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— Pois, pois. Mas olha cá — disse a mulher, menos asperamente, apoiando os gordos braços castanhos e o vasto peito sobre o balcão. — Nós já não fazemos esses truques. As pessoas não estão interessadas. Perceberam como eram feitos. Agora, estes espelhos, estou a ver que te lembras dos meus espelhos — e sacudiu a cabeça, fazendo rodopiar os pontinhos de luz em volta deles de forma entontecedora. — Pois pode-se confundir o espírito de um homem com os reflexos dos espelhos e com palavras e ainda com outros truques de que não te vou falar, até ele pensar que vê o que não vê, o que não está ali. Como as labaredas e os sinos dourados, ou os fatos com que eu costumava enfeitar os marinheiros, tecido de ouro com diamantes do tamanho de abrunhos, e lá iam eles todos pimpões como se fossem o Rei de Todas as Ilhas… Mas eram truques, ilusões. É possível iludir os homens. São como galinhas encantadas por uma cobra, ou por um dedo em frente do bico. E os homens são como as galinhas. Mas depois, no fim, percebem que foram iludidos, entontecidos, de maneira que se zangam e deixam de ter prazer com tais coisas. Foi assim que me voltei para este negócio e talvez que nem todas as sedas sejam sedas, nem todos os velos gontianos, mas de qualquer maneira duram… lá isso, duram! São coisas de verdade e não simples mentiras e ar como os fatos de pano de ouro.

— Bem, bem — fez o Falcão —, quer então dizer que já não há ninguém em toda a Cidade de Hort que tire fogo das orelhas, nem faça mágicas como costumavam?

Perante estas últimas palavras, a mulher franziu o cenho, endireitou-se e começou a enrolar o velo com todo o cuidado.

— Aqueles que ainda querem mentiras e visões mastigam hádzia — informou secamente.

Com um aceno de cabeça, indicou as figuras imóveis ao redor do largo e acrescentou:

— Fala com aqueles, se quiseres.

— Mas havia mágicos, aqueles que invocavam os ventos para os homens do mar e lançavam esconjuros de boa sorte sobre os carregamentos. Esses também se viraram para outros negócios?

Mas a mulher, subitamente furiosa, interrompeu-o com a sua voz retumbante.

— Há um mágico, se o quiseres. Um dos grandes, um feiticeiro com bordão e tudo. Estás a vê-lo ali? Navegou com o próprio Egre, invocando ventos e encontrando galeras bem pejadas, dizia ele, mas era tudo mentiras e por fim o Capitão Egre deu-lhe a recompensa merecida. Decepou-lhe a mão direita. E agora para ali está, como podes ver, com a boca cheia de hádzia e a barriga de vento. Ar e mentiras! Ar e mentiras! É tudo o que há nessa tua magia, Comandante Bode!

— Pronto, pronto, senhora —, disse o Falcão com impenitente brandura. — E estava só a perguntar.

A mulher voltou-lhes as amplas costas com um grande remoinhar de reflexos e ele desandou dali, com Arren ao lado.

Mas era um desandar com um propósito e que os levou até perto do homem que a mulher indicara. Estava sentado de encontro a uma parede e com o olhar perdido no vácuo. O rosto escuro e barbudo fora belo em tempos. O coto enrugado do punho jazia nas pedras do chão, sob a luz quente e brilhante do Sol, um símbolo de vergonha.

Havia uma certa agitação nas tendas por detrás deles, mas Arren não conseguia desviar os olhos do homem, preso por um fascínio relutante.

— Era realmente um feiticeiro? — perguntou em voz muito baixa.

— É talvez aquele a quem chamavam Lebre e era fazedor de vento ao serviço do pirata Egre. Eram famosos ladrões… Ei! Afasta-te, Arren!

Um homem, a correr a toda a velocidade e saindo do meio das tendas, por pouco não chocava contra ambos. Outro veio a trotar atrás do primeiro, vergado ao peso de um grande tabuleiro dobradiço, cheio de cordões, fitas e rendas. Uma das tendas veio abaixo com estrondo. Toldos estavam a ser enrolados ou retirados à pressa. Gente às molhadas empurrava-se ou lutava por todo o espaço do mercado. Erguiam-se vozes, vociferando, gritando. E acima de todas elas destacava-se a gritaria ensurdecedora da mulher com o toucado de espelhos. Arren vislumbrou-a brandindo uma espécie de pau ou vara contra uma data de homens, afugentando-os com grandes golpes a varrer, como um espadachim encurralado. Se se tratava de alguma discussão que degenerara em motim, um ataque por uma quadrilha de ladrões ou a luta entre dois grupos rivais de vendilhões, ninguém saberia dizê-lo. Havia gente a correr com braçadas de mercadorias que podiam ter sido fruto de roubo ou arrebanhadas pelos proprietários para as salvar da pilhagem. Havia lutas à faca e ao soco, e zaragatas por todo o largo.

