesco que lhe contraía o rosto, do canto esquerdo da boca seguia ondulando até o couro cabeludo, sobre montes de tecidos cicatriciais.

Na luz do dia, o olho de pedrardente de Braith era escuro como um pedaço de obsidiana. Mas lentamente a noite chegava, o Olho do Inferno mergulhava no horizonte, e os fogos se destacavam na órbita ocular. Na escuridão total, Bretan seria o Olho do Inferno, não a cansada supergigante de Worlorn; a pedrardente irradiaria um contínuo e inalterável fulgor vermelho, e o meio-rosto ao redor dele se tornaria a negra paródia de um crânio, uma moldura adequada para um olho como esse.

Tudo parecia muito aterrador até que alguém se lembrasse - como Dirk se lembrou - de que tudo era completamente deliberado. Bretan Braith não era obrigado a usar uma pedrardente como olho, ele escolhera isso, por suas próprias razões, e essas razões não eram difíceis de compreender. A mente de Dirk voltou ao momento mais cedo daquela tarde, e ao diálogo junto ao aeromóvel com cabeça de lobo. Bretan era rápido e perspicaz, sem dúvida, mas Chell podia facilmente estar nos primeiros anos da senilidade. Custara-lhe um doloroso esforço compreender a situação, e seu teyn o levara pela mão em cada ponto, Dirk se lembrava. Repentinamente, os dois Braiths pareciam muito menos assustadores, e Dirk podia apenas se perguntar por que ficara tão aterrorizado. Eles eram quase divertidos. O que quer que Jaan Vikary dissesse quando retornasse da Cidade do Tanque sem Estrelas, certamente nada aconteceria; não havia real perigo nesses dois.

Como se estivesse sublinhando isso, Chell começou a murmurar, falando consigo sem perceber, e Dirk olhou-o de relance e tentou escutar. O velho ria um pouco enquanto falava, os olhos encarando o vazio. Suas palavras não faziam nenhum sentido. Dirk levou vários minutos para compreender, mas finalmente percebeu que Chell estava falando em antigo kavalariano. Uma língua que evoluiu em Alto Kavalaan durante os longos séculos do interregno, quando os kavalarianos sobreviventes não tiveram contato com outros idiomas humanos, uma linguagem que rapidamente voltara aos padrões terráqueos, embora enriquecendo a língua materna com palavras que não tinham equivalentes. Quase ninguém falava antigo kavalariano atualmente, Garse Janacek lhe dissera, e mesmo assim aqui estava Chell, um homem mais velho do mais tradicional grupo-coalizão, murmurando coisas que sem dúvida ouvira em sua juventude.

E Bretan, que batera sonoramente em Dirk por usar a forma errada para interpelá-lo, uma forma permitida apenas para seus kethi. Outro costume moribundo, Garse dissera; até mesmo os altos-senhores estavam ficando mais relaxados. Mas não Bretan Braith, jovem e sem altos-títulos, que se aferrava a tradições que homens de gerações mais antigas já haviam descartado como disfuncionais.

Dirk quase sentiu pena deles. Eram anômalos, decidiu, mais marginais e mais sozinhos do que o próprio Dirk, sem mundo em certo sentido, porque Alto Kavalaan já estava além de tudo aquilo e não podia mais ser o mundo deles. Não era de se admirar que tivessem vindo a Worlorn e permanecido ali. Eles e seus costumes estavam morrendo.

Bretan, em particular, era digno de pena; Bretan, que tentava tanto ser uma figura assustadora. Era jovem, talvez o último crente verdadeiro, e viveria para ver um tempo em que ninguém compartiria seus costumes. Era por isso que ele era teyn de Chell? Porque seus pares o rejeitavam e a seus valores antiquados? Provavelmente, imaginou Dirk, e aquilo era cruel e triste.

Um sol amarelo ainda brilhava no oeste. O Cubo era uma vaga lembrança vermelha no horizonte, e Dirk estava pensativo e controlado, já tendo superado seus medos, quando ouviu os aeromóveis se aproximando.

