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— E onde deveremos ir ao teu encontro e quando?

— No meu domínio e quando me agradar.

— Muito bem.

E, erguendo o seu bordão, Gued moveu-o ligeiramente na direção do homem alto… e este desapareceu, como quando se sopra a chama de uma vela.

Arren ficou de olhos arregalados e o dragão ergueu-se a toda a altura sobre as quatro pernas arqueadas, com as escamas a soar como correntes de ferro sobre pedra e os lábios a arreganharem-se, descobrindo os dentes. Porém, o mago limitou-se a voltar a apoiar-se no bordão.

— Era apenas um envio. Uma representação ou imagem do homem. Pode ouvir e falar, mas não há poder nela, salvo o que o nosso temor lhe possa conferir. E nem sequer é verdadeira na aparência, a não ser que aquele que a envia assim queira. Não vimos o aspecto que ele tem agora, penso eu.

— E julgas que esteja perto?

— Os envios não passam por cima de água. Ele está em Selidor. Mas Selidor é uma grande ilha, mais larga que Roke ou Gont e quase tão comprida como Enlad. Poderemos ter de o procurar durante muito tempo.

E então o dragão falou. Gued escutou-o e depois voltou-se para Arren.

— Assim falou o Senhor de Selidor: «Regressei à minha própria terra e não a deixarei. Encontrarei o Anulador e trá-lo-ei perante ti, para que juntos o possamos extinguir.» E não te disse eu já que aquilo que os dragões caçam, encontram?

Ditas estas palavras, Gued pôs um joelho em terra perante a grande criatura, tal como um vassalo ajoelha perante o seu suserano, e agradeceu-lhe na sua própria língua. O sopro do dragão, tão próximo, era quente sobre a sua cabeça inclinada.

Orm Embar arrastou a massa escamosa do seu corpo uma vez mais pela duna acima, bateu as asas e ergueu vôo.

Gued sacudiu a areia das vestes e comentou para Arren:

— Ora aí me viste tu ajoelhar. E talvez me vejas ajoelhar uma outra vez, antes do fim.

Arren não perguntou ao companheiro o que pretendia dizer com aquilo. No longo tempo passado na sua companhia, aprendera que havia sempre um motivo para o mago manter a reserva. No entanto, não lhe deixou de parecer que havia um mau presságio naquelas palavras.

Atravessaram a duna de volta à praia, para verificarem se o barco estava bem acima de onde a maré ou uma tempestade o podiam alcançar e também para dele retirarem mantos para a noite e a comida que ainda lhes sobrara. Gued demorou-se um minuto junto à delgada proa que o levara sobre estranhos mares tantas vezes, tão longe. Pousou nela a mão, mas não teceu qualquer encantamento nem pronunciou palavra. Depois, internaram-se de novo na ilha, para norte, em direção às colinas.

Caminharam todo o dia e, à noite, acamparam junto a um rio que corria serpenteante em direção aos lagos e charcos repletos de juncos. Embora se estivesse no pino do Verão, o vento soprava glacial, vindo do ocidente, das lonjuras infindas e sem terras do mar aberto. Uma neblina velava o céu e não se viam cintilar as estrelas sobre aquelas colinas onde nunca brilhara fogo de lar ou luz de janela.

Noite escura, Arren acordou. A pequena fogueira que tinham acendido apagara-se, mas a Lua, declinando para oeste, iluminava a terra com uma luz nublada e cinzenta. No vale cavado pelo rio e na encosta da colina via-se uma grande multidão de gente, todos imóveis, todos silenciosos, os rostos voltados para Gued e para Arren. A luz da Lua não se refletia nos seus olhos.

Sem se atrever a falar, Arren colocou a mão sobre o braço de Gued. O mago acordou e ergueu o tronco, perguntando:

— O que há?

Depois seguiu o olhar fixo de Arren e também ele viu aquela gente silenciosa.

Todos, tanto mulheres como homens, envergavam roupas escuras. Os seus rostos não eram claramente discerníveis àquela fraca luz, mas pareceu a Arren que, entre aqueles que se encontravam mais perto deles, no vale, do lado de lá do pequeno rio, havia alguns que conhecia, embora não conseguisse dizer os seus nomes.

