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Dirk baixou o laser, ajoelhou-se e começou a revirar os bolsos das calças sujas. Só quando a encontrou - ainda enrolada em prata e veludo - soube realmente o que procurava e por que voltara a Larteyn.

No quarto de Ruark encontrou um pequeno cofre com jóias pessoais: anéis, pingentes, intrincados braceletes e coroas, brincos de pedras semipreciosas. Remexeu o conteúdo da caixa até encontrar uma corrente fina com uma coruja prateada incrustada em âmbar e presa por um broche. O broche parecia ter o tamanho adequado. Dirk arrancou o âmbar e a coruja e os substituiu pela jóia-sussurrante.

Então abriu a jaqueta e a pesada camisa e pendurou a corrente no pescoço, e a fria lágrima vermelha ficou próxima de sua pele nua, sussurrando seus sussurros, prometendo suas mentiras. A pequena punhalada de gelo era dolorida contra seu peito, mas estava tudo bem; era Jenny. Em pouco tempo se acostumou, e a joia não o incomodou mais. Lágrimas salgadas corriam por seu rosto. Não notou. Subiu as escadas.

A sala de trabalho que Ruark partilhara com Gwen estava tão desarrumada quanto Dirk se lembrava, mas o kimdissiano não estava ali. Nem foi encontrado no apartamento deserto no andar de cima, para o qual Dirk ligara quando estavam em Desafio. Havia apenas mais um lugar para procurar.

Rapidamente subiu até o topo da torre. A porta estava aberta. Hesitou, e então entrou, segurando o laser, pronto para atirar.

A grande sala de estar era caos e destruição.

A tela de parede havia sido esmagada ou explodida; havia pedaços afiados de vidro por todos os lados. As paredes estavam marcadas por tiros de laser. O sofá havia sido virado e rasgado em uma dúzia de partes, o enchimento arrancado em grandes punhados e espalhado. Alguns punhados haviam sido jogados na lareira, contribuindo para a bagunça encharcada e esfumaçada que sufocou o fogo. Uma das gárgulas, sem cabeça e de pernas para o ar, estava apoiada contra a base da cornija. Sua cabeça, com olhos de pedrardente e tudo mais, havia sido atirada nas cinzas molhadas da lareira. O ar fedia a vinho e vômito.

Garse Janacek dormia no chão, o torso nu, a barba ruiva ainda mais vermelha pelo vinho que escorrera nela, a boca aberta. Tinha o mesmo cheiro do aposento. Roncava alto, e sua pistola laser ainda estava em sua mão. Dirk viu a camisa mergulhada em um charco de vômito que Janacek tentara secar sem muito entusiasmo.

Dirk se aproximou cuidadosamente e tirou o laser dos dedos frouxos de Janacek. O teyn de Vikary não era o ferro kavalariano que Jaan imaginara.

O braço direito de Janacek ainda estava envolto em ferro-e- pedrardente. Algumas das jóias negro-avermelhadas haviam sido arrancadas e os buracos vazios pareciam obscenos. Mas a maior parte do bracelete estava intacta, exceto onde se notavam alguns arranhões. O antebraço de Janacek, logo acima do bracelete, também estava arranhado. Os talhos era fundos e, em geral, eram continuação dos sulcos no ferro negro. Tanto braço quanto bracelete tinham crostas de sangue seco.

Perto da bota de Janacek, Dirk viu uma longa faca manchada de sangue. Pode imaginar o resto. Bêbado, sem dúvida, com a mão esquerda desajeitada pelo antigo ferimento, Janacek tentara arrancar as pedrardentes, perdendo a paciência e esfaqueando selvagemente, derrubando a lâmina pela dor e pela cólera.

Dirk retrocedeu rapidamente, desviando da camisa empapada de Janacek. Parou no vão da porta, levantou o rifle e gritou:

- Garse!

Janacek não se moveu. Dirk repetiu o grito. Dessa vez, o volume dos roncos diminuiu notavelmente. Encorajado, Dirk parou, pegou o objeto mais próximo - uma pedrardente - e o jogou no kavalariano. Acertou Janacek no rosto.

Ele se sentou lentamente, piscando. Viu Dirk e fez uma careta de desprezo.

- Levante-se. - Dirk mandou, gesticulando com o laser.

Janacek ficou em pé com esforço, olhando ao redor em busca da própria arma.

- Você não vai achá-la. - Dirk avisou. - Está comigo.

Os olhos de Janacek estavam turvos e cansados, mas o sono fizera passar grande parte da bebedeira.

- Por que está aqui, t'Larien? - perguntou, lentamente, em uma voz marcada tanto pela exaustão quanto pelo vinho. - Veio zombar de mim?

Dirk negou com a cabeça.

- Não. Sinto por você.

Janacek o encarou com raiva.

- Sente por mim?

- Não acha que merece pena? Olhe ao seu redor!

- Cuidado. - Janacek lhe avisou. - Brinque muito comigo, t'Larien, e descobrirei se você tem aço suficiente para disparar esse laser que segura tão desajeitadamente.

- Não, Garse - Dirk falou. - Por favor. Preciso da sua ajuda.

Janacek gargalhou, jogando a cabeça para trás e rugindo.

Quando parou, Dirk lhe contou tudo o que acontecera desde que Vikary matou Myrik Braith em Desafio. Janacek permaneceu muito tenso enquanto ouvia, os braços cruzados apertados contra o peito nu e marcado por cicatrizes. Riu uma única vez - quando Dirk lhe contou suas conclusões sobre Ruark.

- Os manipuladores de Kimdiss. - Janacek resmungou. Dirk o deixou resmungar, e então terminou a história. - E eu com isso? - quis saber, quando Dirk concluiu o relato. - Por que acha que alguma coisa disso tem alguma importância para mim?

- Achei que você não deixaria os Braiths caçarem Jaan como a um animal. - Dirk respondeu.

- Ele mesmo se fez um animal.

- Aos olhos dos Braiths, imagino - Dirk falou. - Você é um Braith?

- Sou um kavalariano.

- Todos os kavalarianos são iguais agora? - Gesticulou em direção da cabeça de pedra da gárgula, jogada na lareira. - Vejo que você também tem troféus, exatamente como Lorimaar.

Janacek não falou nada. Seus olhos estavam muito duros.

- Talvez eu estivesse errado - Dirk prosseguiu. - Mas quando vim até aqui e vi tudo isso, comecei a pensar. Comecei a pensar que talvez você tivesse algum sentimento humano pelo homem que costumava ser seu teyn. Me lembrei que uma vez você me disse que você e Jaan tinham um laço mais forte do que eu jamais seria capaz de entender. Acho que era uma mentira, no entanto.

- Era verdade. Jaan Vikary rompeu esse laço.

- Gwen rompeu todos os laços entre nós há anos - Dirk falou. - Mas eu vim quando ela precisou de mim. Oh, acontece que ela não precisava realmente de mim, e eu vim por várias razões egoístas. Mas eu vim. Não pode tirar isso de mim, Garse. Cumpri minha promessa. - Fez uma pausa. - E eu não deixaria ninguém caçá-la, se pudesse impedir. Parece que éramos ligados por algo bem mais forte que seu ferro-e-fogo kavalariano.

- Diga o que quiser, t'Larien. Suas palavras não mudam nada. A idéia de você cumprindo promessas é ridícula. E as promessas que fez para Jaan e para mim?

- Eu as traí - Dirk respondeu rapidamente. - Sei disso. Então você e eu estamos quites, Garse.

- Não traí ninguém.

- Está abandonando aqueles que eram mais próximos a você. Gwen, que era sua cro-betheyn, que dormia com você, que o amava e o odiava ao mesmo tempo. E Jaan. Seu precioso teyn.

- Nunca traí nenhum deles. - Janacek garantiu com veemência. - Gwen traiu a mim e ao jade-e-prata que usava no dia em que se juntou a você. Jaan renunciou a tudo o que era decente matando Myrik daquela maneira. Ele me ignorou, ignorou os deveres de ferro-e-fogo. Não devo nada a nenhum deles.

- Não deve, não é? - Sob a camisa, Dirk podia sentir a jóia-sussurrante dura contra a pele, inundando-o com palavras e memórias, com uma evocação do homem que fora um dia. Estava muito zangado. - E isso é tudo, certo? Não deve nada para eles, então quem se importa? Todos os seus malditos laços kavalarianos, no final das contas, são dívidas e obrigações. Tradições, a antiga sabedoria dos grupos, como o código de honra e a caça aos quase-homens. Não pense nelas, apenas siga-as. Ruark estava certo sobre uma coisa... não há amor em nenhum de vocês, exceto, talvez, em Jaan, e não estou tão seguro disso. Que diabos teria feito se Gwen não estivesse usando o bracelete?