Выбрать главу

Quando foi finalmente chamado de novo à jangada do chefe, o Gavião olhou-o por momentos e comentou:

— Pareces aquele Arren que eu vi no Pátio da Fonte, esguio como uma foca dourada. Dás-te bem com a vida daqui, rapaz.

— Assim é, meu Senhor.

— Mas onde é esse aqui? Deixamos lugares para trás de nós. Navegamos para fora dos mapas… Há muito tempo, ouvi falar do Povo das Jangadas, mas tomei-o por mais uma lenda da Estrema Sul, uma fantasia sem substância. E afinal fomos socorridos por essa fantasia, as nossas vidas foram salvas por um mito.

Falava sorrindo, como se também ele tivesse compartilhado dessa vida agradável e sem tempo sob a luz do Verão. Mas o seu rosto permanecia desolado e nos seus olhos havia um negrume que nenhuma luz aliviava. Arren viu esse negrume, essa desolação, e enfrentou-os.

— Eu traí… — começou ele, parou, continuou: — Traí a tua confiança em mim.

— Como assim, Arren?

— Lá… em Obehol. Quando, por uma vez, tiveste necessidade de mim. Estavas ferido e precisavas da minha ajuda. Eu nada fiz. O barco ia à deriva e deixei-o. Sofrias e nada fiz por ti. Vi terra… vi terra e nem sequer tentei mudar o rumo ao barco…

— Está calado, rapaz — ordenou o mago e com tanta firmeza que Arren não pôde deixar de obedecer. E logo acrescentou: — Diz-me o que pensaste nessa altura.

— Nada, meu Senhor… nada! Pensei que não servia de nada fazer fosse o que fosse. Pensei que a tua magia se perdera… não, que nunca existira. Que me tinhas iludido. — O suor brotou do rosto de Arren e teve de se forçar a falar, mas continuou. — Tive medo de ti. Tive medo da morte. Tive tanto medo que não podia olhar para ti, porque podias estar a morrer. Não conseguia pensar em nada, a não ser que havia… que havia uma maneira de eu não morrer, se a conseguisse descobrir. Mas a vida continuava sempre a esgotar-se, como se houvesse uma grande ferida e o sangue corresse dela… tal como tu tinhas. Mas aquilo estava em tudo. E não fiz nada, nada, a não ser tentar esconder-me do horror de morrer.

E parou porque dizer a verdade em voz alta era insuportável. Não fora a vergonha que o fizera parar, mas o medo, o mesmo medo. Sabia agora porque lhe parecia uma outra vida ou um sonho, irreal, aquela vida tranqüila no mar e sob o Sol nas jangadas. Era porque ele sabia, no mais fundo de si, que a realidade estava oca, sem vida nem calor, sem cor nem som, sem sentido. Não havia cumes nem profundezas. Todo esse jogo encantador de forma e luz e cor no mar e nos olhos dos homens não passava disso. Um jogo de ilusões num vácuo superficial.

Tudo passava e apenas ficavam a ausência de forma e o frio. Nada mais.

O Gavião fitara-o e Arren baixara os olhos para evitar os dele. Mas, inesperadamente, houve uma pequena voz de coragem ou troça que falou dentro dele. Era uma voz arrogante e impiedosa e dizia: «Covarde! Covarde! Até isto vais deitar fora?»

E assim, ergueu os olhos por um grande esforço da vontade e encarou o companheiro.

O Gavião estendeu a mão e agarrou a de Arren num aperto firme, de modo que pelo olhar e pela carne estavam em contato. E o mago pronunciou o nome-verdadeiro de Arren, que nunca dissera: «Lebánnen.» E voltando a pronunciá-lo, prosseguiu:

— Lebánnen, isto existe. E tu existes. Não há segurança e não há fim. A palavra tem de ser ouvida em silêncio. E é necessário que haja escuridão para podermos ver as estrelas. A dança é sempre dançada por cima do lugar vazio, por cima do terrível abismo.

Arren cerrou os punhos e inclinou a fronte até a apertar de encontro à mão do mago.

— Traí-te — voltou Arren a dizer. — Trair-te-ei de novo e a mim próprio. Não há força suficiente em mim!

