Veio a calma depois disso, e pelo resto da longa noite Dirk não sonhou.
Uma luz brilhava onde não devia haver luz. Pôde percebê-la através das pálpebras fechadas e do torpor: um resplendor trêmulo e amarelo, que se aproximava e se afastava um pouco. Dirk estava apenas vagamente consciente quando ela se intrometeu pela primeira vez em seu sono duramente conquistado. Resmungou e virou de lado. Vozes murmuravam ali por perto, e alguém deu uma gargalhada breve e áspera. Dirk ignorou.
Então eles o chutaram, com força, no rosto.
Sua cabeça foi de um lado para o outro, e as correntes de sono se dissolveram em um espasmo de dor. Desorientado e aturdido, sem saber onde estava, lutou para se sentar. Sua têmpora latejava. Tudo estava brilhante demais. Levou um braço na frente dos olhos para bloquear a luz e proteger-se de outros chutes. Ouviu outra gargalhada.
Lentamente o mundo tomou forma. Eram os Braiths, é claro.
Um deles, um homem ossudo e desengonçado, de cabelo negro encaracolado, estava parado do outro lado do túnel, segurando Gwen com uma mão e uma pistola laser com a outra. Outro laser, um rifle, estava pendurado em seu ombro por uma alça. As mãos de Gwen estavam amarradas nas costas, e ela permanecia em silêncio, com os olhos baixos.
O Braith que estava sobre Dirk não tinha um laser, mas levava uma poderosa lanterna na mão esquerda que enchia o túnel com luz amarela. O brilho da lanterna tornava difícil para Dirk ver suas feições, mas percebeu que era alto e corpulento, e parecia ser careca como um ovo.
- Pelo menos conseguimos sua atenção - disse o homem com a luz. O outro gargalhou, a mesma risada que Dirk ouvira antes.
Com dificuldade, Dirk se levantou e deu um passo para trás, afastando-se dos kavalarianos. Inclinou-se contra a parede do túnel e tentou se endireitar, mas seu crânio gritava e o fazia sentir vertigens. O brilho quente da lanterna de mão queimava seus olhos.
- Você machucou a presa, Pyr - o Braith com o laser comentou do outro lado do túnel.
- Espero que não demais - disse o homem corpulento.
- Vão me matar? - Dirk perguntou. As palavras vieram com incrível serenidade, considerando o que perguntava. Estava finalmente começando a se recuperar dos chutes.
Gwen levantou os olhos quando ele falou.
- No final vão matar você - ela disse com voz desolada. - Não será uma morte fácil. Sinto muito, Dirk.
- Silêncio, cadela betheyn - disse o homem corpulento chamado Pyr. Dirk estava vagamente consciente de ter ouvido esse nome antes. O homem olhou de relance para Gwen quando ela falou, e então voltou-se para Dirk.
- O que ela quer dizer? - Dirk perguntou, nervoso. Estava apertando o corpo com força contra a pedra, tentando tensionar os músculos discretamente. Pyr estava a menos de um metro de distância. O Braith parecia arrogante e desprevenido, mas Dirk se perguntava quão verdadeira essa impressão poderia ser. O homem estava segurando a lanterna com a mão esquerda, mas com a direita segurava algo mais - um bastão de um metro de comprimento, de alguma madeira escura, com um punho redondo na ponta e uma lâmina curta na outra. Segurava o bastão descuidadamente entre os dedos da mão, pelo meio do eixo, batendo-o ritmicamente contra a perna.
- Você nos proporcionou uma caçada excitante, quase-homem - Pyr falou. - Não digo isso à toa ou como brincadeira. Poucos se igualam a mim na antiga alta-caça. Ninguém me supera. Até Lorimaar Alto-Braith Arkellor tem apenas metade dos troféus que já ganhei. Então, quando digo que esta caçada foi extraordinária, você sabe que falo a verdade. Me alegra que não tenha acabado.
- O quê? - Dirk perguntou. - Não acabou? - O homem estava bem perto, e Dirk se perguntava se conseguiria atacá-lo, protegendo-se do laser do outro homem com o corpo de Pyr. Talvez pudesse arrancar o bastão dele, ou até mesmo a pistola que Pyr tinha guardada no coldre na cintura.
