— Tenho pensado — começou o chefe, lentamente e com cortês solenidade —, nas coisas que me contaste. De como os homens pensam em regressar da morte para os seus próprios corpos e, ao fazê-lo, esquecem o culto dos deuses e descuram os seus corpos e enlouquecem. Isto é má coisa e uma grande loucura. E pensei também, que temos nós a ver com isso? Nada temos a ver com outros homens, com as suas ilhas e costumes, os seus fazeres e desfazeres. Nós vivemos no mar e as nossas vidas ao mar pertencem. Não temos a esperança de as salvar e também não procuramos perdê-las. A loucura não chega aqui. Nós não vamos a terra, nem o povo de terra vem junto de nós. Quando eu era novo, falávamos às vezes com homens que vinham em barcos até à Duna Longa, quando lá estávamos para cortar os toros das jangadas e construir os abrigos de Inverno. Muitas vezes vimos veleiros de Ohol e Ueluei (era assim que ele chamava a Obehol e Uélloguy) seguindo as baleias cinzentas no Outono. E muitas vezes seguiram as nossas jangadas, porque nós conhecemos as estradas e locais de encontro das Muito Grandes no mar. Mas isso foi tudo o que eu alguma vez vi do povo da terra e, agora, já não aparecem. Talvez tenham todos enlouquecido e lutado entre si. Dois anos atrás, na Duna Longa, do lado norte voltado para Ueluei, vimos durante três dias o fumo de um grande incêndio. E se assim foi, o que é isso para nós? Nós somos os Filhos do Alto Mar. Seguimos os costumes do mar.
— E no entanto, ao verem o barco de um homem de terra à deriva, vieram até ele — comentou o mago.
— Alguns de nós disseram que não era sensato fazê-lo e teriam deixado o barco ir à deriva até ao fim do mar — retorquiu o chefe, na sua voz aguda e impassível.
— Não foste um deles.
— Não. Eu disse, sejam embora gente da terra, mesmo assim os ajudaremos. Foi o que se fez. Mas nada temos a ver com os vossos empreendimentos. Se há uma maré de loucura entre o povo da terra, é ao povo da terra que cabe dar-lhe remédio. Nós seguimos a estrada das Muito Grandes. Não podemos ajudar-vos na vossa demanda. Enquanto desejarem permanecer entre nós, serão bem-vindos. Já não faltam muitos dias para a Longa Dança. Depois rumamos para norte, seguindo a corrente de leste que, no final do Verão, nos trará novamente de volta aos mares junto da Duna Longa. Se quiserdes ficar conosco e curar-vos dos vossos males, estará bem. Ou se quiserdes levar o vosso barco e seguir o vosso rumo, bem estará igualmente.
O mago agradeceu-lhe e o chefe ergueu-se, magro e aprumado como uma garça, e deixou-os sós.
— Na inocência não há força que prevaleça contra o mal — considerou o mago, algo amargamente. — Mas há força para o bem… Penso que ficaremos com eles ainda algum tempo, até que me cure desta fraqueza.
— Isso é sensato — concordou Arren. A debilidade física do Gavião tinha-o chocado e comovido. E determinara proteger o mago contra a sua própria energia e urgência, insistindo em que esperassem pelo menos até que ele se libertasse da dor de que padecia antes de prosseguirem.
O mago olhou-o, um pouco espantado com o cumprimento. Sem reparar, Arren continuou:
— Esta gente é bondosa. Parecem estar livres daquela doença da alma que tinham na Cidade de Hort e nas outras ilhas. Talvez não haja ilha alguma onde tivéssemos sido ajudados e acolhidos como fomos por este povo perdido.
— És bem capaz de ter razão.
— E como é agradável a vida que levam no Verão…
— Sem dúvida. Se bem que comer peixe frio durante toda uma vida e nunca ver uma pereira em flor ou saborear a água de uma fonte natural, acabaria por ser cansativo!
