- Talvez. Isso não os parará. Se Jaantony e Garse partissem amanhã, seria feito. A presença dos Jadeferros os detém. Temem que se eles e os outros Braiths tradicionalistas formassem um contingente para vir para cá, então a facção progressista de Jadeferro também mandaria um contingente. Não teriam nada para caçar, então, e eles e seus filhos encarariam uma vida dura e curta em um mundo moribundo, sem sequer gozar seus prazeres preferidos, as alegrias da alta-caça. Não. - Ela deu de ombros. - Mas há salas de troféus em Larteyn mesmo agora. Lorimaar sozinho gaba-se de ter cinco cabeças, e dizem que tem duas jaquetas feitas de pele de quase-homem. Ele não as usa. Jaan o mataria.
Colocou o aeromóvel em movimento novamente, e mais uma vez começaram a ganhar velocidade.
-Agora - ela continuou -, ainda quer que eu desvie da próxima vez que encontrarmos alguns deles? Agora que sabe o que são?
Dirk não respondeu.
Pouco depois, os barulhos começaram novamente, abaixo de onde estavam, os uivos e os gritos ecoando pela galeria outrora deserta. Passaram por outro veículo tombado, as enormes rodas-balão desinfladas e rasgadas. Gwen teve de dar a volta ao redor dele. Logo toparam com uma armação de metal negro que bloqueava o caminho, um robô maciço com quatro braços tensos paralisados em grotescas posições sobre a cabeça. A parte de cima do torso era um cilindro escuro cravejado com olhos de vidro; a parte de baixo era uma base do tamanho de um aeromóvel, com rodas.
- Um guardião. - Gwen comentou, enquanto passavam pelo silencioso cadáver mecânico, e Dirk viu que as mãos haviam sido arrancadas dos braços e o corpo estava crivado por disparos de laser.
- Será que lutou contra eles? - ele perguntou.
- Provavelmente - ela respondeu. - O que quer dizer que a Voz ainda vive e controla algumas funções. Talvez seja por isso que não ouvimos mais nada de Bretan Braith. Pode ser que esteja com problemas lá embaixo. A Voz naturalmente deve ter convocado os guardiões para proteger as funções de vida da cidade. - Deu de ombros. - Mas não importa. Os emerelianos não agem com violência. Os guardiões são instrumentos de contenção. Disparam dardos soníferos, e acho que podem jogar gás lacrimogêneo por essas grades na base. Os Braiths vencerão. Sempre.
Atrás deles, o robô já havia sumido, e a galeria estava vazia mais uma vez. Os barulhos adiante aumentavam.
Dessa vez, Dirk não falou nada quando Gwen avançou sobre eles e acendeu as luzes, e os gritos e os impactos se sobrepuseram uns aos outros. Ela acertou os dois caçadores Braiths, embora depois confessasse que não tinha certeza se o segundo tinha morrido. O kavalariano fora atingido por um golpe que o lançou de costas em um dos cães.
E a voz de Dirk sumiu, porque, enquanto o homem estava tropeçando e girando à direita do veículo, soltou alguma coisa que estava carregando. Essa coisa voou pelos ares e se esmagou contra a vitrine de uma loja, deixando um rastro sangrento no vidro quando caiu no chão. Dirk notou que o caçador a estivera segurando pelo cabelo.
O caminho em espiral descia ao redor da torre de Desafio, afundando lenta e progressivamente. Levou mais tempo do que Dirk teria imaginado descer do 388° andar, onde surpreenderam o segundo grupo de Braiths, até o térreo. Um longo voo em um silêncio cinzento.
Não encontraram mais ninguém, nem kavalariano nem emereliano.
No 120° andar, um guardião solitário bloqueou o caminho deles, encarando-os com seus olhos opacos e ordenando que parassem, no tom de voz sempre uniforme e cordial da Voz de Desafio. Mas Gwen não diminuiu a velocidade, e, quando se aproximou, o guardião rodou para fora do caminho, sem disparar dardos ou exalar gases. Suas ordens retumbantes os perseguiram galeria abaixo.
No 57° andar, as opacas luzes sobre eles piscaram e apagaram, e por um instante voaram na escuridão total. Então Gwen acendeu os faróis e reduziu um pouco a velocidade. Nenhum deles falou nada, mas Dirk pensou em Bretan Braith e se perguntou brevemente se as luzes haviam falhado ou se haviam sido cortadas. Optou pela última alternativa; um sobrevivente acima finalmente tinha se comunicado com seus irmãos de grupo que estavam embaixo.