Gued ergueu-se, deixando tombar o manto. O seu rosto, o cabelo e a camisa tinham um brilho pálido de prata, como se a luz da Lua se juntasse ao redor dele. Num gesto largo, estendeu um braço e exclamou:

— Ó vós que haveis vivido, ide livres! Eu quebro o elo que vos prende: Anvassa mane harw pennodathe!

Durante um momento ainda permaneceu imóvel aquela multidão de gente silenciosa. Depois, lentamente, viraram costas, parecendo encaminhar-se para o escuro cinzento, e desapareceram.

Gued sentou-se e inspirou profundamente. Olhando para Arren, colocou a mão sobre o ombro do rapaz e o seu toque era quente e firme.

— Não há nada que temer, Arren — sossegou-o ele, suavemente e um pouco trocista. — Eram apenas os mortos.

Arren fez que sim com a cabeça, embora estivesse a bater os dentes e se sentisse gelado até aos ossos.

— Como é que… — começou ele, mas o maxilar e os lábios não lhe obedeciam ainda. Porém Gued compreendeu a pergunta não formulada.

— Vieram à invocação dele. É isto o que ele promete, vida eterna. Ao seu chamado, podem regressar. A sua ordem têm de caminhar sobre as colinas da vida, embora não consigam fazer mover sequer uma folha de erva.

— E ele? Está então também morto?

Gued sacudiu a cabeça, refletindo.

— Os mortos não podem invocar os mortos de volta ao mundo. Não, ele tem os poderes de um vivo. E mais ainda… Mas se alguém pensou que o podia seguir, foi enganado. Porque ele mantém o seu poder para si próprio. Ele representa o Rei dos Mortos. E não só dos mortos… Mas estes eram apenas sombras.

— Não sei porque as temo — murmurou Arren, envergonhadamente.

— Teme-os porque temes a morte. E com razão. Porque a morte é terrível e deve ser temida — contrapôs o mago.

Deitou nova lenha na fogueira e soprou as brasas ocultas sob a cinza. Um pequeno clarão luminoso desabrochou nos ramos de arbustos, uma grata luz para Arren.

— E também a vida é terrível — prosseguiu Gued — e deve ser temida e louvada.

Recostaram-se ambos, envolvendo-se nos mantos. Durante algum tempo permaneceram em silêncio. E finalmente Gued falou gravemente.

— Lebánnen, não sei quanto tempo ainda nos irá ele importunar aqui com envios e com sombras. Mas sabes onde teremos de ir, no fim.

— Para a terra da escuridão.

— Sim, para o meio deles.

— Agora já os vi. Irei contigo.

— É a fé em mim que te move? Podes confiar no meu afeto, mas não confies na minha força. Porque julgo ter encontrado o meu igual.

— Irei contigo.

— Mas se for derrotado, se o meu poder ou a minha vida se esgotarem, não poderei guiar-te de volta. E não podes regressar sozinho.

— Regressarei contigo.

Perante estas palavras, Gued exclamou:

— Entras na idade adulta pela porta da morte.

E depois pronunciou aquela palavra ou nome por que o dragão por duas vezes se referira a Arren, dizendo-a muito baixo.

— Agni… Agni Lebánnen.

Depois não voltaram a falar e o sono acabou por os tomar de novo e assim ficaram, deitados junto à sua pequena e em breve extinta fogueira.

Na manhã seguinte prosseguiram caminho, dirigindo-se para noroeste. Esta fora decisão de Arren e não de Gued que lhe dissera:

— Escolhe o nosso caminho, rapaz. Para mim, todos os caminhos são iguais.

Não se apressaram, dado que não havia uma meta para eles, esperando algum sinal de Orm Embar. Seguiram a cadeia de colinas mais baixa e mais exterior, quase constantemente à vista do mar. A erva era seca e curta, para sempre agitada pelo vento. As colinas erguiam-se cor de ouro e desoladas à sua direita e, à esquerda, estendiam-se os charcos de água salgada e o mar ocidental. Certa vez, avistaram cisnes voando, muito para longe a sul. Mas, durante todo aquele dia, não avistaram qualquer outro ser vivo. E ao longo desse dia foi crescendo em Arren uma espécie de cansaço do temor, daquele esperar pelo pior. A impaciência e uma ira baça o foram tomando. E, após horas de silêncio, exclamou: