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— Olha — exclamou ele. — Eu também sou feiticeiro.

— Esse dom, não o tens — replicou o companheiro.

— E de que grande ajuda serei para ti sem ele — lamentou Arren, olhando o rebrilhar inquieto das ondas —, quando encontrarmos o nosso inimigo.

Porque ele tivera a esperança — desde o princípio a tivera — de que a razão que levara o Arquimago a escolhê-lo a ele e só a ele para aquela viagem fora ter algum poder inato, vindo do seu antepassado Morred, que na mais desesperada necessidade, na hora mais negra, se revelaria. E assim se ia salvar e ao seu senhor e a todo o mundo, do inimigo. Mas ultimamente voltara a encarar uma vez mais essa esperança e fora como se a visse a uma grande distância. Era como lembrar-se de quando era um rapazinho e tivera o ardente desejo de experimentar pôr a coroa de seu pai, e de como chorara quando o tinham proibido. Esta esperança de agora era tão despropositada, tão infantil, como esse desejo de outrora. Não havia magia nele. Nunca haveria.

O momento viria talvez, realmente, em que ele poderia, em que deveria, usar a coroa de seu pai e governar como Príncipe de Enlad. Mas isso parecia bem pequena coisa agora, e o seu lar um pequeno palácio, e tão remoto. Não havia nisto deslealdade. O que sucedera é que a sua lealdade se tornara maior, já que se fixara num modelo maior e numa esperança mais vasta. Aprendera também a sua própria fraqueza e, por ela, aprendera a medir a sua força. E soube que era forte. Mas de que servia essa força se não tinha dádiva ainda, ainda nada a oferecer ao seu senhor para além do seu serviço e do seu constante afeto? Para onde se encaminhavam, seria isso bastante?

O Gavião limitou-se a lembrar-lhe:

— Para vermos a luz de uma vela, temos de a levar para um lugar escuro.

E Arren tentou encontrar reconforto nestas palavras, mas não as achou muito reconfortantes.

Na manhã seguinte, quando acordaram, o ar estava cinzento, tal como cinzenta estava a água. Acima do mastro o céu aclarava para um azul opalino, porque o nevoeiro era baixo. Para homens do Norte, como Arren de Enlad e Gavião de Gont, o nevoeiro era tão bem-vindo como um velho amigo. Suavemente, envolveu o barco de modo que não conseguiam ver muito longe e, para eles, era como estarem numa sala familiar depois de muitas semanas de espaço brilhante e estéril, de vento soprando. Regressavam ao clima que lhes era familiar e estariam agora, talvez, à latitude de Roke.

Cerca de setecentas milhas a leste dessas águas envoltas em nevoeiro por onde velejava o Vê-longe, a luz do Sol brilhava clara sobre as folhas das árvores do Bosque Imanente, sobre a coroa verde do Cabeço de Roke e nos altos telhados de ardósia da Casa Grande.

Numa divisão da torre sul, a sala de trabalho de um mago, atravancada de retortas e alambiques e frascos bojudos de gargalo curvo, fornalhas com espessas paredes e pequenas lamparinas de aquecer, tenazes, foles, estantes, alicates, tubos, um milhar de caixas e frasquinhos e jarros com tampas marcadas com runas Hardic ou mais secretas ainda, e todos esses acessórios da alquimia, de soprar o vidro, de refinar metais e das artes de curar, nessa sala e entre mesas e bancadas enormemente pejadas, estavam o Mestre da Mudança e o Mestre da Invocação de Roke.

O Mestre da Mudança, de cabelo grisalho, segurava nas mãos uma grande pedra, semelhante a um diamante por lapidar. Era um cristal de rocha, vagamente colorido de ametista e rosa bem no seu interior, mas transparente como água. No entanto, quando o olhar deparava com essa nitidez, encontrava a ausência dela e nem reflexo nem imagem do que era real ao seu redor, mas apenas planos e profundezas cada vez mais longínquos, cada vez mais fundos, até ser levado para dentro de um sonho e não encontrar caminho de saída. Aquela era a Pedra de Xélieth. Por muito tempo estivera na posse dos príncipes de Way, por vezes como uma mera bugiganga no seu tesouro, outras como um amuleto para adormecer, outras ainda para algum fim mais funesto, dado que aqueles que olhavam durante muito tempo e sem compreensão para a infinda profundidade daquele cristal podiam enlouquecer. O Arquimago Guencher de Way, na sua vinda para Roke, trouxera consigo a Pedra de Xélieth porque, nas mãos de um mago, ela detinha a verdade.

Porém, a verdade varia com o homem.

E assim, o Mestre da Mudança, segurando a pedra e olhando através da sua superfície desigual, cheia de bojos, para as infindas profundezas, com a sua cor pálida, o seu cintilar, falou em voz alta para descrever o que via.

— Vejo a terra, como se estivesse de pé sobre o Monte Onn, no centro do mundo, e visse tudo a meus pés, até à mais longínqua ilha da mais longínqua Estrema e ainda para além. E tudo é nítido. Vejo navios nas rotas de Ilien e os fogos dos lares em Torheven e os telhados desta torre em que estamos. Mas, para além de Roke, nada. Nem terras a sul, nem terras a oeste. Não consigo ver Uothort onde deveria estar, nem ilha alguma da Estrema Oeste, mesmo tão próxima como Pendor. E Osskil e Ebosskil onde estão? Há uma névoa sobre Enlad, uma mancha cinzenta, como uma teia de aranha. De cada vez que olho, mais ilhas desapareceram e o mar onde estavam vejo-o vazio e uniforme, tal como era antes da Criação… — e a voz faltou-lhe na última palavra como se lhe chegasse aos lábios com dificuldade. Voltou a colocar a pedra no seu suporte de marfim e afastou-se. No seu rosto bondoso havia uma grande fadiga.

— Diz-me o que vês — pediu ele ao Mestre da Invocação e este, erguendo o cristal nas mãos, foi-o rodando lentamente como se procurasse uma entrada para a visão na grosseira superfície vidrada.

Por longo tempo segurou o cristal, olhando-o intensamente. Mas por fim também ele o pousou, pronunciando-se:

— Mestre da Mudança, pouco vejo. Fragmentos, vislumbres, mas nada que forme um todo.

O Mestre dos cabelos grisalhos cerrou os punhos.

— E isso, já por si, não é estranho?

— Como assim?

— É muitas vezes que os teus olhos ficam cegos? — bradou o Mestre da Mudança, como enraivecido. — Pois não vês que há… — e a voz falhou-lhe várias vezes antes de conseguir voltar a falar. — Não vês que há uma mão sobre os teus olhos, tal como há uma mão sobre a minha boca?

— Tu estás extenuado, meu senhor — limitou-se o outro a comentar.

— Invoca a Presença da Pedra.

E, embora ele se controlasse, a voz do Mestre soava abafada.

— Porquê?

— Porquê? Porque eu te peço.

— Ora vamos, Mestre da Mudança, estarás a desafiar-me? Como rapazes em frente do covil de um urso? Seremos nós crianças?

— Sim! Perante o que eu vejo na Pedra de Xélieth, sou uma criança… uma criança assustada. Invoca a Presença da Pedra. Terei de te implorar, meu Senhor?

— Não — respondeu o Mestre da elevada estatura. Mas franziu o cenho e virou costas ao homem mais velho. Depois, abrindo muito os braços no gesto grandioso que inicia os encantamentos da sua arte, ergueu a cabeça e pronunciou as sílabas da invocação. À sua voz, uma luz cresceu no interior da Pedra de Xélieth. A sala escureceu ao seu redor, as sombras adensaram-se. E quando as sombras se tornaram bem espessas, com a pedra a brilhar intensamente, ele trouxe ambas as mãos até ao cristal, ergueu-o até à altura do rosto e fitou o seu brilho.

Permaneceu em silêncio durante algum tempo e, finalmente, falou.

— Vejo as Fontes de Xélieth — pronunciou suavemente. — Os pequenos charcos e as bacias e as quedas de água, as cavernas gotejantes com cortinas de água prateadas e onde crescem fetos em bancos de musgo, o ondulado das areias, o saltar e correr das águas, o brotar de nascentes profundas da terra, o mistério e a doçura da fonte, da nascente…

De novo silenciou e assim se manteve por algum tempo, o rosto pálido como prata sob a luz da pedra. E logo soltou um grande brado sem palavras e, deixando cair o cristal com estrondo, caiu ele próprio de joelhos, o rosto escondido nas mãos.