- Não, ninguém pensa que você é um covarde, ou mesmo ele. Jaantony pode ser kavalariano, com tudo de mau que existe nisso, mas nem mesmo eu digo que seja covarde. Mas há tipos diferentes de coragem, não? Se esta torre pegasse fogo, você arriscaria a vida para salvar Gwen e talvez a mim? Garse também, talvez?
- Acredito que sim - Dirk falou.
Ruark assentiu.
- Veja, então, você é um homem corajoso. Não é necessário um suicídio para provar isso.
Gwen assentiu.
- Lembre-se do que você disse naquela noite em Kryne Lamiya, Dirk, sobre vida e morte. Você não pode sair e se matar depois daquilo, pode?
Ele franziu o cenho.
- Mas que maldição, isso não é suicídio!
Ruark riu.
- Não? É quase a mesma coisa. Por acaso acha que pode derrotá-lo?
- Bem, não, mas...
- Se o suor fizer a espada escorregar da mão dele, ou algo assim, você o matará?
- Não - Dirk assegurou. - Eu...
- Isso seria errado, não é? Sim! Bem, deixá-lo matar você também é errado. Mesmo dar a ele a chance de fazer isso. É estúpido. Além disso, você não é kavalariano, então nem me mencione Jaantony. Descrente ou não, ele ainda é um matador. Você é melhor do que isso, Dirk. E ele tem uma desculpa, ele pensa que luta para, talvez, mudar o próprio povo. Jaan tem um grande complexo de salvador, mas não zombemos dele, não. Mas você, Dirk, você não tem nenhum motivo para fazer isso. Tem?
- Acho que não. Mas, que maldição, Ruark, ele está fazendo a coisa certa. Você não parecia tão desenvolto quando ele lhe disse como os Braiths teriam caçado você se não fosse pela proteção dele.
- Não, não me senti nada bem, de verdade. Isso não muda nada. Então eu sou korariel, talvez, então os Braiths são piores do que os Jadeferros, então Jaan usa violência para impedir violência pior, talvez. Isso é certo? Ah, não posso dizer. É realmente uma difícil questão moral! Talvez os duelos de Jaan sirvam para algum propósito, sim, para seu povo, para nós. Mas seu duelo é uma completa tolice, não serve para nada, apenas para que morra. E para que Gwen fique com Jaan e Garse para sempre, até que eles percam um duelo, quem sabe, e isso não será agradável para ela.
Ruark fez uma pausa e terminou seu vinho, então virou-se sobre o banco para servir-se de outra taça. Dirk permaneceu sentado muito rígido, com os olhos de Gwen sobre si, um olhar tão pesado que quase podia ser sentido. A cabeça dele latejava. Ruark estava confundindo tudo, pensou novamente. Tinha de fazer a coisa certa, mas qual era? Repentinamente todas as suas percepções e decisões tinham evaporado. O silêncio caiu pesado sobre a sala de trabalho.
- Não fugirei - Dirk falou finalmente. - Não fugirei. Mas tampouco vou duelar. Irei até lá e direi minha decisão para eles, que me recuso a lutar.
O kimdissiano girou o vinho na taça e riu.
- Bem, há uma certa coragem moral nisso. Realmente. Jesus Cristo, Sócrates, Erika Stormjones e, agora, Dirk t'Larien, grandes mártires da história, sim. Talvez o poeta Açorrubro escreva alguma coisa sobre você.
Gwen lhe respondeu mais seriamente.
- Eles são Braiths, Dirk, altos-senhores de Braith da velha guarda. Em Alto Kavalaan talvez você jamais fosse desafiado para um duelo. Os conselhos de altos-senhores reconhecem que pessoas de outros mundos não aderem ao código. Mas isso é diferente. O árbitro se pronunciará contra você, e Bretan Braith e seus irmãos de grupo o matarão ou o caçarão. Ao recusar um duelo, aos olhos deles, você prova ser um quase-homem.
- Não posso fugir! - Dirk repetiu. Todos os seus argumentos sumiram de repente; ele não tinha nada além da emoção, uma determinação de encarar o que estava por vir.