Bretan Braith congelou, olhou para cima, e tirou as mãos dos bolsos. Uma delas foi descansar, quase automaticamente, no coldre da pistola laser. Chell, pestanejando, levantou-se lentamente e de repente pareceu ficar uma década mais jovem. Dirk ergueu-se também.

Os veículos desceram. Os dois juntos, o cinzento e o verde-oliva, voando com uma precisão quase militar, lado a lado.

- Venha aqui. - Bretan grunhiu, e Dirk obedeceu. Chell juntou-se a eles, então estavam os três juntos, com Dirk no centro como um prisioneiro. O vento era cortante. Ao redor deles, as pedrar-dentes da cidade de Larteyn irradiavam um fulgor sangrento, e o olho de Bretan brilhava selvagemente em seu ninho de cicatrizes. As contrações haviam parado por alguma razão; seu rosto estava rígido.

Jaan Vikary manobrou a arraia cinzenta e aterrissou gentilmente, então desceu pelo lado do veículo e se aproximou deles a passos largos. A quadrada e feia máquina militar, cujo teto blindado impedia de ver o piloto, aterrissou quase ao mesmo tempo, e Garse Janacek saiu dela, erguendo a cabeça e olhando ao redor para ver qual era o problema. Viu, fechou a porta do veículo com força, se aproximou e ficou à direita de Vikary.

Vikary cumprimentou Dirk primeiro, com um aceno rápido e um vago sorriso. Então olhou para Chell.

- Chell Nim Ventofrio Fre-Braith Daveson - disse, formalmente. - Honras ao seu grupo, honras ao seu teyn.

- É para os seus - o velho Braith disse. - Meu novo teyn está ao meu lado, você não o conhece. - Indicou Bretan. Jaan se virou e mediu o jovem marcado por cicatrizes rapidamente com os olhos.

- Sou Jaan Vikary - disse -, do grupo Jadeferro.

Bretan fez seu ruído, aquele mesmo ruído peculiar. Seguiu-se um estranho silêncio.

- Mais propriamente - Janacek falou -, meu teyn é Jaantony Riv Lobo Alto-Jadeferro Vikary. E eu sou Garse Jadeferro Janacek.

Agora Bretan respondeu.

- Honras ao seu grupo, honras ao seu teyn. Sou Bretan Braith Lantry.

- Eu deveria saber - Janacek disse com um leve sinal de sorriso. - Ouvimos falar de você.

Jaan Vikary lhe deu uma olhada de advertência. Parecia haver algo de errado com o rosto de Jaan. No início, Dirk pensou que era impressão sua, por causa da pouca luz - a escuridão chegava rapidamente mas então viu que a mandíbula de Vikary estava levemente inchada em um lado, dando a seu perfil um aspecto deformado.

- Viemos até vocês em alto agravo - disse Bretan Braith Lantry.

Vikary olhou para Chell.

- É isso mesmo?

- E isso mesmo, Jaantony Alto-Jadeferro.

- Lamento que haja discórdia entre nós - Vikary respondeu. - Qual é o problema?

- Precisamos fazer uma pergunta para você - Bretan falou. Colocou a mão no ombro de Dirk. - Este aqui, Jaantony Alto-Jadeferro. Diga-me, ele é korariel de Jadeferro ou não?

Agora Garse Janacek sorria abertamente com ironia, e seus olhos azuis encontraram os de Dirk, com ar zombeteiro em suas profundezas geladas, como se dissesse, "Bem, bem, o que você fez agora?"

Jaan Vikary apenas franziu o cenho.

- Por quê?

- Por acaso sua resposta depende de nossos motivos, alto-senhor? - Bretan perguntou asperamente. Sua bochecha marcada por cicatrizes se contorceu violentamente. Vikary olhou para Dirk. Claramente não estava satisfeito com aquela situação.

- Não há motivos para que você demore ou nos negue sua resposta, Jaantony Alto-Jadeferro - Chell Daveson falou. - A verdade é sim ou a verdade é não; não pode ser mais do que isso.