Dirk estava muito cansado. Apesar de seu cochilo no aeromóvel, durante a viagem, a exaustão pesava sobre ele, misturada com as escuras cores da culpa. Finalmente tinha Gwen ao seu lado, mas não se sentia exultante. Talvez ficasse assim mais tarde, quando suas outras preocupações tivessem desaparecido e eles começassem a se conhecer novamente, como era em Ávalon, sete anos atrás. Mas isso não seria possível até que estivessem em segurança, fora de Worlorn, longe de Jaan Vikary, Garse Janacek e de todos os outros kavalarianos, longe das cidades mortas e das florestas moribundas. Voltariam para dentro do Véu do Tentador, Dirk pensou olhando ausente para a tela em branco, deixando a Orla para sempre. Iriam para Tara, Braque ou outro planeta saudável, talvez de volta a Ávalon, talvez para mais longe, até Gulliver, Vagabundo ou Velho Posseidon. Havia centenas de mundos que nunca vira, milhares, mais - mundos de humanos, não humanos e alienígenas, todos os tipos de distantes lugares românticos onde ninguém ouvira falar em Alto Kavalaan ou Worlorn. Ele e Gwen poderiam ver esses mundos juntos agora.
Cansado demais para dormir, inquieto e pouco à vontade, Dirk começou a brincar com a tela, testando suas capacidades sem objetivo definido. Ligou-a e apertou o botão marcado com um ponto de interrogação, como fizera no dia anterior no apartamento de Ruark em Larteyn, e a mesma lista de serviços piscou diante dele em tamanho triplicado. Estudou-a cuidadosamente, para aprender todo o possível. Talvez conseguisse algum conhecimento útil, averiguar algo que pudesse ajudá-los.
A lista incluía um número de chamadas para receber notícias planetárias. Digitou, esperando que o duelo do amanhecer tivesse sido noticiado, talvez como obituário. Mas a tela ficou cinza novamente, com letras brancas piscando "Serviço encerrado", até que ele a apagou.
Franzindo o cenho, Dirk tentou outra seqüência, para obter informações do porto espacial e checar os dados de Ruark sobre a nave. Dessa vez, teve melhor sorte. Três naves pousariam no planeta nos próximos dois meses-padrão. A primeira delas, como o kimdissiano dissera, chegaria em pouco mais de duas semanas, uma nave da Orla chamada Teric neDahlir. O que Ruark não mencionara, contudo, era que a nave iria para os mundos exteriores, partindo de Kimdiss e dirigindo-se para Eshellin, depois para o Mundo do Oceano Vinhonegro e, finalmente, para di-Emerel, seu ponto de origem. Uma semana depois, um navio de suprimentos chegaria de Alto Kavalaan. Então, não haveria nada até o Tremor dos Inimigos Esquecidos, retornando, com destino ao Véu.
Mas não seria possível esperar tanto tempo; ele e Gwen teriam simplesmente que pegar o Teric neDahlir e trocar de nave em algum dos mundos um pouco além. Embarcar seria o maior risco que teriam de enfrentar, Dirk refletiu. Era praticamente impossível que os kavalarianos os encontrassem em Desafio, com um planeta inteiro para procurar, mas Jaan Vikary certamente adivinharia que tentariam deixar o planeta assim que possível. Isso significava que ele deveria esperar por eles no porto espacial quando chegasse o momento. Dirk não sabia como lidariam com isso. Apenas podia esperar que não fosse necessário.
Dirk limpou a tela e tentou outros números, para saber quais funções haviam sido desligadas completamente, quais funcionavam precariamente - o serviço de emergência médica, entre eles - e os que ainda estavam ativos como nos tempos do Festival. Viu várias imagens das outras cidades, o que o convenceu de que haviam escolhido corretamente ao vir para Desafio. Os emerelianos tinham se determinado a fazer uma torre-cidade imortal e a mantiveram em funcionamento, apesar do frio, da escuridão e do gelo que chegava. Esse era um local cômodo para se viver. As outras cidades estavam comparativamente em piores condições. Quatro das catorze estavam completamente escuras e sem energia, e uma delas sofrerá tanta erosão do vento e do clima que estava quase desmoronando em ruínas empoeiradas.
Por um tempo, Dirk continuou a apertar botões, mas finalmente a brincadeira o cansou e sentiu-se entediado e inquieto. Gwen dormia. Ainda era manhã, impossível ligar para Ruark. Desligou a tela, lavou-se rapidamente no minúsculo banheiro e voltou para a cama, apagando as luzes. Levou algum tempo até dormir. Ficou deitado na morna escuridão, encarando o teto e ouvindo a suave respiração de Gwen, mas sua mente estava distante e preocupada.
