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Não olhou novamente para Kryne Lamiya, mas sentia a cidade atrás de si, impulsionando-o, livrando-o de todos os seus temores. O temor era uma tolice; nada importava, a morte menos ainda. Mesmo quando a Cidade Sereia e suas luzes brancas e cinza desapareceram de vista, a música permaneceu de forma constante mas cada vez mais fraca, sempre com ele, sempre intensa. Uma nota, um silvo trêmulo e agudo se sobressaía ao resto. Dirk estava a trinta quilômetros da cidade, mas ainda ouvia, misturada com o profundo assobio do vento. Finalmente percebeu que o barulho vinha de seus lábios.

Parou de assobiar e tentou se concentrar no vôo.

Depois de quase uma hora, a cadeia de montanhas se ergueu diante dele, ou melhor, abaixo dele, pois Dirk voava bem alto, e se sentia mais perto das estrelas e das minúsculas galáxias que vislumbrava no céu do que das florestas lá embaixo. O vento ficara mais estridente e furioso ao forçar seu caminho pelas fendas da portinhola, mas Dirk ignorou o som.

Onde as montanhas encontravam os bosques, ele viu uma luz.

Diminuiu a velocidade do aeromóvel, fez um círculo e começou a descer. Nenhuma luz devia iluminar esse lado das montanhas, ele sabia; o que quer que fosse, devia ser investigado.

Fez uma espiral descendente até ficar diretamente sobre a luz, então parou o aeromóvel no ar, manteve-o suspenso por um tempo, e desligou o controle de gravidade. Com lentidão infinita, desceu silenciosamente, balançando para frente e para trás com o vento.

Havia várias luzes sob ele. A principal fonte de iluminação era uma fogueira. Dirk podia afirmar agora, podia vê-la agitando-se e tremeluzindo conforme os ventos jogavam as chamas para um lado e para o outro. Mas havia luzes menores, também, fixas e artificiais, um círculo delas na escuridão, não muito distante da fogueira. Talvez a um quilômetro, calculou, talvez menos.

A temperatura na pequena cabine começou a subir, e Dirk sentia o suor em sua pele, encharcando as roupas sob a pesada jaqueta. A fumaça chegara até ele também; nuvens negras e sujas erguiam-se da fogueira e obscureciam sua visão. Franzindo o cenho, moveu o aeromóvel até sair do caminho da fumaça e continuou a descer.

As chamas se ergueram para saudá-lo, longas línguas laranja, muito brilhantes contra as nuvens de fumaça. Dirk viu fagulhas também, ou cinzas, ou algo do tipo; brotavam da fogueira como estrelas cadentes, brincando na noite e desaparecendo. Quando estava ainda mais baixo, presenciou outro espetáculo, um crepitar furioso de chamas branco-azuladas com um cheiro forte de ozônio, que logo se extinguiram.

Dirk parou o motor do aeromóvel quando o fogo ainda estava a uma distância prudente embaixo dele. Havia outras pessoas ao redor - no círculo de luzes artificiais - e não queria ser visto. Seu aeromóvel negro e prata, imóvel contra o céu negro, não seria facilmente notado, mas seria uma história diferente se ele se deixasse atingir pelo brilho das chamas. Embora tivesse uma visão clara de onde estava, não podia identificar o que estava queimando; no centro do fogo havia uma forma imprecisa e escura que soltava faíscas de vez em quando. Ao redor, podia ver um denso emaranhado de estranguladores, seus membros de cera brilhando amarelos sob a luz refletida. Vários galhos haviam caído no centro da fogueira e contribuíam para grande parte da fumaça enquanto murchavam e se transformavam em cinzas. Mas o resto, a cerca sinuosa que rodeava o fogo, recusava-se a arder. Em vez de se espalhar, as chamas obviamente se extinguiriam.

Dirk esperou e observou a fogueira se apagar. Tinha quase certeza de estar olhando para um aeromóvel caído; as fagulhas e o cheiro de ozônio lhe diziam isso. Queria saber que carro era.

Depois que as chamas se aplacaram e as faíscas pararam de voar, mas antes ainda que o fogo se extinguisse por completo e se transformasse em uma fumaça gordurenta, Dirk viu um formato. Uma visão sucinta; uma asa que lembrava a de um morcego, retorcida em um ângulo grotesco e apontada para o céu, recortada contra uma lâmina de fogo. Era o suficiente; não era um aeromóvel conhecido, embora fosse claramente um produto kavalariano.

