- Ele não é um homem, é um quase-homem. Você mesmo decidiu isso, Roseph. E os desejos de Bretan Braith não são nada para mim.
- Realmente afirmei que ele é quase-homem, e ele é. Para você e para mim, ele é apenas isso, um entre muitos. Temos os filhos da lesma para caçar, os emerelianos, e outros. Você não precisa dele, Pyr. Bretan Braith pensa diferente. Ele foi até o quadrado da morte e foi feito de tolo quando o homem que desafiou não era realmente um homem.
- Isso é verdade, mas não é toda ela. t'Larien é um tipo especial de presa. Dois de nossos kethi foram mortos por ele, e Koraat está morrendo com uma espinha quebrada. Nenhum quase-homem fugiu dessa maneira antes. Ficarei com ele, como é meu direito. Eu o encontrei, eu sozinho.
- Sim - disse a segunda voz desconhecida, a carregada e enérgica. - Isso é realmente verdade, Pyr. Como você o descobriu?
Pyr ficou bastante satisfeito com a chance de se gabar.
- Não fui enganado pelo aeromóvel, como vocês dois e até mesmo Lorimaar. Esse quase-homem foi bem esperto, ele e a cadela betheyn que fugia ao seu lado. Não deixaram o carro indicando o lugar por onde haviam partido. Quando vocês reuniram todos os cães e partiram pelo corredor, meu teyn e eu começamos a procurar no centro comercial com uma lanterna, buscando um rastro. Eu sabia que os cães seriam inúteis. Não precisava deles. Sou um rastreador melhor do que qualquer cão ou mestre de canil. Já rastreei quase-homens sobre as pedras nuas das Colinas de Lameraan, nas cidades mortas, até mesmo nas fortalezas abandonadas de Taal, de Punho de Bronze e da Montanha de Pedrar- dente. Esses dois foram ridiculamente fáceis. Verificamos cada corredor por uma distância de vários metros, então seguíamos para olhar o seguinte. Encontramos o rastro. Pegadas no chão do lado de fora da rampa do metrô e depois sinais claros no pó. O rastro desapareceu quando começaram a usar seus brinquedos voadores, é claro, mas então tínhamos apenas duas direções possíveis a considerar. Temi que pudessem tentar voar até Esvoch ou Kryne Lamiya, mas isso não aconteceu. Levou a maior parte do dia e uma longa caminhada, mesmo assim os capturamos.
Dirk estava quase alerta agora, embora tivesse o corpo ainda envolto em uma gaze de dor, e duvidava que responderia muito bem se tentasse se mover. Podia ver com toda a nitidez. Pyr Braith estava andando na frente com a lanterna de mão, conversando com um homem menor vestido de branco e púrpura, que devia ser Roseph, o árbitro dos duelos que nunca ocorreram. Entre eles estava Gwen, andando por conta própria, mas ainda com as mãos amarradas. Ela seguia em silêncio. Dirk se perguntava se eles a tinham amordaçado, mas era impossível dizer, uma vez que só conseguia ver as costas dela.
Ele estava deitado em uma espécie de maca, que sacudia a cada passo. Outro Braith em branco e púrpura, segurava a parte da frente, seus grandes punhos cerrados em volta da barra de madeira. O teyn de Pyr, o das gargalhadas estrondosas, estava provavelmente atrás dele, na outra ponta da maca. Ainda estavam no túnel, andando; o metrô parecia seguir infinitamente, e Dirk não tinha idéia de quanto tempo estivera desmaiado. Por um bom tempo, imaginava; não havia Roseph nem maca quando tentara atacar Pyr, tinha certeza disso. Seus captores provavelmente haviam aguardado no túnel depois de pedir ajuda dos irmãos de grupo.
Ninguém pareceu notar que Dirk estava de olhos abertos. Ou talvez tivessem notado e simplesmente não se importassem. Ele não estava em condições de fazer nada, exceto, talvez, gritar por ajuda.
Pyr e Roseph continuaram a conversar, com os outros dois fazendo comentários de tempos em tempos. Dirk tentou ouvir, mas a dor tornava difícil se concentrar, e o que estavam dizendo não servia muito para Gwen ou para ele. Especialmente Roseph parecia avisar Pyr que Bretan Braith ficaria muito aborrecido se Pyr matasse Dirk, já que Bretan Braith queria ele mesmo matar Dirk. Pyr não se importava; seus comentários deixavam claro que tinha pouco respeito por Bretan, que era duas gerações mais jovem do que o resto deles e, portanto, suspeito. Em nenhum momento da conversa algum dos caçadores mencionou os Jadeferros, o que levou Dirk a concluir que Jaan e Garse ainda não haviam chegado a Desafio, ou esses quatro ainda não estavam cientes disso.