— Por ali — disse Arren, apontando para uma rua lateral, perto deles, que conduzia para fora do largo. Deu uns passos em direção a essa rua, pois era evidente que o melhor era saírem dela o mais depressa possível, mas o companheiro agarrou-lhe o braço. Arren olhou para trás e viu que o homem chamado Lebre estava a esforçar-se por se pôr de pé. Quando se ergueu, ficou um momento a oscilar e logo, sem sequer olhar em volta, começou a caminhar ao longo das paredes que limitavam o largo, arrastando por elas a sua única mão como para se guiar ou segurar.

— Não o percas de vista! — disse o Gavião. E seguiram ambos no seu encalço. Ninguém os molestou, nem ao homem que seguiam, e daí a um minuto estavam fora do largo do mercado, encosta abaixo, no silêncio de uma rua estreita e tortuosa.

Por cima deles, os sótãos das casas quase se juntavam sobre a rua, reduzindo a claridade. A seus pés, a pedras estavam escorregadias de água e imundícies. O Lebre avançava a boa velocidade, se bem que continuasse a roçar a mão pelas paredes, como um cego. Tinham de se manter perto dele não fossem perdê-lo nalgum cruzamento. De súbito, Arren sentiu-se tomado pela excitação da caçada. Todos os seus sentidos estavam despertos, tal como estariam numa caçada ao veado, nas florestas de Enlad. Via nitidamente o rosto de cada pessoa por quem passavam e aspirava o doce fedor da cidade, um cheiro a lixo, incenso, carne morta e flores. Ao abrirem caminho através de uma rua larga e cheia de gente, ouviu o rufar de um tambor e viu de relance uma fileira de homens e mulheres nus, cada um acorrentado ao que lhe estava mais próximo pelo pulso e pela cintura, o cabelo eriçado a cair-lhes para a cara. Uma brevíssima visão e já tinham desaparecido, enquanto ele se esgueirava atrás do Lebre por um lance de degraus deitando para uma praça estreita, vazia à exceção de um pequeno grupo de mulheres a dar à língua junto a uma fonte.

Foi aí que o Gavião alcançou o Lebre e lhe pôs a mão no ombro, perante o que o homem se encolheu como se o tivessem queimado, recuando assustado, e se acolheu sob a maciça entrada de uma porta. Ficou-se ali a tremer, fitando-os com o olhar desvairado dos fugitivos.

— És tu aquele a quem chamam Lebre? — perguntou o Gavião, falando com a sua própria voz que era áspera na qualidade, mas suave na entoação. O homem nada respondeu, parecendo não atender ou não ouvir. — Preciso de uma coisa de ti — continuou o Gavião, mais uma vez sem obter resposta. — Estou disposto a pagar por ela.

Houve uma lenta reação.

— Marfim ou ouro?

— Ouro.

— Quanto?

— O feiticeiro sabe qual o valor do seu encantamento.

O rosto do Lebre estremeceu e alterou-se, adquirindo vida por um instante, tão depressa que se diria tremular, e logo voltando a nublar-se de vazio.

— Foi-se tudo — disse —, tudo…

Um ataque de tosse fê-lo dobrar-se ao meio e cuspir negro. Quando se voltou a endireitar, quedou-se passivo e trêmulo, parecendo ter esquecido de que estavam a falar.

Uma vez mais Arren o fitava, fascinado. O recesso em que o homem se encontrava era formado por duas figuras gigantescas, flanqueando a entrada, estátuas cujo pescoço se vergava ao peso de um frontão triangular e cujos corpos de músculos tensos só parcialmente se destacavam da parede, como se tivessem tentado lutar para sair da pedra e entrar na vida, só incompletamente o conseguindo. A porta que guardavam era de madeira podre segura pelos gonzos. A casa, em tempos um palácio, era agora uma ruína. Os rostos carrancudos e protuberantes dos gigantes estavam lascados e cobertos de liquens. Entre aquelas duas poderosas figuras, o homem chamado Lebre parecia ainda mais inerme e frágil, de olhos tão mortiços como as janelas da casa vazia. Levantando o braço mutilado entre ele e o Gavião, lamuriou: