Vikary ouviu a música também. Olhou de relance para Dirk.
- Esta é uma cidade adequada para nós agora, t'Larien.
- Não - Dirk respondeu, alto demais, sem querer acreditar naquilo.
- Para mim, então. Todos os meus esforços foram em vão. Os povos que lutei para salvar não permanecerão a salvo por muito tempo. Os Braiths poderão caçá-los agora, korariel de Jadeferro ou não. Não posso impedi-los. Talvez Garse possa, mas o que um homem sozinho pode fazer? Talvez nem tente. Era minha obsessão, não a dele. Garse está perdido também. Voltará para Alto Kavalaan sozinho, acho, e descerá sozinho até a fortaleza Jadeferro, e o conselho de altos-senhores tirará meus nomes. Ele terá que encontrar uma faca para arrancar as pedrardentes de seu bracelete, e usar ferro vazio sobre o braço. Seu teyn está morto.
- Em Alto Kavalaan, talvez. - Dirk concordou. - Mas você viveu em Ávalon também, lembra?
- Sim - Vikary respondeu. - Infelizmente. Infelizmente.
A música crescia e retumbava ao redor deles, e a Cidade Sereia tomava forma embaixo: o círculo exterior de torres, como mãos esqueléticas em gélida agonia, as pontes claras sobre canais escuros, os campos de musgo de brilho opaco, os pináculos que assobiavam ao serem atingidos pelo vento. Uma cidade branca, uma cidade morta, uma floresta de ossos disformes.
Dirk circundou até encontrar o mesmo prédio em que havia pousado com Gwen, e começou a aterrissar. Na pista de pouso, os dois carros abandonados ainda descansavam sem ser perturbados, cobertos de pó. Pareciam, para Dirk, fragmentos de um sonho havia muito esquecido. Em algum momento, por alguma razão, pareceram importantes; mas ele, Gwen e o mundo estavam diferentes agora, e como era difícil lembrar que eventual relevância esses fantasmas metálicos tiveram.
- Vocês estiveram aqui antes - Vikary disse, e Dirk olhou para ele e assentiu. - Mostre o caminho, então - o kavalariano ordenou.
- Eu não...
Mas Vikary já tinha se levantado. Pegou Gwen gentilmente, tomando-a nos braços, e ficou esperando.
- Mostre o caminho - disse novamente.
Então Dirk saiu da pista de aterrissagem e caminhou até os salões onde os murais cinza e brancos dançavam ao som da sinfonia escuralbina, e tentou porta após porta, até encontrar um cômodo ainda mobiliado. Era uma suíte de quatro cômodos, na verdade, todos desertos, de pé-direito alto e longe de estarem limpos. As camas - dois dos aposentos eram quartos - eram buracos circulares no chão; os colchões estavam cobertos com um couro liso e brilhante que exalava um certo odor desagradável, como leite azedo. Mas eram camas, macias o suficiente, e um lugar para descansar, e Vikary colocou Gwen cuidadosamente em uma delas. Quando ela estava acomodada - parecia quase serena - Jaan deixou Dirk sentado ao seu lado, de pernas cruzadas, e saiu para revistar o aeromóvel que haviam roubado. Voltou pouco tempo depois com uma manta para Gwen e um cantil.
- Beba apenas um gole - disse, dando a água para Dirk.
Dirk pegou o cantil, abriu a tampa, tomou um gole e o devolveu. O líquido estava morno e era ligeiramente amargo, mas aliviou a sequidão da garganta.
Vikary molhou uma faixa de tecido cinza e começou a limpar o sangue seco da parte de trás da cabeça de Gwen. Esfregou gentilmente a crosta marrom, molhando o trapo novamente e ainda mais uma vez, trabalhando até que o fino cabelo dela estivesse limpo e solto como um reluzente leque no colchão, brilhando sob as luzes vacilantes dos murais. Quando terminou, enfaixou sua cabeça e olhou para Dirk.
- Ficarei de guarda - disse. - Vá para o outro aposento e durma.
- Precisamos conversar - Dirk falou, hesitante.
- Mais tarde. Agora não. Vá dormir.
Dirk não tinha condições de discutir; seu corpo estava exausto e sua cabeça ainda latejava. Foi para o outro quarto e jogou-se desajeitadamente no colchão cheirando a azedo.