Depois de um tempo, parou de se esforçar para entender o que diziam e se deixou vencer pelo torpor. As vozes ficaram confusas novamente e continuaram falando por um bom tempo. Finalmente pararam. Uma das extremidades da maca parou abruptamente, e Dirk despertou de novo. Braços fortes o ergueram pelas axilas.
Haviam chegado ao terminal de Desafio, e o teyn de Pyr estava levando Dirk para a plataforma. Ele nem tentou ajudar. Ficou o mais mole que podia e deixou-se ser levado como um pedaço de carne.
Então estava na maca novamente, e eles o carregaram pela rampa que dava na cidade. Não o trataram com gentileza na plataforma; sua cabeça voltara a latejar. Paredes azuis pastel apareceram diante dele, e Dirk se lembrou de quando desceram a rampa na noite anterior. Por alguma razão, esconder-se no metrô parecera uma idéia incrivelmente boa naquele momento.
As paredes desapareceram, e estavam em Desafio novamente. Dirk viu a grande árvore emereliana, dessa vez em toda sua imponência. Era um gigante disforme, azul e negro, com os galhos mais baixos pendurados sobre a curva visível da rotatória enquanto os mais altos roçavam contra o teto sombreado. O dia chegara, Dirk percebeu. A porta de entrada permanecia aberta, e, através do arco, pôde ver o Satã Gordo e uma única estrela amarela no horizonte. Estava muito aturdido e cansado para saber se amanhecia ou anoitecia.
Dois maciços aeromóveis kavalarianos estavam estacionados na estrada próxima à rampa do metrô. Pyr parou perto deles, e Dirk foi colocado no chão. Lutou para se sentar, mas foi em vão. Mexeu as pernas debilmente e a dor voltou, até que se rendeu e deitou de costas novamente.
- Reúna os outros - Pyr falou. - Essas questões serão resolvidas aqui e agora, para que meu korariel possa ser preparado para a caçada. - Ficou parado ao lado de Dirk enquanto falava. Estavam todos reunidos ao redor da maca, incluindo Gwen. Mas só ela olhou para baixo, e seus olhos encontraram os dele. Estava amordaçada. E cansada. E desesperada.
Levou quase uma hora para os Braiths se reunirem; para Dirk, foi uma hora em que a luz se dissipou e ele pôde reunir forças. Era pôr do sol, logo percebeu; além da porta de entrada, o Satã Gordo mergulhava lentamente no horizonte. A escuridão se propagava ao redor deles, ficando mais espessa e mais densa, até que finalmente os kavalarianos foram obrigados a acender os faróis de seus aeromóveis. O aturdimento de Dirk havia passado. Pyr notara isso e fez com que amarrassem as mãos de Dirk nas costas, e o obrigou a se sentar contra a lateral de um aeromóvel. Então colocaram Gwen ao lado dele, mas não tiraram sua mordaça.
Embora não estivesse amordaçado, Dirk não tentou falar. Sentou-se contra o frio metal, as cordas roçando seus punhos, e esperou, observou e escutou. De tempos em tempos olhava de relance para Gwen, mas ela permaneceu com a cabeça baixa e não lhe devolveu o olhar.
Chegaram sozinhos e em pares. Os kethi de Braith. Os caçadores de Worlorn. Vieram das sombras e dos lugares escuros. Como pálidos fantasmas. Um barulho e uma forma vaga no início, até irromperem no pequeno círculo de luz e tornarem-se homens novamente. Ainda assim não eram nada mais que humanos.
O primeiro a chegar trouxe quatro cães altos com cara de rato, e Dirk o reconheceu da selvagem corrida pela galeria exterior. O homem acorrentou os cães no para-choques do aeromóvel de Roseph, cumprimentou Pyr, Roseph e seus teyns, e sentou-se de pernas cruzadas no chão a alguns metros dos prisioneiros. Não falou nem uma vez. Seus olhos estavam fixos em Gwen, sem nunca abandoná-la, e permaneceu absolutamente imóvel. Ali perto, Dirk podia ouvir os cães rosnando nas sombras, suas correntes de ferro se retorcendo e chocalhando.