- Não há mérito em capturar um quase-homem dormindo, nem há honra nisso. Você vai fugir novamente, Dirk t'Larien.
- Ele o tornará seu korariel pessoal - Gwen falou zangada, olhando para os dois Braiths em desafio calculado. - Ninguém poderá caçá-lo além dele e de seu teyn.
Pyr virou-se na direção dela novamente.
- Eu disse silêncio!
Ela riu para ele.
- Conhecendo Pyr - ela continuou -, ele o caçará pelo método tradicional. Deixará você livre no bosque, provavelmente nu. Eles dois deixarão de lado os lasers e os aeromóveis e irão atrás de você a pé, com facas, espadas de arremesso e cães. Depois que me entregarem aos meus mestres, é claro.
Pyr estava franzindo o cenho. O outro Braith ergueu a pistola e usou-a para dar uma coronhada na boca de Gwen.
Dirk contraiu os músculos, hesitou um instante longo demais e saltou. Mesmo um metro era longe demais; Pyr estava sorrindo quando virou a cabeça. O bastão veio com uma velocidade assustadora, e o punho de madeira afundou na barriga de Dirk. Ele cambaleou, dobrou o corpo e, de alguma forma, tentou seguir adiante. Pyr retrocedeu desdenhosamente e acertou outro golpe na virilha de Dirk. O mundo desapareceu em uma bruma vermelha.
Dirk percebeu vagamente que Pyr se aproximou depois que ele caiu no chão. Então o Braith o acertou uma terceira vez, um golpe quase casual no lado de sua cabeça, e então não viu mais nada.
Dor. Foi a primeira coisa que sentiu. Era tudo o que sentia. Dor. Sua cabeça girava, latejava e estremecia em um tipo estranho de ritmo; seu estômago doía também, e mais abaixo sentia-se entorpecido. Dor e aturdimento eram os limites do mundo de Dirk. Por um momento muito longo, isso foi tudo.
Gradualmente, no entanto, recobrou uma espécie de consciência turva. Começou a notar coisas. Primeiro, a dor - vinha e ia em ondas, de cima para baixo, de cima para baixo. Ele estava indo para cima e para baixo também, percebeu finalmente, trepidando e saltando. Estava sobre alguma coisa. Sendo arrastado ou carregado. Moveu as mãos, ou pelo menos tentou. Era difícil. A dor parecia varrer todas as sensações normais. Tinha a boca cheia de sangue. Seus ouvidos zumbiam, ardiam, vibravam.
Estava sendo carregado. Havia vozes; podia ouvi-las, falando e zumbindo. As palavras não eram claras. Adiante, em algum lugar, uma luz dançava e vacilava; todo o resto era névoa cinzenta. Pouco a pouco o zumbindo se dissipou. Finalmente as palavras começaram a ficar claras.
- ... não ficará feliz - disse a voz que não conhecia. Não achava que a conheceria, de todo jeito. Era difícil dizer. Tudo era tão terrivelmente distante, e ele estava saltando, e a dor ia e vinha, ia e vinha, ia e vinha.
- Sim - concordou a outra voz, carregada, firme, enérgica.
Mais zumbidos... muitas vozes ao mesmo tempo. Dirk não entendeu nada.
Então um homem silenciou os demais.
- Basta - falou. Essa voz estava ainda mais afastada do que as outras duas; vinha de algum lugar adiante, da luz bruxuleante. Pyr? Sim, Pyr.
- Não temo Bretan Braith Lantry, Roseph. Você se esquece quem sou. Já tinha conseguido três cabeças nos bosques quando Bretan Braith ainda sugava as tetas das mulheres. O quase-homem é meu por todos os antigos direitos.
- Verdade - a primeira voz desconhecida respondeu. - Se você o tivesse capturado nos túneis, ninguém negaria seu direito. Mas você não fez isso.
- Desejo uma caçada pura, do jeito mais antigo.
Alguém disse alguma coisa em alto kavalariano. Houve uma gargalhada.
- Mais de uma vez caçamos juntos em sua juventude, Pyr - a voz desconhecida disse. - Se suas opiniões sobre as mulheres tivessem sido outras, poderíamos ter nos tornado teyn-e-teyn, nós dois. Não falarei contra você. Bretan Braith Lantry quer muito este homem.