Então os outros chegaram. Lorimaar Alto-Braith Arkellor, um gigante castanho com um traje de tecido-camaleão negro como piche e botões de ossos claros, chegou em um colossal aeromóvel vermelho abobadado. Com Lorimaar estava outro homem, gordo e quadrado, duas vezes mais corpulento do que Pyr, o corpo sólido e duro como tijolo, o rosto pálido e suíno. Depois deles, sozinho e a pé, veio um velho de aparência frágil, careca, enrugado e quase totalmente banguela, com uma mão de carne e osso e outra com uma garra de três dedos de metal escuro. O velho tinha a cabeça de uma criança pendurada no cinturão; ainda estava sangrando, e uma perna de suas calças brancas estava manchada com compridas faixas marrons do gotejamento.
Finalmente Chell chegou, tão alto quanto Lorimaar, cabelo branco e de bigodes, parecendo muito cansado e trazendo apenas um imenso cão Braith. Parou dentro do círculo de luz e piscou.
- Onde está seu teyn? - Pyr exigiu saber.
- Aqui. - Um grunhido na escuridão. A alguns metros de distância, uma única pedrardente brilhava opaca. Bretan Braith Lantry avançou e parou perto de Chell. Seu rosto se contraiu.
- Estão todos reunidos - Roseph Alto-Braith disse para Pyr.
- Não - alguém objetou. - Falta Koraat.
O caçador silencioso falou do chão.
- Ele não existe mais. Suplicou por seu fim. Eu lhe concedi. Na verdade, estava muito ferido. Foi o segundo keth que vi morrer hoje. O primeiro foi meu teyn, Teraan Braith Nalarys. - Enquanto falava, não desviava os olhos de Gwen. Encerrou com uma longa frase em antigo kavalariano.
- Três de nós se foram - o velho falou.
- Façamos silêncio por eles - Pyr disse. Ainda estava segurando seu bastão, com o punho de madeira e a lâmina curta, e o batia nervosamente contra a perna enquanto falava, exatamente como fizera nos túneis.
Através da mordaça, Gwen tentou gritar. O teyn de Pyr, o kavalariano desengonçado com o cabelo negro desgrenhado, aproximou-se dela com uma expressão ameaçadora.
Mas Dirk, sem mordaça, tivera uma idéia.
- Não vou manter silêncio - gritou. Ou pelo menos tentou. Sua voz não estava forte o suficiente para gritar. - Eram assassinos, todos eles. Mereceram morrer.
Todos os Braiths olharam para ele.
- Amordace-o e faça-o parar de gritar. - Pyr mandou. Seu teyn se apressou em cumprir a ordem. Quando terminou, Pyr falou novamente. - Você terá tempo suficiente para gritar, Dirk t'Larien, quando estiver correndo nu pela floresta e ouvir meus cães latindo atrás de você.
A cabeça e os ombros de Bretan se viraram estranhamente. A luz brilhava em suas cicatrizes.
- Não - disse. - A primeira reivindicação é minha.
Pyr o encarou.
- Eu rastreei o quase-homem. Eu o capturei.
Bretan contorceu o rosto. Chell, ainda segurando o grande cão pela corrente enrolada em uma mão imensa, colocou a outra mão no ombro de Bretan.
- Isso não me importa - outra voz falou. Era o Braith sentado no chão, encarando imóvel. - E quanto à cadela?
Os outros se voltaram para ele, inquietos.
- Não podemos dispor dela, Myrik - disse Lorimaar Alto-Braith. - Ela é de Jadeferro.
O homem contraiu ferozmente os lábios; por um instante seu rosto calmo ficou selvagemente distorcido, um rosto de animal, um ricto de emoção. Então passou. Suas feições assumiram a aparência calma novamente, tudo controlado.
- Eu matarei esta mulher - ele disse. - Teraan era meu teyn. Ela deixou o fantasma dele vagando em um mundo sem almas.
- Ela? - a voz de Lorimaar era incrédula. - Isso é verdade?
- Eu vi - respondeu o homem no chão, aquele chamado Myrik. - Atirei nela quando atropelou Teraan e o deixou agonizando. Isso é verdade, Lorimaar Alto-Braith.
