- Não, Gwen não.
- Eu, então. Você quer que eu chame a atenção deles? Sem uma arma?
- Você tem uma arma - Vikary falou. - Você mesmo a roubou, insultando Jadeferro. Se vai usá-la ou não é uma decisão que apenas você pode tomar. Não confiarei em você para fazer a escolha correta. Já fiz isso uma vez. Simplesmente o informo. Outra coisa, t'Larien. O que quer que faça ou deixe de fazer, isso não muda nada entre mim e você. Esta chamada não muda nada. Você sabe o que temos que fazer.
- Você já me disse. - Dirk respondeu.
- Digo uma segunda vez. Quero que se lembre. - Vikary franziu o cenho. - E agora partirei. É um longo voo para Desafio, um longo e frio vôo.
A tela ficou escura antes que Dirk pudesse pensar em uma resposta.
Gwen estava esperando do lado de fora da porta, inclinada contra a parede acarpetada, o rosto escondido entre as mãos. Endireitou-se quando Dirk saiu.
- Estão vindo? - perguntou.
- Sim.
- Sinto muito, eu... saí. Não pude encará-lo.
- Não importa.
- Importa.
- Não - ele disse terminantemente. Seu estômago doía. Ficava imaginando gritos distantes. - Não importa. Você deixou claro antes... como se sente.
- Deixei? - ela riu. - Se sabe como me sinto, você me conhece melhor do que eu mesma, Dirk.
- Gwen, eu não... não, escute, não importa. Você tinha razão. Temos que... Jaan disse que temos uma arma.
Ela franziu o cenho.
- Temos? Ele acha que eu trouxe a arma de dardos? Ou o quê?
- Não, não acho. Ele só disse que temos uma arma, que a roubamos nós mesmos e insultamos Jadeferro.
Ela fechou os olhos.
- O quê? - disse. - É claro. - Abriu os olhos novamente. - O aeromóvel. É armado com canhões de laser. Deve ser o que ele quis dizer. Mas não estão carregados. Acho que nem estão conectados. Era eu quem usava esse aeromóvel a maior parte do tempo, e Garse...
- Entendo. Mas acha que os lasers podem ser consertados? Eles podem funcionar?
- Talvez. Não sei. Mas o que mais Jaan podia querer dizer?
- Os Braiths devem ter encontrado o carro, é claro. - Dirk comentou. Sua voz era fria e calma. - Teremos que nos arriscar. Vamos nos esconder... não podemos nos esconder, eles nos encontrarão. Bretan pode estar a caminho bem agora, se minha transmissão para Larteyn foi registrada em algum lugar lá embaixo. Não, vamos voltar para o aeromóvel. Eles não vão esperar por isso, se sabem que estávamos descendo pela galeria.
- O aeromóvel está a cinqüenta e dois andares acima - Gwen lembrou. - Como vamos chegar lá? Se Bretan tem tanto controle sobre a energia quanto achamos que tem, certamente desligou os elevadores. Ele parou as esteiras rolantes.
- Ele sabia que estávamos usando as esteiras rolantes - Dirk falou. - Ou pelo menos que estávamos na galeria. Os que estavam nos rastreando falaram para ele. Eles estão em contato, Gwen. Os Braiths. Têm que estar. As esteiras pararam de modo muito conveniente. Mas isso facilita as coisas.
- Facilita? O quê?
- Chamar a atenção deles - ele falou. - Para que venham atrás de nós, para salvar os benditos emerelianos. E isso o que Jaan quer que façamos. Não é o que você quer? - sua voz era cortante.
Gwen empalideceu visivelmente.
- Bem - disse. - Sim.
- Então você venceu. Vamos fazer isso.
Ela olhou pensativa.
- Os elevadores, então? Se ainda estiverem funcionando?
- Não podemos confiar nos elevadores - Dirk falou. - Mesmo se estiverem funcionando, Bretan pode pará-los quando estivermos dentro de um deles.
- Não sei se há escadas - ela disse. - E nunca encontraremos sem a Voz, mesmo se existirem. Podemos andar pela galeria, mas...
- Sabemos que pelo menos dois pares de Braiths estão percorrendo a galeria. Deve haver mais. Não.
- Então como?
- O que nos resta? - Dirk franziu o cenho. - O espigão central.
