Vinho tinto em taças de obsidiana, vapores que irritavam os olhos, bebido em uma sala cheia de canela e de estranha camaradagem.
Palavras. Um tipo novo e especial e irmão de grupo, Jaan falou.
Palavras. Ele será desleal, Garse prometeu.
O rosto de Gwen, uma Gwen mais jovem, mais espigada, com olhos de alguma maneira maiores. Gwen rindo. Gwen chorando. Gwen tendo um orgasmo. Abraçando-o, seus seios soltos e vermelhos, o rubor se espalhando por todo seu corpo. Gwen sussurrando para ele, Eu te amo, eu te amo. Jenny!
Uma sombra negra e solitária remando uma barcaça baixa pelo escuro canal sem fim.
Recordações.
A mão que segurava o braço de Gwen tremia.
- Se eu não duelar - ele disse -, você deixará Jaan? E virá comigo?
O aceno de resposta dela foi dolorosamente lento.
- Sim. Pensei nisso o dia todo, conversei sobre isso com Arkin. Planejamos que ele o trouxesse aqui em cima, e que eu diria a Jaan e Garse que tinha que trabalhar.
Dirk descruzou as pernas, que formigavam como se tivessem sido atacadas por uma centena de pequenas facas, enquanto a dormência e a rigidez saíam. Levantou-se e estava decidido.
- Você ia fazer isso de qualquer jeito, então? Não é só por causa do duelo?
Ela balançou a cabeça.
- Então eu irei. Quando podemos deixar Worlorn?
- Duas semanas e três dias - Ruark falou. - Não há naves até lá.
- Teremos que nos esconder - Gwen disse. - Considerando as circunstâncias, é o único caminho seguro. Não sabia nesta tarde se diria minha decisão para Jaan ou simplesmente partiria. Pensei que talvez pudéssemos conversar, e juntos o encararíamos. Mas essa história de duelo define tudo. Você não teria permissão para partir agora.
Ruark saltou de seu banco.
- Vão, então - falou. - Eu ficarei aqui, vigiarei, vocês podem ligar e eu contarei o que aconteceu. E seguro o suficiente para mim, a menos que Garsinho e Jaantony percam o duelo deles. Então, eu iria rapidamente me unir a vocês, hein?
Dirk pegou as mãos de Gwen.
- Eu amo você. - Disse. - Ainda te amo.
Ela sorriu gravemente.
- Sim. Estou feliz, Dirk. Talvez dê certo desta vez. Mas temos que nos mexer rápido, desaparecer completamente. De agora em diante, todos os kavalarianos são veneno para nós.
- Tudo bem - ele concordou. - Para onde vamos?
- Desça e pegue suas coisas. Precisará de roupas quentes. Depois me encontre no telhado. Pegaremos o aeromóvel e depois decidiremos para onde vamos.
Dirk assentiu e beijou-a rapidamente.
Voavam sobre os rios escuros e as colinas ondulantes da Comuna quando as primeiras luzes do amanhecer tocaram o céu, um baixo brilho carmesim no leste. Logo o primeiro sol amarelo nasceu, e a escuridão se transformou em uma cinzenta névoa matutina que rapidamente se dissolveu. O aeromóvel em forma de arraia estava aberto, como sempre, e Gwen o conduzia em velocidade máxima, então o vento frio corria ao redor deles com um ruído alto, tornando impossível conversar. Enquanto ela dirigia, Dirk dormia ao seu lado, embrulhado em um sobretudo de retalhos marrons que Ruark lhe dera antes de partir.
Ela o despertou quando a lança brilhante de Desafio apareceu diante deles, sacudindo gentilmente seu ombro. O sono dele era leve, inquieto. Ele imediatamente se endireitou e bocejou.
- Estamos aqui. - Dirk comentou, desnecessariamente.
Gwen não respondeu. A arraia perdeu velocidade conforme a cidade emereliana ficava maior e mais próxima.
Dirk olhou para fora, na direção do amanhecer.
- Dois sóis já nasceram - falou - e, olhe, já dá quase para ver o Satã Gordo. Acho que agora já sabem que partimos. - Pensou em Vikary e em Janacek, aguardando por ele no quadrado da morte desenhado na rua, acompanhados pelos Braiths. Bretan teria caminhado impacientemente, sem dúvida, e feito seu estranho ruído. Seu olho estaria opaco e frio na manhã, como uma brasa morta em seu rosto marcado. Talvez estivesse morto agora, ou Jaan, ou Garse Janacek. Por um breve instante, Dirk corou de vergonha. Aproximou-se de Gwen e passou um braço ao redor dela.
Desafio cresceu diante deles. Gwen guiou o aeromóvel em uma brusca descida através de nuvens brancas desfeitas. A entrada negra de uma pista de aterrissagem se iluminou com a aproximação deles e Dirk viu os números enquanto Gwen entrava nela. Era o 520° andar, uma pista vasta, imaculada e deserta.
- Bem-vindos - uma voz familiar disse enquanto a arraia pairava e mergulhava no piso. - Sou a Voz de Desafio. Posso ajudá-los?
Gwen desligou o aeromóvel e desceu pela asa.
- Queremos nos tornar residentes temporários.
- A tarifa é muito razoável - a Voz falou.
- Leve-nos para um apartamento, então.
Uma parede se abriu, e outro dos carros com pneus-balão foi ao encontro deles. Em tudo, exceto na cor, era gêmeo do que os levara durante a última visita. Gwen entrou, e Dirk começou a carregar o veículo com a bagagem que estava no banco de trás do aeromóveclass="underline" o pacote de sensores que Gwen trouxera consigo, três malas cheias de roupas, um pacote de suprimentos de campo para caminhar no interior do bosque. Os dois aeropatinetes, completos, com botas de vôo, estavam no topo da pilha, mas Dirk os deixou no aeromóvel.
O veículo partiu, e a Voz começou a contar para eles os vários tipos de instalações disponíveis. Desafio tinha quartos mobiliados em uma centena de estilos, para fazer as pessoas de outros mundos sentirem-se em casa, embora o gosto de di-Emerel fosse o predominante.
- Algo simples e barato - Dirk pediu. - Uma cama de casal, cozinha e chuveiro.
A Voz os conduziu até um pequeno cubículo com paredes azuis pastel, dois níveis acima. Tinha cama de casal, que preenchia a maior parte do quarto, além de uma quitinete construída dentro de uma das paredes e uma enorme tela de parede colorida que ocupava três quartos de outra.
- Genuíno esplendor emereliano. - Gwen comentou sarcasticamente quando entraram. Ela colocou o pacote de sensores e a mala de roupas no chão e jogou-se aliviada sobre a cama. Dirk acomodou as malas que estava carregando atrás de um armário de porta deslizante e sentou-se aos pés de Gwen, na ponta da cama, e olhou a tela.
- Uma grande seleção de vídeos está disponível para seu entretenimento - a Voz disse. - Lamento informar que toda a programação regular do Festival foi encerrada.
- Você nunca vai embora? - Dirk reclamou.
- Funções básicas de monitoramento continuam o tempo todo, para sua segurança e proteção; mas, se desejar, minha função de serviço pode ser temporariamente desativada na sua vizinhança. Alguns moradores preferem assim.
- Incluindo eu - Dirk falou. - Desative-se.
- Se mudar de idéia ou precisar de algum serviço - disse a Voz -, simplesmente aperte o botão marcado com uma estrela em qualquer painel de parede próximo, e estarei novamente às suas ordens. - Então ficou em silêncio.
Dirk esperou por um momento.
- Voz? - chamou. Ninguém respondeu. Assentiu com satisfação e voltou a inspecionar a tela. Gwen, atrás dele, já estava adormecida, a cabeça apoiada nas mãos e o corpo encolhido de lado.
Queria ligar para Ruark desesperadamente, para descobrir o que acontecera no duelo, quem vivera e quem morrera. Mas não achava que já fosse seguro. Um dos kavalarianos - ou mais do que um - podia estar fazendo companhia a Ruark em seus aposentos ou na sala de trabalho, e uma ligação delataria a posição deles. Tinha que esperar. Antes de partirem, o kimdissiano lhes dera o número de um apartamento deserto dois andares acima do seu, e dissera para Dirk ligar naquele número assim que anoitecesse. Se fosse seguro, prometia estar ali para atender a ligação. Caso contrário, não haveria resposta. De qualquer maneira, Ruark não sabia para onde os dois fugitivos haviam ido, então os kavalarianos não poderiam arrancar essa informação dele.