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— Dá qualquer coisinha a um pobre estropiado, senhor… O mago fez uma careta de vergonha ou dor. Arren sentiu que, por um momento, lhe vira o rosto verdadeiro sob o disfarce. Voltando a pôr a mão sobre o ombro do Lebre, o Gavião pronunciou algumas palavras, suavemente, na língua dos feiticeiros que Arren não entendia.

Mas o Lebre entendeu. Com a sua única mão agarrou-se ao Gavião e gaguejou:

— Tu ainda podes falar… falar… Vem comigo, anda…

O Arquimago olhou de relance para Arren e fez um aceno afirmativo.

Por ruas íngremes, desceram até um dos vales entre as três colinas da Cidade de Hort. A medida que iam descendo, os caminhos iam-se tornando mais estreitos, escuros e sossegados. O céu era uma tira pálida entre os beirais acima das suas cabeças e as paredes das casas, de ambos os lados, eram úmidas e frias. Ao fundo daquela espécie de garganta corria um rio, fedorento como um esgoto a céu aberto. Entre pontes em arco, apinhavam-se casas ao longo das margens. O Lebre virou para a escura entrada de uma dessas casas, desaparecendo como uma vela que um sopro tivesse apagado. Seguiram-no.

Os degraus da escada sem luz estalavam e oscilavam debaixo dos seus pés. Ao cimo das escadas o Lebre abriu uma porta com um empurrão e puderam então ver onde estavam. Era um quarto vazio, com uma enxerga de palha a um canto e uma janela sem vidros, entaipada, que deixava entrar uma tênue claridade poeirenta.

O Lebre voltou-se para encarar o Gavião e de novo lhe segurou o braço. Os seus lábios agitaram-se e por fim, gaguejante, disse:

— Dragão… dragão…

O Gavião olhou-o também, firmemente, mas sem uma palavra.

— Não consigo falar — disse o Lebre e, soltando o braço do Gavião, agachou-se no soalho vazio, a chorar.

O mago ajoelhou junto dele e falou-lhe suavemente na Antiga Fala. Arren deixou-se ficar junto à porta fechada, com a mão sobre o punho da faca. A luz cinzenta e o quarto empoeirado, as duas figuras ajoelhadas, o suave e estranho som da voz do mago, falando na língua dos dragões, tudo se ligava entre si como sucede nos sonhos, sem relação com o que acontece fora deles ou com o passar do tempo.

Lentamente, o Lebre voltou a erguer-se. Limpou o pó dos joelhos com a sua única mão e escondeu o braço mutilado atrás das costas. Olhou em volta, olhou para Arren. Agora via aquilo para que estava a olhar. Arren permaneceu de pé junto à porta, de guarda. Mas, com a simplicidade de alguém que carecera de mobiliário durante toda a sua infância, o Gavião sentou-se, de pernas cruzadas, no soalho nu.

— Conta-me como perdeste a tua arte e a linguagem da tua arte — instou.

Durante algum tempo o Lebre não deu resposta. Começou a bater com o braço mutilado de encontro à coxa, de modo impaciente, sacudido, e por fim disse, forçando-se a pronunciar as palavras em frases bruscas e soltas.

— Eles cortaram a minha mão. Não posso tecer os encantamentos. Cortaram a minha mão. O sangue correu, até secar.

— Mas isso foi depois de teres perdido o teu poder, Lebre. De outro modo não podiam ter-te feito tal coisa.

— Poder…

— Sim, o poder sobre os ventos e as ondas e os homens. Chamava-los pelos seus nomes e eles obedeciam-te.

— Sim. Lembro-me de estar vivo — disse o homem numa voz suave e rouca. — E conhecia as palavras e os nomes…

— E agora, estás morto?