Como um fantasma escuro sobre a floresta, ele se afastou da fogueira moribunda, em direção ao círculo de luzes artificiais. Dessa vez, manteve uma distância maior. Não precisava se aproximar. As luzes eram bem brilhantes, e a cena podia ser vista em detalhes.

Viu uma clareira ampla, cercada por lanternas elétricas, à margem de algum lago extenso; o mesmo trio que estivera sob a árvore emereliana em Desafio quando Myrik Braith atacou Gwen. Um deles, o grande carro abobadado com blindagem vermelha, pertencia a Lorimaar Alto-Braith. Os outros dois eram menores, quase idênticos, exceto que um estava muito avariado, mesmo visto a essa distância. Estava tombado, meio submerso na água, e parte deformado e brilhante. A porta blindada estava aberta.

Figuras delgadas se moviam ao redor do veículo destroçado. Dirk mal podia vê-las, exceto pelo movimento, tão bem se camuflavam com a paisagem. Perto, alguém estava tirando cães de caça Braiths do aeromóvel de Lorimaar.

Franzindo o cenho, Dirk tocou seu controle de gravidade, e elevou o carro, até perder os homens e os aeromóveis de vista e nada restar abaixo além de um ponto de luz na floresta. Dois pontos, na verdade, mas o fogo era uma brasa tênue e alaranjada agora, e logo se apagaria.

Seguro no ventre negro do céu, parou para pensar.

O carro destroçado era de Roseph, o mesmo que haviam roubado em Desafio, o carro que Jaan Vikary usara para voar até Larteyn naquela manhã. Tinha certeza disso. Os Braiths o encontraram, certamente, e o perseguiram até a floresta, derrubando-o. Mas parecia improvável que Jaan estivesse morto; senão, para que os cães? Lorimaar não estava apenas levando a matilha para um passeio. Era mais provável que Jaan tivesse sobrevivido à queda na floresta, e que os Braiths o estivessem caçando.

Dirk considerou a possibilidade de resgatá-lo, mas as perspectivas pareciam sombrias. Não tinha idéia de como encontrar Jaan na floresta tenebrosa. Os Braiths estavam mais bem equipados para isso do que ele.

Retomou seu curso em direção à cadeia de montanhas, e para Larteyn, além dela. Na floresta, armado e sozinho como estava, não podia ajudar Jaan Vikary. Na fortaleza de fogo kavalariana, no entanto, podia ao menos saldar a dívida de Arkin Ruark com Jadeferro.

As montanhas deslizavam sob ele, e Dirk relaxou mais uma vez, embora uma mão estivesse apoiada no rifle laser que ainda estava em seu colo.

O vôo levou cerca de uma hora mais; então Larteyn, vermelha e fumegante, surgiu para fora da montanha. Parecia muito morta, muito vazia, mas Dirk sabia que era mentira. Desceu e não perdeu tempo, sobrevoando pelos baixos telhados quadrados e pelas praças de pedrardente até o prédio que certa vez partilhara com Gwen Delvano, os dois Jadeferros e o mentiroso kimdissiano.

Apenas um aeromóvel esperava no telhado varrido pelo vento - a relíquia militar verde-oliva. Não havia sinal do veículo amarelo de Ruark, e a arraia cinza estava perdida também. Dirk se perguntou brevemente o que teria acontecido com ela, abandonada em Desafio, mas logo deixou o pensamento de lado e aterrissou.

Empunhou o laser com firmeza e saiu. O mundo estava tranqüilo e carmesim. Dirk andou rapidamente até os elevadores e desceu aos aposentos de Ruark. Estavam vazios.

Revistou-os meticulosamente, derrubando coisas aqui e ali, sem se preocupar com o que bagunçava ou destruía. Todos os pertences do kimdissiano ainda estavam no lugar, mas Ruark não estava ali, e não havia sinal de onde havia ido.

Os pertences de Dirk também estavam ali, as poucas coisas que deixara para trás quando ele e Gwen fugiram, nada além de uma pequena pilha de roupas leves que trouxera de Braque. Inúteis no frio de Worlorn.