Dirk se inclinou por sobre a grade de ferro fundido, olhando para cima e para baixo, e ficou tonto. O espigão central parecia seguir infinitamente em ambas as direções. Eram apenas dois quilômetros do topo até a base, ele sabia, mas tudo ali dava a sensação de distância infinita. As correntes ascendentes de ar quente que divertiam os visitantes com a flutuabilidade de uma pena também enchiam o espaço com uma névoa branco-acinzentada, e os balcões que se alinhavam pela circunferência, andar após andar, eram todos idênticos, dando a ilusão de uma repetição sem-fim.
Gwen pegou algo de seu pacote de sensores, um instrumento metálico prateado do tamanho da palma de sua mão. Ficou parada perto de Dirk e o jogou suavemente no vão do espigão central. Os dois o observaram flutuar, girando mais e mais, piscando com a luz refletida. Flutuou até metade do diâmetro do grande cilindro antes que começasse a cair lentamente, gentilmente, meio suportado pelo ar ascendente, um grão de poeira metálica dançando na luz solar artificial. Observaram por uma eternidade, até que desaparecesse no abismo cinza embaixo deles.
- Bem - Gwen falou, depois que perderam o instrumento de vista -, a gravidade artificial ainda está funcionando.
- Sim. Bretan não conhece a cidade. Não o suficiente. - Dirk olhou de relance para cima, novamente. - Acho que devemos começar. Quem vai primeiro?
- Os homens primeiro - ela disse.
Dirk abriu o portão do balcão e retrocedeu até a parede. Tirou uma mecha de cabelo dos olhos impacientemente, deu de ombros e saiu correndo, dando o maior impulso que conseguiu quando chegou na beirada.
O impulso o levou para cima e ainda mais para cima. Por um segundo, era como se caísse, e o estômago de Dirk se contraiu, mas então olhou, viu e sentiu que não estava caindo, estava voando, subindo. Riu alto, repentinamente exultante, levou os braços adiante e começou a dar fortes braçadas, nadando mais alto e mais rápido. As fileiras de balcões vazios passavam por ele: um andar, dois, cinco. Cedo ou tarde, começaria a cair, uma lenta curva descendente até a distância envolta de cinza, mas dificilmente teria tempo de descer muito. O outro lado do espigão central estava a apenas trinta metros de distância, uma distância fácil de atravessar com a gravidade artificial do vão.
Finalmente, aproximou-se de uma parede curva e ricocheteou em um corrimão de ferro negro, girando sobre si mesmo e rodando absurdamente antes de alcançar e agarrar uma barra do balcão bem acima do corrimão em que batera. Foi fácil entrar. Viera sem problemas pelo espigão central e estava onze andares acima. Sorrindo e sentindo-se estranhamente animado, sentou-se e reuniu forças para um segundo salto enquanto observava Gwen vindo atrás dele. Voava como algum gracioso pássaro fabuloso, seu cabelo negro ondulando enquanto ela flutuava. Parou dois andares acima dele.
Quando chegaram ao 520° andar, Dirk tinha hematomas em meia dúzia de lugares em que batera contra varandas de ferro, mas sentia-se quase bem. Ao final de seu sexto salto vertiginoso pelo vão do espigão, estava quase relutante em chegar ao seu destino e retornar à gravidade normal. Mas chegou. Gwen já estava ali, esperando por ele, com o pacote de sensores e os suprimentos de campo presos às costas, entre as omoplatas. Ela lhe estendeu a mão e o ajudou a entrar no balcão.
Seguiram pelo amplo corredor que circundava o espigão central, até as já familiares sombras azuis.
Os globos brilhavam fracamente nos cruzamentos em cada lado deles, onde compridas passagens retas se afastavam do centro da cidade como raios em uma roda enorme. Escolheram um ao acaso e avançaram rapidamente em direção ao perímetro. Era uma caminhada mais longa do que Dirk imaginara, passando por vários outros cruzamentos (ele perdera a conta em quarenta), cada um como os demais, passando por portas negras que diferiam umas das outras apenas pela numeração. Nem ele nem Gwen falavam. A sensação agradável que o tocara por um breve tempo, a alegria de voar sem asas, deixou-o tão subitamente quanto viera enquanto ele caminhava pela meia-luz turva. No lugar dela, assaltou-o uma fraca sensação de medo. Ruídos imaginários atazanavam seus ouvidos: uivos distantes e as suaves pegadas de seus perseguidores. Seus olhos transformavam os globos de luz mais distantes em algo estranho e terrível, e Dirk via formas nos cantos cobalto onde só havia escuridão. Mas não encontraram nada, ninguém; era apenas sua mente pregando peças.