Mas, apesar das dores, o sono não veio imediatamente. Talvez fosse a dor de cabeça, ou o movimento inquieto da luz que percorria as paredes e o assombrava mesmo com os olhos fechados. O pior, no entanto, era a música. Não o abandonava, e parecia ecoar mais alto quando seus olhos se fechavam, como se cada acorde estivesse preso dentro de seu crânio: sopros finos, gemidos e assobios, e o incessante bater do tambor solitário.
Sonhos febris povoaram aquela noite interminável - visões intensas, surreais e quentes, cheias de ansiedade. Três vezes Dirk despertou de seu sono inquieto, para sentar-se na cama, tremendo e transpirando, e encarar a canção de Lamiya-Bailis mais uma vez, sem nunca se lembrar do que o acordara. Uma vez pensou ter ouvido vozes no quarto ao lado. Outra vez teve quase certeza de ter visto Jaan Vikary com as costas apoiadas contra uma parede distante, observando-o. Nenhum deles falou, e Dirk levou quase uma hora para dormir novamente. Apenas para acordar de novo, em um quarto vazio e com luzes inquietas. Perguntou-se se eles o haviam deixado ali sozinho para viver ou morrer; quanto mais pensava nisso, mais o medo crescia, e pior seu tremor ficava. Mas, de algum modo, foi incapaz de se levantar e ir até o quarto adjacente para conferir por si mesmo. Em vez disso, fechou os olhos e tentou afastar qualquer pensamento.
E então amanheceu. O Satã Gordo estava a meio caminho no céu, e sua luz febril, vermelha e fria como os pesadelos de Dirk, atravessava o vitral de uma janela alta (predominantemente claro no centro, mas cercado com um padrão intrincado de arabescos vermelho-acastanhados e cinza-fumo) e acertava seu rosto. Dirk virou de lado e lutou para se sentar, enquanto Jaan Vikary aparecia para lhe oferecer o cantil.
Dirk tomou vários longos goles, quase engasgando com a água fria e deixando um pouco para molhar os lábios rachados e secos e escorrer pelo queixo.
- Você encontrou água - disse.
Vikary fechou o cantil novamente e assentiu.
- As estações de bombeamento estão fechadas por anos, então não há água potável nas torres de Kryne Lamiya. Mesmo assim, os canais ainda estão cheios. Fui até lá noite passada, enquanto você e Gwen dormiam.
Dirk ficou em pé com dificuldade, e Vikary estendeu uma mão para ajudá-lo a sair da cama funda.
- Gwen está...?
- Ela recuperou a consciência no início da noite, t'Larien. Conversamos e contei para ela o que fiz. Acho que se recuperará em breve.
- Posso falar com ela?
- Ela está descansando agora, dormindo normalmente. Mais tarde tenho certeza de que desejará falar com você, mas neste momento não acho que deva acordá-la. Ela tentou se sentar noite passada e se sentiu muito mal e nauseada.
Dirk assentiu.
- Entendo. E quanto a você? Conseguiu dormir? - Enquanto falava, deu uma olhada no quarto. A música escuralbina havia diminuído de algum modo. Ainda tocava, ainda gemia, reclamava e permeava todo o ar de Kryne Lamiya; mas, aos seus ouvidos, parecia mais fraca e mais distante, então talvez estivesse finalmente se acostumando a ela, aprendendo a desligá-la de sua percepção consciente. Os murais iluminados, como as pedrardentes de Larteyn, se desvaneciam e morriam sob a luz solar; as paredes estavam cinzentas e vazias. Os poucos móveis que havia (umas poucas cadeiras de aspecto desconfortável) sobressaíam das paredes e do chão: extrusões retorcidas que combinavam com a cor e o tom do aposento tão bem que eram quase invisíveis.
- Eu dormi o suficiente - Vikary disse. - Isso não é importante. Estive considerando nossa posição. - Fez um gesto. - Venha.
Atravessaram outro aposento, uma sala de jantar vazia, e saíram até um dos muitos balcões que davam para a cidade de Escuralba. De dia, Kryne Lamiya era diferente, menos deses- peradora; mesmo o pálido sol de Worlorn era o suficiente para fazer cintilar as águas velozes dos canais, e no dia crepuscular as claras torres pareciam menos sepulcrais.