Dirk estava fraco e muito faminto, mas a dor de cabeça se fora e a sensação do vento frio em seu rosto era agradável. Afastou o cabelo - totalmente emaranhado e imundo - dos olhos e esperou que Jaan começasse a falar.
- Observei daqui durante a noite - Vikary falou, com os cotovelos apoiados nos anteparos frios e os olhos perscrutando o horizonte. - Estão procurando por nós, t'Larien. Duas vezes vislumbrei aeromóveis sobre a cidade. Na primeira vez foi apenas uma luz distante, então talvez estivesse enganado. Mesmo assim, a segunda não era engano. O carro com cabeça de lobo de Chell voava perto do nível do solo sobre os canais, com uma espécie de holofote. Passou bem perto. Levava um cão de caça também. Eu o ouvi uivar, inquieto com a música escuralbina.
- Não nos encontraram. - Dirk comentou.
- É verdade - Vikary respondeu. - Acho que ficaremos seguros aqui por algum tempo. A menos... não sei bem como encontraram vocês em Desafio, e isso me dá um certo temor. Se nos rastrearem até Kryne Lamiya e vasculharem a cidade com cães de caça Braiths, correremos sério perigo. Não temos o anulador de odores agora. - Olhou para Dirk. - Como souberam que vocês estavam ali? Tem alguma idéia?
Não - Dirk respondeu. - Ninguém sabia. Ninguém nos seguiu. Talvez tenham deduzido. Era a escolha mais lógica, no final das contas. A vida era mais confortável em Desafio do que em qualquer outra cidade. Mais fácil. Você sabe.
- Sim, eu sei. Não aceito sua teoria, contudo. Lembre-se, t'Larien, Garse e eu consideramos este problema também, quando você nos deixou envergonhados e sozinhos no quadrado da morte. Desafio era a escolha mais óbvia e, por isso, a menos lógica, achamos. Parecia mais provável que vocês tivessem ido para Musquel e viver do peixe que conseguissem pescar, ou que Gwen caçasse para vocês dois nos bosques que conhece tão bem. Garse chegou até a sugerir que vocês simplesmente tivessem escondido o aeromóvel e permanecido em outro lado de Larteyn, então poderiam rir de nós enquanto estivéssemos procurando por vocês planeta afora.
Dirk se inquietou.
- Sim. Bem, suponho que nossa escolha tenha sido estúpida.
- Não, t'Larien. Eu não disse isso. A única escolha estúpida, imagino, teria sido voar para a Cidade do Tanque Sem Estrelas, onde os Braiths eram numerosos. Desafio foi uma escolha sutil, talvez involuntariamente sutil. Parecia uma escolha tão errada que era realmente a certa. Entende? Não vejo como os Braiths descobriram vocês, por nenhum processo de dedução.
- Talvez - Dirk falou. Pensou um pouco. - Lembro que soubemos que estavam ali quando Bretan falou conosco. Ele... bem, não estava testando uma teoria. Ele sabia que estávamos ali, em algum lugar.
- Tem alguma idéia de como isso foi possível?
- Não. Nenhuma idéia.
- Teremos que viver com o temor de que nos encontrem aqui, então. Do contrário, a menos que os Braiths possam repetir esse milagre, estamos seguros. Entenda, no entanto, que nossa posição não é menos difícil. Temos abrigo e água à vontade, mas nenhuma comida. Concluí que devemos ir para o porto espacial e deixar Worlorn o mais rápido possível. Nossa fuga definitiva será muito difícil. Os Braiths nos anteciparão. Tenho minha pistola laser, e dois lasers de caça que encontrei no aeromóvel. Além do próprio veículo, blindado e bem armado, provavelmente pertencente a Roseph Alto-Braith Kelcek...
- Um dos carros abandonados na pista de pouso ainda pode funcionar - Dirk assinalou.
- Então temos dois aeromóveis, se precisarmos deles - Vikary falou. - Contra nós, pelo menos oito caçadores Braiths ainda vivos, provavelmente nove. Não sei o quão seriamente feri Lorimaar Arkellor. É possível que eu o tenha matado, mas estou inclinado a duvidar disso. Os Braiths podem provavelmente colocar oito aeromóveis no céu de uma só vez, se quiserem, embora seja mais tradicional voarem juntos, teyn-e-teyn. Cada carro estará armado. Eles têm suprimentos, energia e comida. Estão em número maior do que nós. Possivelmente, já que sou um renegado rompe-duelos, conseguirão persuadir Kirak Açorrubro Cavis e os dois caçadores do grupo Shanagate a se juntarem a eles na perseguição. Além disso, há Garse Janacek.
- Garse?
- Espero que ele tenha tirado as pedrardentes do braço e voltado para Alto Kavalaan. Ele estará envergonhado, sozinho, vestindo ferro morto. Não é um destino fácil, t'Larien. Eu o desgracei e a Jadeferro. Sinto pela dor dele, mas espero que parta. E rezo por isso. Pois há outra possibilidade, veja bem.
-Outra...?
- Ele pode vir atrás de nós. Não poderá deixar Worlorn até que a nave chegue. Isso levará um tempo. Não sei o que fará.
- Certamente não se juntará aos Braiths. São inimigos, e você é seu teyn e Gwen é sua cro-betheyn. Ele pode querer me matar, não duvido, mas...
- Garse é mais kavalariano do que eu, t'Larien. Sempre foi. E agora mais do que nunca, desde que eu não sou mais kavalariano depois de tudo o que fiz. O antigo costume requer que o teyn de um homem, não menos do que qualquer outro, mate um rompe-duelos. É um costume que apenas os muito fortes conseguem seguir. O laço de ferro-e-fogo é próximo demais para a maioria, então eles são deixados sozinhos para lamentar. Mas Garse Janacek é um homem muito forte, mais forte do que eu mesmo de muitas maneiras. Não sei. Não sei.
- E se ele vier atrás de nós?
Vikary falou calmamente.
- Não levantarei uma arma contra Garse. Ele é meu teyn, mesmo que eu não seja mais o dele, e já o magoei o bastante, falhei com ele, o envergonhei. Ele convive com uma dolorosa cicatriz a maior parte de sua vida adulta por minha causa. Uma vez, quando éramos jovens, um homem mais velho ficou ofendido com uma de suas brincadeiras e o desafiou. O modo era um disparo, e lutamos teyn-e-teyn. Em minha infinita sabedoria, convenci Garse de que nossa honra estaria satisfeita se atirássemos para o ar. Ele fez isso, lamentavelmente. Os outros decidiram ensinar Garse uma lição sobre humor. Para minha vergonha, permaneci intocado, enquanto ele foi desfigurado por causa da minha tolice. Mesmo assim, nunca me reprovou. Da primeira vez que estive com ele depois do duelo, quando ainda estava se recuperando dos ferimentos, me disse: "Você estava certo, Jaantony, ele atiraram para o ar. Pena que erraram". - Vikary riu, mas Dirk olhou para ele e viu que seus olhos estavam cheios de lágrimas, sua boca apertada de consternação. Não chorou, no entanto; por um supremo esforço de vontade, impediu que as lágrimas caíssem.
Abruptamente, Jaan se virou e entrou no edifício, deixando Dirk sozinho no balcão com o vento, a branca cidade crepuscular e a música de Lamiya-Bailis. Ao longe, as brancas mãos ossudas se erguiam, refreando os bosques invasores. Dirk as estudou, pensativamente, refletindo sobre as palavras de Vikary.
Minutos depois, o kavalariano voltou, de olhos secos e rosto inexpressivo.
- Sinto muito - começou.
- Não precisa...
- Devemos chegar ao cerne, t'Larien. Independentemente se Garse vai nos procurar ou não, enfrentamos riscos formidáveis. Temos armas, se precisarmos lutar, mas ninguém para usá-las. Gwen é uma boa atiradora, e bastante audaz, mas está machucada e instável. E você... posso confiar em você? Coloco isso sem meias-palavras. Confiei em você uma vez, e você me traiu.
- Como posso responder a essa pergunta? - Dirk falou. - Você não tem que acreditar em nenhuma promessa que eu lhe faça. Mas os Braiths querem me matar também, lembra? E Gwen também. Ou você acha que eu a trairia tão facilmente quanto... - Interrompeu-se, horrorizado com as próprias palavras.
- ... tão facilmente quanto me traiu. - Vikary completou, com um sorriso duro. - Você é bastante franco. Não, t'Larien, não acho que trairia Gwen. Mesmo assim, não achei que nos abandonaria quando o nomeamos keth e você aceitou o nome. Não teríamos que duelar se não fosse por você.