Dirk tentou ficar em pé, mas o kavalariano desengonçado o obrigou a sentar-se novamente, com força, e bateu a cabeça dele contra a lateral de metal do aeromóvel para marcar posição.
O velho frágil, aquele com garras e a cabeça de uma criança pendurada, falou então.
- Pegue-a então como sua presa pessoal - sugeriu, com uma voz fina e cortante como a lâmina da faca de esfolar que levava no cinturão. - A sabedoria dos grupos é antiga e inequívoca, meus irmãos. Ela não é uma mulher verdadeira agora, se é que já foi, nem esposa-escrava ou eyn-keth. Quem pode atestar por ela? Ela deixou a proteção de seu alto-senhor para fugir com um quase-homem! Se alguma vez ela foi carne da carne de um homem, já não é mais. Vocês sabem como agem os quase- homens, as mentiras, as perfídias, os grandes enganos. Sozinho com ela na escuridão, este quase-homem Dirk certamente a matou e a substituiu por um demônio como ele próprio, feito à imagem dela.
Chell assentiu em concordância e falou gravemente em antigo kavalariano. Os outros Braiths não pareciam tão seguros. Lorimaar trocou olhares sérios com seu teyn, o gordo maciço. O rosto aborrecido de Bretan permaneceu imutável, metade máscara de cicatrizes, metade inocência. Pyr franziu o cenho e continuou a bater com seu bastão.
Foi Roseph quem respondeu.
-Nomeei GwenDelvano humana quando arbitrei no quadrado da morte - disse cuidadosamente.
- Isso é verdade - Pyr falou.
- Talvez ela fosse humana então - o velho disse. - Mesmo assim, ela provou sangue e dormiu com um quase-homem, e quem vai chamá-la humana agora?
Os cães começaram a uivar. Os quatro que Myrik havia acorrentado no aeromóvel começaram a cacofonia, que foi levada adiante pela matilha presa dentro do veículo abobadado de Lorimaar. O maciço cão de Chell rosnou e esticou a corrente, até que o Braith mais velho a puxou para trás com raiva; então a criatura se sentou e juntou-se aos uivos.
A maior parte dos caçadores começou a olhar de soslaio em direção à silenciosa escuridão além do pequeno círculo de luz, e mais do que um levou a mão à pistola. Myrik, rosto impassível e imóvel, era a notável exceção: seus olhos nunca deixavam Gwen Delvano.
Na beira do círculo, além dos aeromóveis e da luz dos faróis, os dois Jadeferros estavam parados lado a lado nas sombras.
A dor de Dirk - sua cabeça latejava - abruptamente pareceu sem importância. Seu corpo tremeu e estremeceu. Olhou para Gwen; ela estava olhando para cima, para eles. Para Jaan especialmente.
Ele caminhou para a luz, e Dirk viu que encarava Gwen quase tão fixamente quanto o homem chamado Myrik. Parecia se mover muito devagar, como uma figura de algum sonho empoeirado, ou como um sonâmbulo. Garse Janacek estava vivo e fluente ao seu lado.
Vikary usava um traje manchado de tecido-camaleão, com sombras cada vez mais negras, quando entrou no círculo de luz de seus inimigos. Quando os cães silenciaram, sua roupa já tinha mudado para um cinza encardido. As mangas de sua camisa terminavam bem em cima do cotovelo; ferro-e-pedrardente circundavam seu antebraço direito, jade-e-prata, o esquerdo. Por um instante fugaz, sua figura pareceu imensa. Ainda que Chell e Lorimaar fossem ambos uma cabeça mais altos, de algum modo Vikary pareceu superá-los na estatura. Passou entre os Braiths, como um fantasma caminhando a passos largos, quão irreal era, mesmo ali, como se não os visse, e parou perto de Gwen e Dirk.
Mas era tudo ilusão. Os ruídos reiniciaram, os Braiths começaram a falar, e Jaan Vikary era apenas um homem novamente, maior do que muitos mas menor do que alguns.
- Vocês transgridem, Jadeferros - Lorimaar disse, em um tom duro e zangado. - Não foram convidados para este lugar. Não têm o direito de estar aqui.
- Quase-homens - cuspiu Chell. - Falsos kavalarianos.
Bretan Braith Lantry fez seu ruído singular.