— Não. Vivo. Vivo. Só que dantes eu era um dragão… Não, não estou morto. Durmo por vezes. O sono está muito perto da morte, toda a gente sabe disso. Os mortos caminham nos sonhos, toda a gente sabe disso. Vêm vivos até nós e dizem-nos coisas. Saem da morte para dentro dos sonhos. Há uma maneira, um caminho. E se prosseguires até chegares suficientemente perto, há um caminho de volta, todo um caminho. Todo um caminho. Podes encontrá-lo se souberes onde procurar. E se estiveres disposto a pagar o preço.

— Que preço é esse? — e a voz do Gavião flutuava no ar sombrio como a sombra de uma folha a cair.

— A vida, o que havia de ser? Que podes tu comprar com a vida, senão vida?

O Lebre balançava-se para trás e para diante na sua enxerga, com um brilho matreiro, inquietante, nos olhos.

— Bem vês — prosseguiu ele —, podem cortar-me a mão. Podem cortar-me a cabeça. Não interessa, porque eu posso encontrar o caminho de volta. Sei onde procurar. Só homens de poder lá podem ir.

— Feiticeiros, queres tu dizer?

— Sim.

O Lebre hesitou, como se tentasse, por várias vezes, pronunciar a palavra. Mas não conseguiu dizê-la.

— Homens de poder — acabou por repetir. — E têm… têm de renunciar a ele. De pagar.

Depois quedou-se ensimesmado, como se a palavra «pagar» tivesse enfim despertado associações e ele houvesse compreendido que estava a oferecer informações em vez de as vender. Não foi possível arrancar-lhe mais nada, nem sequer as insinuações vagas e gaguejadas acerca de um «caminho de volta» que o Gavião parecia considerar significativas. Assim, pouco demorou para o mago se levantar.

— Bom, meias respostas sempre são melhores que resposta nenhuma e o mesmo se passa com o pagamento.

E, hábil como um prestidigitador, fez saltar uma moeda de ouro para cima da enxerga, em frente do Lebre.

O Lebre deitou-lhe a mão. Olhou a moeda e depois fitou o Gavião e Arren com movimentos espasmódicos da cabeça.

— Esperem — gaguejou. Logo que a situação se alterara, perdera-lhe o controlo e agora o seu espírito tateava em busca do que pretendia dizer.

— Esta noite — disse por fim. — Esperem. Esta noite. Vou ter hádzia.

— Não preciso disso.

— Para te mostrar… Para te mostrar o caminho. Esta noite. Eu levo-te. Eu mostro-te. Tu podes lá chegar porque tu… tu és…

E voltou a tentar encontrar a palavra até que o Gavião disse:

— Eu sou um feiticeiro.

— Sim, isso! De maneira que podemos… podemos lá chegar. Ao caminho. Quando eu sonho. No sonho. Percebes? Eu levo-te. Vais comigo até… ao caminho.

O Gavião deixou-se ficar em silêncio, imóvel e meditativo, no meio da sala sombria.

— Talvez — acabou por dizer. — Se viermos, estaremos aqui ao anoitecer.

Depois voltou-se para Arren que logo abriu a porta, ansioso por sair dali para fora.

A rua escura, fria e úmida, parecia tão clara como um jardim depois do quarto do Lebre. Dirigiram-se para a parte alta da cidade pelo caminho mais curto, uma íngreme escadaria de pedra entre paredes de casas cobertas de hera. Arren aspirava e expelia o ar como um leão marinho.

— Áque! — fez ele. — Vais voltar ali?

— Bem, irei, se não conseguir obter a mesma informação de uma fonte menos arriscada. Não me admirava que nos armasse uma cilada.

— Mas tu não estás defendido contra ladrões e assim?

— Defendido? — fez o Gavião. — Que queres tu dizer? Achas que ando por aí embrulhado em encantamentos como uma velhota com medo do reumatismo? Não tenho tempo para isso. Oculto a minha cara verdadeira para ocultar a nossa demanda e é tudo. Nós podemos tomar conta um do outro. Mas a verdade é que não vamos conseguir manter-nos afastados do perigo nesta jornada.

— Claro que não — disse Arren rigidamente, furioso, ferido no seu orgulho. — Também não era isso que eu pretendia.