Ao redor do grande centro de luz e vida, havia um contorno fino e sinuoso onde o sol brilhava através do batente negro e vermelho da janela. Ou lutava para abrir caminho. Era apenas uma borda pequena, mas colocava um limite preciso no pó que se mexia por todos os lados.
Mais além havia cantos escuros, partes do quarto que o Cubo e os Sóis Troianos nunca alcançavam, onde gordos demônios e as encarnações dos medos de Dirk se debruçavam obscuramente, sempre a salvo de qualquer escrutínio.
Sorrindo e coçando a barba rala que lhe cobria as faces até o queixo (ele as sentia pinicar), Dirk estudou esses cantos e deixou que a música escuralbina entrasse em sua alma. Não sabia como fizera para deixá-la de lado, mas agora ela estava de volta e o cercava completamente.
A torre em que estavam emitiu uma longa nota baixa. A anos ou séculos de distância, um coro respondeu com vibrantes gemidos de viúva. Ouviu soluços trêmulos, o choro de bebês abandonados, e o som escorregadio de facas deslizando e cortando carne fresca. E o tambor. Como o vento podia bater um tambor?, pensou. Não sabia. Talvez fosse outra coisa. Mas soava como um tambor. Tão terrivelmente longe, pensou, e tão sozinho.
Tão horrível e incessantemente sozinho.
As névoas e as sombras se reuniam no canto mais afastado e mais escuro do quarto, e então começaram a clarear. Dirk viu uma mesa e uma cadeira baixa brotando das paredes e do chão como estranhos vegetais de plástico. Perguntou-se brevemente como os via; o sol se movera um pouco, e apenas um fino feixe de luz penetrava pela janela agora, e finalmente também se dissipou, e o mundo ficou cinza.
Quando o mundo ficava cinza, ele percebeu, a poeira não dançava. Não. Nem um pouco. Sentiu o ar para ter certeza; não havia poeira, nem calor, nem luz do sol. Assentiu sabiamente. Parecia que tinha descoberto alguma grande verdade.
Luzes fracas se moviam pelas paredes, fantasmas despertando para mais uma noite. Fantasmas e vestígios de sonhos antigos. Todos eles eram cinza e branco; a cor era apenas para os vivos, não tinha lugar ali.
Os fantasmas começaram a se mexer. Estavam presos nas paredes, cada um deles; de tempos em tempos, Dirk imaginava ver um deles irromper em dança frenética e bater com impotência e desespero contra as paredes de vidro que o mantinha fora do quarto. Mãos espectrais batiam, batiam, mas o quarto não estremecia. A quietude era parte dessas coisas; os fantasmas eram insubstanciais e, por mais que batessem, só podiam seguir dançando.
A dança - uma dança macabra - de sombras amorfas... Oh, mas era lindo! Movendo-se, afundando, se contorcendo. Paredes de chama cinzenta. Muito melhores do que as nuvens de poeira, aquelas dançarinas; essas seguiam um padrão e acompanhavam a canção da Cidade Sereia.
Desolação. Vazio. Decadência. Um único tambor, batendo devagar. Sozinho. Sozinho. Sozinho. Nada tem sentido.
- Dirk!
Era a voz de Gwen. Ele sacudiu a cabeça, desviou o olhar das paredes, até onde ela estava deitada na escuridão. Era noite. De alguma forma, o dia se fora.
Gwen, que não havia dormido, olhava para ele.
- Sinto muito - ela disse. Estava lhe dizendo algo. Mas ele já sabia, sabia pelo silêncio dela, sabia... pelo tambor, talvez. Por Kryne Lamiya.
Ele sorriu.
- Você nunca esqueceu, não é? Não era uma questão de esquecimento. Havia uma razão para você nunca tirar o... - apontou.
- Sim - ela disse. Sentou-se na cama, a coberta caindo ao redor de sua cintura. Jaan havia desabotoado a frente do traje dela, que agora pendia solto, e as suaves curvas de seus seios eram visíveis. Na luz tremulante, sua carne era pálida e cinzenta. Dirk não sentiu nenhuma excitação. A mão dela foi até o jade-e-prata. Tocou, acariciou, suspirou. - Nunca pensei... não sei... disse o que tinha que dizer, Dirk. Bretan Braith teria matado você.
- Talvez tivesse sido melhor - ele respondeu. Não amargamente, mas em um tom divertido, vagamente distante. - Então você nunca pretendeu deixá-lo?
- Não sei. Como vou saber o que pretendia? Eu ia tentar, Dirk, de verdade que ia. Mas na verdade nunca acreditei. Disse isso para você. Fui honesta. Aqui não é Ávalon, e nós mudamos. Não sou sua Jenny. Nunca fui, e agora menos do que nunca.
- Sim - ele disse, assentindo. - Lembro de você dirigindo. Do jeito que segurava os controles. Seu rosto. Seus olhos. Você tem olhos de jade, Gwen. Olhos de jade e um sorriso de prata. Você me assusta. - Afastou os olhos dela, de volta à parede. Os murais luminosos moviam-se em desenhos caóticos, em compasso com a música selvagem. De alguma forma, os fantasmas haviam partido. Deixara de olhá-los apenas por um instante, mesmo assim haviam evaporado e partido. Como seus antigos sonhos, pensou.
- Olhos de jade? - Gwen estava dizendo.
- Como Garse.
- Garse tem olhos azuis - ela o recordou.
- Mesmo assim. Como Garse.
Ela riu e, em seguida, gemeu.
- Dói quando rio - disse. - Mas é engraçado. Eu, como Garse. Não é de estranhar que Jaan...
- Você vai voltar para ele?
- Talvez. Não sei. Seria muito difícil deixá-lo agora. Você entende? Ele finalmente escolheu. Quando apontou o laser para Garse. Depois disso, depois que ele se virou contra seu teyn, contra o grupo e contra o mundo, não posso simplesmente... Você sabe. Mas não voltarei a ser betheyn dele, nunca mais. Terá que ser mais do que jade-e-prata.
Dirk sentia-se vazio. Deu de ombros.
- E eu?
- Você sabe que não estava dando certo. Sem dúvida. Você tem que ter percebido. Nunca parou de me chamar de Jenny.
Ele sorriu.
- Não parei? Talvez não. Talvez não.
- Nunca - ela disse. Esfregou a cabeça. - Estou me sentindo um pouco melhor agora - disse. - Ainda tem uma daquelas barras de proteína?
Dirk pegou uma do bolso e jogou para ela. Ela a apanhou no ar com a mão esquerda, sorriu para ele, abriu a embalagem e começou a comer.
Ele se levantou abruptamente, enterrando as mãos nos bolsos da jaqueta, e andou até a janela. Os cumes das torres brancas ainda irradiavam um fulgor vago e destingido - talvez o Olho do Inferno e seus assistentes não tivessem sumido totalmente no céu ocidental. Mas, embaixo, nas ruas, a cidade de Escuralba bebia da noite. Os canais eram faixas negras, e a paisagem pingava com o brilho ofuscante púrpura do musgo fosforescente. Através dessa melancolia suave, Dirk vislumbrou o solitário barqueiro, como o vislumbrara antes, sobre essas mesmas águas escuras. Estava apoiado em seu remo, como sempre, deixando que a correnteza o levasse, aproximando-se inexoravelmente. Dirk sorriu.
- Bem-vindo - murmurou. - Bem-vindo.
- Dirk? - Gwen havia terminado de comer. Ajustava seu traje novamente, envolta na luz turva. Atrás dela, as paredes estavam vivas com os dançarinos cinza e brancos. Dirk ouvia tambores, sussurros e promessas. E agora sabia que essas últimas eram mentiras.
- Uma pergunta, Gwen - ele disse, desalentado.
Ela o encarou.
- Por que me chamou? - ele questionou. - Por quê? Se achava que não havia nada entre nós, entre você e mim, por que não me deixou em paz?
O rosto dela estava pálido e perplexo.
- Chamar você?
- Você sabe - ele disse. - A jóia-sussurrante.
- Sim - ela falou, insegura. - Está em Larteyn.
- É claro que está - ele concordou. - Na minha bagagem. Você a mandou para mim.