- Você afasta sua sanidade, sim, na verdade. Não é covardia, Dirk. É a escolha mais valente de todas, pense dessa maneira, arriscar-se ao desprezo deles por fugir. Mesmo então, você corre perigo. Provavelmente eles o caçarão, Bretan Braith, se ele viver, os outros do grupo se ele morrer, sabe? Mas você viverá, talvez consiga evitá-los e ajudará Gwen.
- Não posso - Dirk falou. - Prometi para eles, para Jaan e Garse.
- Prometeu? O quê? Que morreria?
- Não. Sim. Quero dizer, Jaan me fez prometer que seria um irmão para Janacek. Eles não estariam neste duelo se Vikary não estivesse tentando me tirar da encrenca.
- Depois que Garse a empurrou para ela - Gwen disse amargamente, e Dirk notou o súbito veneno no tom tranqüilo dela.
- Eles podem morrer amanhã também - Dirk falou, incerto. - E eu sou responsável por isso. Agora você diz que devo abandoná-los.
Gwen chegou bem perto dele e levantou as mãos. Os dedos dela passaram suavemente pelo rosto dele enquanto ela afastava mechas do cabelo castanho-cinzento da testa, e os grandes olhos verdes o encararam. De repente, ele se lembrou de outras promessas: a jóia-sussurrante. E tempos havia muito passados voltaram novamente, e o mundo girou, e certo e errado se fundiram irremediavelmente.
- Dirk, me escute - Gwen disse lentamente. - Jaan já esteve em seis duelos por minha causa. Garse, que nem me ama, esteve com ele em quatro. Eles mataram por mim, por meu orgulho, minha honra. Não pedi isso, não mais do que você pediu pela proteção deles. Era a concepção que eles tinham da minha honra, não a minha. Mesmo assim, aqueles duelos foram para mim o mesmo que este é para você. Apesar disso, você me pediu para deixá-los, para voltar para você, para amá-lo novamente.
- Sim - Dirk respondeu. - Mas... não sei. Deixei um rastro de promessas não cumpridas. - A voz dele estava angustiada. - Jaan me nomeou keth.
Ruark bufou.
- Se ele o nomeasse jantar, você pularia para dentro da panela, hein?
Gwen apenas sacudiu a cabeça tristemente.
- E você sente isso como? Um dever? Uma obrigação?
- Acho que sim - ele disse, relutante.
- Então já respondeu a si mesmo, Dirk. Você me disse qual deve ser minha resposta para você. Se sente tão fortemente que tem que cumprir os deveres de um keth de curta duração, um laço que nem mesmo existe em Alto Kavalaan, como pode me pedir para descartar o jade-e-prata? Betheyn significa mais do que keth.
Gwen tirou as mãos do rosto dele e deu um passo para trás.
Dirk esticou a mão bruscamente e pegou o pulso dela. O pulso esquerdo. Fechou o punho ao redor do frio metal e do jade polido.
- Não - ele disse.
Gwen não disse nada. Apenas esperou.
Para Dirk, Ruark estava esquecido e a sala de trabalho desaparecera na escuridão. Havia apenas Gwen, encarando-o, com olhos verdes, grandes e cheios de... de quê? Promessas? Ameaças? Sonhos perdidos? Ela esperou em silêncio, e ele tropeçou nas palavras, sem saber o que dizer a seguir. E o jade-e-prata estava frio em sua mão, e ele começou a se lembrar...
Lembrou das lágrimas vermelhas cheias de amor, embrulhadas em prata e veludo, queimando intensas e frias. Do rosto de Jaan, com pomos altos, a mandíbula lisa e quadrada, o cabelo negro e ralo, e o sorriso fácil. A voz, calma como aço, sempre imperturbáveclass="underline" Mas eu existo.
As torres brancas fantasmagóricas de Kryne Lamiya vieram a sua mente, gemendo, zombando, cantando o desespero enquanto um tambor distante soava sem significado. No meio de tudo isso, desafio, decisão. Por um breve momento, soubera o que dizer.
Recordou-se do rosto de Garse Janacek, distante (os olhos azuis esfumaçados, a cabeça sempre erguida, a boca severa), hostil (o olhar gelado, o sorriso selvagem que brincava por trás de sua barba), cheio de humor amargo (os olhos crepitando, os dentes arreganhados em um sorriso da própria morte).
Pensou em Bretan Braith Lantry, o tique e o olho de pedrardente, uma figura que inspirava medo e pena com um beijo frio e assustador.