Logo tudo ficará bem novamente, disse para si mesmo, do jeito que era em Ávalon. Mesmo assim, não conseguiu acreditar. Ele não se sentia como o velho Dirk t'Larien, o Dirk da Gwen, aquele que prometera a si mesmo que voltaria novamente. Sentiu, em vez disso, como se nada tivesse mudado; continuava tão cansado, tão sem esperanças como estivera em Braque e nos mundos antes desse. Sua Jenny estava com ele novamente, deveria estar transbordando de alegria, mas sentia apenas uma triste sensação de cansaço. Como se tivesse falhado com ela novamente.
Dirk colocou os pensamentos de lado e fechou os olhos.
Quando acordou, era tarde. Gwen já havia se levantado. Dirk tomou um banho e vestiu trajes de tela sintética de Ávalon, de cores suaves. Então os dois saíram para o corredor, para explorar o 522° andar de Desafio. Andavam de mãos dadas.
O apartamento deles era um dos milhares do setor residencial do edifício. Ao redor havia outros, idênticos ao deles, exceto pelos números nas portas negras. Os pisos, as paredes e os tetos dos corredores que atravessaram eram todos acarpetados em ricos tons de cobalto, e as luzes que pendiam em cada cruzamento, em globos pálidos e opacos, repousantes para os olhos, faziam jogo com esses tons.
- Isso é chato - Gwen disse, depois que andaram por alguns minutos. - A uniformidade é muito deprimente. E não vejo nenhum mapa. Fico surpresa que as pessoas não se percam.
- Acho que perguntam o caminho para a Voz - Dirk falou.
- Sim. Esqueci disso. - Ela franziu o cenho. - O que aconteceu com a Voz? Não a ouvi muito ultimamente.
- Eu a desliguei - Dirk contou. - Mas ainda está nos observando.
- Pode colocá-la em funcionamento de novo?
Ele assentiu, parou e então a levou até a porta negra mais próxima. O apartamento, como imaginara, estava desocupado e abriu facilmente ao seu toque. Dentro, a cama, a decoração, a tela de parede, era tudo igual. Dirk ligou a tela, apertou o botão marcado com uma estrela e desligou o aparelho novamente.
- Posso ajudá-los? - perguntou a Voz.
Gwen sorriu para Dirk; um sorriso leve e tenso. Parecia tão cansada quanto ele. Havia linhas de preocupação nos cantos de sua boca.
- Sim - ela respondeu. - Queremos fazer algo. Divirta-nos. Mantenha-nos ocupados. Mostre-nos a cidade. - Dirk achou que ela falava muito rápido, como alguém que ansiava por distração para afastar a mente de algum assunto desagradável. Ele se perguntou se temia pela segurança deles, ou se eram possíveis preocupações com Jaan Vikary.
- Entendo - a Voz respondeu. - Deixe-me ser seu guia, então, pelas maravilhas de Desafio, a glória de di-Emerel renascida na distante Worlorn. - Então começou a dar-lhes instruções, e foram até os elevadores mais próximos, para sair desse reino sem-fim de retos corredores cobalto, para regiões mais coloridas e divertidas.
Subiram ao Olimpo, um salão luxuoso no alto da cidade, e ficaram parados em um carpete negro que chegava aos tornozelos, enquanto olhavam para fora através da única janela de Desafio. Um quilômetro abaixo deslizavam fileiras de nuvens escuras, empurradas por um vento cortante que não podiam sentir. O dia estava escuro e sombrio; o Olho do Inferno queimava e brilhava como sempre, mas seus companheiros amarelos estavam escondidos atrás de uma bruma cinzenta que embaçava o céu. Podiam ver as distantes montanhas e o fraco verde-escuro da Comuna muito abaixo deles. Um robô-garçom serviu-lhes bebidas geladas.
Caminharam até o espigão central, um vão cilíndrico que atravessava a torre-cidade do topo à base. De pé no balcão mais alto, deram as mãos e olharam juntos para baixo, por outros balcões em fileiras sem-fim que se perdiam em um abismo pouco iluminado. Então abriram a porta de ferro fundido, saltaram e, ainda de mãos dadas, caíram flutuando envoltos na corrente morna. O espigão central era uma instalação recreativa que mantinha um traço de gravidade que dificilmente era grande o suficiente para ser chamada de gravidade - menos de 0,01 por cento da gravidade em di-Emerel.