Arren regressou pois à jangada da Estrela, trabalhou, nadou e repousou ao sol com os outros jovens, conversou com o Gavião no fresco da tarde e dormiu sob as estrelas. E os dias foram passando e foi-se aproximando a celebração da Longa Dança, na véspera do pleno Verão, e as jangadas foram derivando lentamente para sul nas correntes do Alto Mar.
9
ORM EMBAR
Durante toda a noite, a noite mais curta do ano, arderam archotes nas jangadas que estavam reunidas num grande círculo sob um céu coalhado de estrelas, acendendo sobre o mar um anel de fogo. O povo das jangadas dançou, sem usar tambor nem flauta nem outra música que não fosse o ritmo dos pés nus sobre as grandes jangadas balançantes, e as agudas vozes dos seus chantres trilando lamentosamente na vastidão do seu lugar de residência, o mar. Não havia Lua nessa noite e os corpos dos dançarinos viam-se indistintamente à luz das estrelas e dos archotes. De vez em quando, um deles brilhava no ar, como um peixe a saltar fora de água, ao passar de uma para outra jangada. Longos saltos e elevados, com os jovens competindo entre si, tentando dar a volta ao anel de jangadas e dançar em todas elas, voltando à primeira antes de raiar o dia.
Arren dançou com eles, pois a Longa Dança é celebrada em todas as ilhas do Arquipélago, embora possam variar os passos e as canções. Mas, quando a noite já ia avançada e muitos dos dançarinos abandonaram a dança e se sentaram para ver ou dormitar, e as vozes dos cantores enrouqueceram, foi com um grupo dos rapazes que davam os grandes saltos até à jangada do chefe e ali ficou, enquanto eles continuavam.
O Gavião estava sentado, juntamente com o chefe e as suas três mulheres, perto do templo. Entre as baleias esculpidas que formavam a entrada, estava um chantre cuja voz não enfraquecera em toda a noite. Incansável, continuava a cantar, tamborilando os dedos no tombadilho de madeira para marcar o ritmo.
— O que está ele a cantar? — perguntou Arren ao mago, porque não conseguia acompanhar as palavras, todas longamente sustentadas, com trilos e estranhas interrupções nas notas.
— É sobre as baleias cinzentas e o albatroz e a tempestade… Eles não sabem as canções dos heróis e dos reis. Aqui não conhecem o nome de Erreth-Akbe. Antes, cantou acerca de Segoy e como ele criou as terras no meio do mar e é tudo o que recordam da tradição dos homens. Mas o resto é sempre sobre o mar.
Arren pôs-se a escutar e ouviu o cantor imitar o grito silvante do golfinho, tecendo a sua canção à volta dele. Observou o perfil do Gavião contra o fundo de fogo dos archotes, negro e firme como uma rocha, viu o brilho líquido nos olhos das mulheres do chefe que conversavam em tons suaves, sentiu o longo e lento ondular da jangada no mar calmo e, gradualmente, deixou-se deslizar para o sono.
Acordou repentinamente. O chantre silenciara-se. E não só aquele que estava mais perto, mas todos os outros, nas jangadas perto e longe. As agudas vozes tinham-se extinguido pouco a pouco como um trilar longínquo de aves marinhas e tudo era silêncio.
Arren olhou por cima do ombro para leste, esperando ver o nascer do dia. Mas só viu a Lua muito em baixo, acabada de nascer, dourada entre as estrelas do Verão.
Depois, olhando para sul, avistou, muito alto, a amarela Gobárdon e abaixo dela as oito companheiras, desta vez até à última, formando a Runa do Acabar, nítida e ardente, acima do mar. E, voltando-se para o Gavião, viu o rosto escuro encarando essas mesmas estrelas.
— Porque paraste? — estava o chefe a perguntar ao cantor. — Ainda não nasceu o Sol, nem sequer é madrugada.
O homem gaguejou e respondeu:
— Não sei.
— Continua a cantar! A Longa Dança não chegou ao fim.
— Não sei as palavras — lamentou-se o chantre e a sua voz alteou-se como se estivesse aterrorizado. — Não consigo cantar. Esqueci a canção.