No térreo, a galeria terminava em um grande centro comercial e uma imensa rotatória. Podiam ver muito pouco; apenas onde os feixes dos faróis tocavam, e formas surpreendentes saltavam do oceano de piche que os cercava. No meio do centro comercial parecia haver uma árvore ou algo do tipo. Dirk entreviu um tronco maciço e retorcido, uma parede virtual de madeira, e ouviu folhas farfalhando acima deles. O caminho dava uma volta ao redor da árvore e encontrava-se consigo mesmo. Gwen percorreu todo o amplo círculo.
No outro extremo da árvore, havia uma porta larga que se abria para a noite, e Dirk sentiu o toque do vento no rosto dele e percebeu por que as folhas estavam farfalhando. Quando passaram pela porta, permanecendo no círculo, deu uma espiada para fora. Além da porta, uma estrada branca se afastava de Desafio.
E um aeromóvel movia-se velozmente por esse caminho, em direção à cidade. Em direção a eles. Dirk vislumbrou-o apenas por um instante. Era escuro - mas tudo era escuro sob as fracas luzes das estrelas dos mundos exteriores - e metálico, alguma disforme besta kavalariana que não era capaz nem de começar a identificar.
Mas, sem dúvida, não eram os Jadeferros.
Capítulo 9
- Conseguimos - Gwen disse secamente, depois que passaram diante da porta. - Estão atrás de nós.
- Eles nos viram?
- Devem ter visto nossa luz, quando passamos pela porta aberta. Não iam deixar de ver.
Uma espessa escuridão os rodeava por todos os lados, e as folhas ainda farfalhavam sobre a cabeça deles.
- Fugimos? - Dirk perguntou.
- O carro deles deve ter lasers que funcionam, e o nosso não tem. A galeria externa é a única saída. O aeromóvel dos Braiths vai nos perseguir e, em algum lugar lá em cima, os caçadores estarão esperando. Só matamos dois, talvez três. Deve ter mais. Estamos presos.
Dirk estava pensativo.
- Podemos dar outra volta na árvore e sair pela porta depois que entrarem.
- Sim, é uma alternativa óbvia. Óbvia demais, no entanto. Deve ter outro aeromóvel do lado de fora esperando por nós, imagino. Tenho uma idéia melhor. - Enquanto falava, Gwen diminuía a velocidade da arraia até pará-la completamente. Bem na frente deles, o caminho se bifurcava, banhado pela brilhante luz dos faróis. A esquerda, estava a curva que terminava em si mesma; à direita, a galeria exterior, que começava sua subida de dois quilômetros.
Gwen desligou as luzes e a escuridão os engoliu. Quando Dirk começou a falar, ela o silenciou com um áspero "ssshh".
O mundo estava muito negro. Dirk se sentia cego. Gwen, o aeromóvel, Desafio - tudo desaparecera. Ele ouvia o murmúrio das folhas, e pensou ter escutado o outro aeromóvel, os Braiths, vindo até eles, mas aquilo devia estar só em sua mente, pois certamente veriam primeiro os faróis.
Sentia um suave movimento de balanço, como se estivesse sentado em um pequeno bote. Algo tocou seu braço, e Dirk se sobressaltou, e então outras coisas roçaram em seu rosto. Folhas.
Estavam se elevando em direção à densa folhagem da copa ampla e baixa da árvore emereliana.
Um galho, empurrado e depois solto, chicoteou dolorosamente a sua bochecha, arrancando sangue. As folhas estavam por todos os lados, apertando-o. Finalmente um ruído seco anunciou que as asas da arraia haviam acertado um tronco mais grosso. Não puderam subir mais. Flutuavam às cegas, envoltos pela escuridão e pela folhagem invisível.
Pouco depois, um borrão de luz passou sobre eles, virando para a direita, em direção à galeria. Nem bem havia partido e outro carro apareceu - pela esquerda - e virou bruscamente na bifurcação, seguindo o primeiro. Dirk estava muito grato por Gwen ter ignorado a sugestão dele.
Flutuaram entre as folhas por um tempo infinito, mas nenhum outro carro apareceu. Finalmente, Gwen os levou de volta à pista.