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Contudo, os Braiths tinham estado ali. Perto do perímetro de Desafio, onde o corredor transversal cruzava com a galeria exterior, encontraram um dos veículos de roda-balão que a Voz usava para levar os visitantes de um lado para outro. Estava vazio e virado, parte no carpete azul, parte no limpo e frio plástico que cobria o chão da galeria. Quando chegaram lá, pararam, e os olhos de Gwen encontraram os de Dirk em um comentário sem palavras. Os carros de roda-balão, ele se lembrou, não eram controlados pelos passageiros; a Voz os dirigia. E apenas um estava caído desse lado, sem energia ou movimento. Também notou outra coisa. Perto de uma roda traseira o carpete azul estava úmido e malcheiroso.

- Vamos - Gwen sussurrou, e voltaram a percorrer a galeria silenciosa, esperando que os Braiths que tinham estado por ali tivessem partido ou que não pudessem ouvi-los. A pista de aterrissagem e o carro deles estavam muito próximos agora; seria uma ironia cruel se não conseguissem alcançá-los. Mas parecia para Dirk que seus passos ecoavam horrivelmente altos na superfície não acarpetada da galeria. Certamente o prédio inteiro podia ouvi-los, mesmo Bretan Braith nos sótãos profundos, quilômetros abaixo. Quando chegaram à passarela de pedestres que passava por sobre as esteiras rolantes, começaram a correr. Ele não saberia dizer quem começou, se Gwen ou ele. Em um momento caminhavam lado a lado, tentando mover-se o mais rápido possível, com menos barulho que conseguissem fazer; então, repentinamente, estavam correndo.

Depois da galeria não acarpetada, passaram por duas voltas e uma porta larga que parecia relutante em abrir. Finalmente Dirk a empurrou com seu ombro coberto de hematomas, e ambos gemeram em protesto, mas a porta se abriu. Finalmente estavam novamente na pista de aterrissagem do 520° andar de Desafio.

A noite estava fria e escura. Podiam ouvir o eterno vento de Worlorn choramingando contra a torre emereliana, e uma única estrela brilhando no comprido e baixo retângulo que demarcava o céu do mundo exterior. Do lado de dentro, a pista de aterrissagem estava igualmente escura.

Nenhuma luz se acendeu quando entraram.

Mas o aeromóvel ainda estava lá, encurvado na escuridão como uma coisa viva, como o banshee que pretendia retratar, e nenhum Braith estava de guarda.

Aproximaram-se do veículo. Gwen pegou o pacote de sensores e os suprimentos de campo e colocou-os no banco traseiro, onde os aeropatinetes ainda estavam guardados. Dirk ficou observando-a, tremendo; o sobretudo de Ruark se fora, e o ar estava gélido naquela noite.

Gwen tocou em um controle do painel de instrumentos, e uma fenda escura se abriu no centro da parte superior da arraia. Painéis de metal correram para trás e para cima, e as entranhas da máquina kavalariana estavam diante deles. Ela se aproximou da dianteira e acendeu uma luz na parte inferior de um dos painéis. O outro painel, Dirk viu, estava coberto de ferramentas de metal presas em clipes.

Gwen, de pé em uma pequena área iluminada com luz amarela, estudava o intrincado mecanismo. Dirk se aproximou. Finalmente, ela balançou a cabeça.

- Não - disse, em uma voz cansada. - Não funciona.

- Podemos tirar energia do controle de gravidade - Dirk sugeriu. - Você tem as ferramentas - apontou.

- Não tenho conhecimento suficiente para isso - ela disse. - Um pouco, sim. Esperava ser capaz de descobrir... você sabe. Não posso. É mais do que apenas uma questão de energia. Os lasers das asas não estão nem conectados. Pelo que podem nos servir, daria no mesmo se fossem de enfeite. - Voltou-se para Dirk. - Imagino que você não...

- Não - ele confirmou.

Ela assentiu.

- Não temos armas, então.

Dirk parou e olhou para além da arraia, na direção do céu vazio de Worlorn.

- Podíamos voar para fora daqui.

Gwen puxou os painéis, um com cada mão, e os fechou novamente, e mais uma vez o escuro banshee estava inteiro e feroz. Sua voz estava inexpressiva.

- Não. Lembre-se do que você disse. Os Braiths estarão lá fora. Os carros deles estarão armados. Não teríamos chance. Não. - Passou por Dirk e entrou no aeromóvel.

Depois de um tempo, ele a seguiu. Sentou-se meio torto no assento, para que pudesse olhar a solitária estrela no frio céu noturno. Sabia que estava muito cansado, e também que esse esgotamento era mais do que físico. Desde que chegara a Desafio, suas emoções o castigaram como ondas sobre uma praia, uma após a outra, mas repentinamente parecia que o oceano se fora. Não sobraram mais ondas.

- Suponho que você estava certa, antes, no corredor - ele disse, em uma voz introspectiva. Não estava olhando para Gwen.

- Certa? - ela perguntou.

- Sobre ser egoísta. Sobre... você sabe... sobre não ser um cavaleiro branco.

- Um cavaleiro branco?

- Como Jaan. Talvez eu nunca tenha sido um cavaleiro branco, mas, em Avalon, eu gostava de pensar que era. Eu acreditava em coisas. Agora, nem consigo lembrar o que eram. Exceto você, Jenny. De você, eu me lembrei. Foi por isso, bem, você entende. Nos últimos sete anos, fiz coisas, nada terrível, você sabe, mesmo assim, coisas que não teria feito em Avalon. Coisas cínicas, coisas egoístas. Mas até agora ninguém morreu por minha culpa.

- Não se faça de vítima, Dirk - ela disse. Sua voz estava exausta também. - Não é atraente.

- Quero fazer alguma coisa. - Dirk prosseguiu. - Tenho que fazer. Eu só... você sabe. Você estava certa.

- Não podemos fazer nada, exceto fugir e morrer, e isso não vai ajudar em nada. Não temos uma arma.

Dirk riu amargamente.

- Então vamos esperar que Jaan e Garse venham nos salvar, e então... nosso reencontro teve uma vida terrivelmente curta, não foi?

Ela se inclinou para a frente sem responder e apoiou a cabeça no antebraço sobre o painel de instrumentos. Dirk olhou para ela de relance e depois para fora novamente. Ainda estava com frio, com aquelas roupas finas, mas de algum modo isso não parecia importante.

Ficaram sentados em silêncio na arraia.

Até que finalmente Dirk se virou e colocou uma mão no ombro de Gwen.

- A arma - disse, em uma voz estranhamente animada. - Jaan disse que tínhamos uma arma.

- Os lasers no aeromóvel - Gwen respondeu. - Mas...

- Não. - Dirk a interrompeu com um sorriso súbito. - Não, não, não!

- O que mais ele poderia querer dizer?

Em resposta, Dirk estendeu o braço e ligou os ascensores do aeromóvel. O banshee de metal cinza voltou à vida e se elevou ligeiramente do solo.

- O carro - ele disse. - O próprio carro.

- Os Braiths lá fora têm carros - ela lembrou. - Carros armados.

- Sim - Dirk respondeu. - Mas Jaan e eu não estávamos falando sobre os Braiths lá fora. Estávamos falando sobre as duplas de caça aqui dentro, as que estavam percorrendo as galerias e matando pessoas!

A compreensão iluminou o rosto de Gwen como a luz do sol. Ela sorriu.

- Sim - disse com entusiasmo; tocou nos controles e a arraia rosnou, e de algum lugar sob o capô colunas brilhantes de luz branca se espalharam para perseguir a escuridão diante deles.

Enquanto ela manobrava a meio metro do chão, Dirk desceu pelas asas, correu até a porta maltratada e usou seu ombro igualmente castigado para abrir um segundo painel, amplo o suficiente para que o aeromóvel saísse. Então Gwen moveu a arraia na direção dele, e ele subiu novamente.

Algum tempo depois, flutuavam pela galeria, perto de onde o carro de rodas-balão estava virado. Os feixes luminosos dos faróis oscilaram pelas esteiras rolantes e pelas lojas havia muito desertas e apontaram para a frente, iluminando o caminho que os conduziria para baixo, em espiral, pela alta torre de Desafio, até finalmente chegar ao térreo.