— Há, sim. Há força suficiente em ti. — A voz do mago era suave mas, sob a suavidade, havia aquela mesma dureza que se erguera no mais profundo da vergonha de Arren e o troçara. — O que amas continuarás a amar. O que decidires fazer levarás a cabo. Tu és um portador de esperança, alguém em quem confiar. Mas dezessete anos são fraca armadura contra o desespero… Considera, Arren. Recusar a morte é recusar a vida.

— Mas eu procurei a morte… a tua e a minha! — Arren ergueu a cabeça e fitou o Gavião. — Como Sopli que se deitou a afogar.

— Sopli não procurava a morte. O que pretendia era fugir dela e da vida. Procurava segurança, um fim para o medo… para o medo da morte.

— Mas há… há um caminho. Há um caminho para lá da morte. De volta à vida. E é isso… é isso que eles procuram. O Lebre e Sopli, aqueles que foram feiticeiros. É isso que nós procuramos. Tu… tu melhor que todos deves saber… deves saber desse caminho…

A vigorosa mão do mago continuava sobre a dele.

— Mas não sei — afirmou o Gavião. — Sim, sei o que eles julgam procurar. Mas sei que se trata de uma mentira. Escuta-me, Arren. Tu morrerás. Não viverás para sempre. Nem nenhum homem, nem nenhuma coisa. Nada é imortal. Mas só a nós é dado saber que morreremos. E essa é uma grande dádiva, a dádiva da consciência de si. Porque temos apenas aquilo que sabemos que devemos perder, que estamos dispostos a perder… Essa consciência de si que é o nosso tormento, e o nosso tesouro, e a nossa humanidade, não perdura. Altera-se, desaparece, uma onda no mar. Quererias que o mar parasse e as marés cessassem para salvares uma única onda, para te salvares a ti próprio? Abdicarias do talento das tuas mãos, da paixão do teu coração, da luz do nascer e do pôr do Sol, em troca de segurança para ti… de segurança para sempre? É isso que tentam fazer em Uothort e em Lorbanery e noutros lados ainda. Essa é a mensagem que aqueles que sabem como ouvir ouviram: Se negares a vida podes negar a morte e viver para sempre!… E essa mensagem, Arren, eu não a ouço, porque não quero ouvi-la. Não aceitarei o conselho do desespero. Sou surdo. Sou cego. Tu és o meu guia. Tu, na tua inocência e na tua coragem, na tua insensatez e na tua lealdade, tu és o meu guia. A criança que envio à minha frente para o meio da escuridão. É o teu medo e a tua dor que sigo. Achaste que eu era duro contigo, Arren, mas nunca soubeste quão duro. Uso o teu afeto como um homem usa uma vela, queimando-a, queimando-a totalmente para iluminar os seus passos. E temos de prosseguir. Temos de prosseguir. Temos de percorrer todo o caminho. Temos de chegar a esse lugar onde o mar seca e a alegria se esgota, o lugar para onde te atrai o teu terror mortal.

— E onde fica ele, meu Senhor?

— Não sei.

— Não posso guiar-te até lá. Mas irei contigo.

O olhar do mago pousado sobre ele era sombrio, insondável.

— Mas se eu voltasse a falhar, a trair-te…

— Confio em ti, filho de Morred. E ambos se quedaram em silêncio.

Acima deles, os ídolos esculpidos oscilavam muito ligeiramente contra o azul do céu meridional. Corpos de golfinho, asas fechadas de gaivota, rostos humanos com olhos abertos feitos de conchas.

O Gavião pôs-se de pé, o corpo hirto pois estava ainda longe da cura completa da sua ferida.

— Estou cansado de ficar sentado — comentou. — Vou ficar gordo nesta inatividade.

Pôs-se a caminhar ao longo da jangada e Arren acompanhou-o. Enquanto andavam, conversaram um pouco. Arren contou ao Gavião como passava os dias, disse-lhe quem eram os seus amigos entre o povo das jangadas. Mas a agitação do Gavião era maior que as suas energias, e estas em breve se esgotaram. Parou junto a uma rapariga que estava a fiar nilgu na sua roca atrás da casa das Muito Grandes, pedindo-lhe que fosse procurar o chefe para lhe vir falar, e depois regressou ao abrigo. E ali veio o chefe do povo das jangadas, cumprimentando-o com grande cortesia, a que o mago correspondeu. E sentaram-se os três nos tapetes de pele de foca malhada.