— Esta terra está tão morta como a própria terra da morte!
— Não digas tal coisa — cortou cerce o mago. Deu alguns passos e depois prosseguiu, a voz mudada: — Olha para esta terra. Olha em teu redor. Este é o teu reino, o reino da vida. Esta é a tua imortalidade. Olha para as colinas, as colinas mortais. Não duram para sempre. As colinas com a erva viva sobre elas, com os cursos de água correndo… Em todo o mundo, em todos os mundos, em toda a imensidade do tempo, não há nenhum outro igual a cada um destes rios, erguendo-se, frios, do interior da terra onde olhar algum os vê, correndo através da luz do Sol e do escuro da noite até ao mar. Profundas são as fontes da vida, mais profundas que a vida, que a morte…
Silenciou mas, nos seus olhos, ao olhar Arren e as colinas iluminadas pelo Sol, havia um grande amor, doloroso e sem palavras. E Arren viu isso e, ao vê-lo, viu-o a ele, viu-o pela primeira vez na sua totalidade, tal como ele era.
— Não consigo exprimir em palavras o que quero dizer — desconsolou-se Gued.
Mas Arren recordou aquela primeira hora no Pátio da Fonte, o homem que se ajoelhara junto à água correndo da fonte e a alegria, tão límpida com essa água recordada, irrompeu dentro de si. E, olhando o companheiro, disse:
— Dei o meu afeto ao que é digno de afeto. Não é esse o reino e a imperecível nascente?
— Assim é, rapaz — aquiesceu Gued, suave e dolorosamente. Continuaram a caminhar, juntos e em silêncio. Mas Arren via agora o mundo pelos olhos do companheiro e viu o esplendor vivo que se revelava ao redor deles, na terra desolada e silente, como que pelo poder de um encantamento que se sobrepusesse a todas as outras, em cada folha da erva curvada pelo vento, em cada sombra, em cada pedra. Também assim alguém, ao encontrar-se pela última vez num lugar que lhe é querido antes de uma viagem sem regresso, o vê inteiramente na sua totalidade, real e adorável, como nunca antes o vira e como nunca o voltará a ver.
Com o entardecer, linhas compactas de nuvens ergueram-se de ocidente, trazidas do mar por fortes ventos, e como que se incendiaram perante o Sol, tingindo-o de vermelho enquanto se punha. Andando a recolher lenha para a fogueira num vale plano, àquela luz vermelha, Arren ergueu os olhos e viu um homem de pé, a escassos dez pés de distância. O rosto do homem tinha um aspecto vago e estranho, mas Arren reconheceu-o, o Tintureiro de Lorbanery, Sopli, que estava morto.
Atrás dele perfilavam-se outros, todos com rostos tristes e parados. Pareciam falar, mas Arren não conseguia ouvir as palavras, apenas uma espécie de sussurro que o vento de oeste arrastava consigo. Alguns aproximaram-se lentamente dele.
Arren pôs-se de pé, olhou-os e depois, de novo, para Sopli. Seguidamente, voltou-lhes as costas, inclinou-se para o chão e apanhou mais um pedaço de madeira, embora as suas mãos tremessem. Juntou esse pedaço ao feixe, e depois outro, e ainda outro. Finalmente, endireitou-se e olhou para trás de si. Não havia ninguém no vale, só a luz vermelha incendiando a erva. Voltou para junto de Gued e colocou a lenha no chão, mas nada disse acerca do que vira.
Durante toda a noite, na nebulosa escuridão daquela terra vazia de seres vivos, quando acordava de um sono irregular, ouvia ao seu redor o sussurrar das almas dos mortos. Fortalecia a sua vontade, não lhes dava ouvidos e voltava a dormir.
Tanto ele como Gued acordaram já tarde, quando o Sol, à largura de uma mão acima das colinas, se libertou finalmente do nevoeiro e animou a fria terra. Enquanto comiam a sua frugal refeição da manhã, o dragão voltou, circulando no ar acima deles. Jorrava-lhe fogo das fauces, fumo e fagulhas das narinas vermelhas, e os dentes brilhavam como lâminas de marfim naquele clarão acobreado. Mas nada disse, embora Gued o acolhesse, gritando na sua língua:
— Conseguiste encontrá-lo, Orm Embar?
O dragão lançou a cabeça para trás e arqueou estranhamente o corpo, varrendo o ar com as suas garras afiadas como navalhas. Depois afastou-se, voando rápido para oeste, e deitando-lhes ainda um olhar ao partir.
Gued agarrou no bordão e vibrou violenta pancada no solo.
— Ele não consegue falar — lamentou. — Não consegue falar! As palavras da Criação foram-lhe retiradas e ei-lo qual uma víbora, um verme sem voz, a sua sabedoria calada. E, no entanto, pode guiar-nos. E nós podemos segui-lo!
Lançando as mochilas, agora bem leves, para as costas, encaminharam os passos para oeste, por cima das colinas, na direção tomada por Orm Embar.
Andaram oito milhas ou mais, sem abrandarem o passo inicial, ligeiro e seguro. Tinham agora o mar a ambos os lados e caminhavam por uma crista longa, a descer, que ia terminar, por entre juncos secos e serepenteantes leitos de reentrâncias, numa praia, a encurvar-se para fora, de uma areia da cor do marfim. E aquele era o cabo mais a ocidente, o fim da terra.
Nessa praia agachava-se Orm Embar, a cabeça baixa como a de um gato assanhado e a respiração a sair-lhe em sopros breves de fogo. Um pouco à frente, entre o dragão e a longa e baixa rebentação do mar, erguia-se algo como uma cabana ou abrigo, branca como se tivesse sido construída com madeira dada à costa e descorada pelo tempo. Mas não havia madeira vinda à deriva naquela costa que não tinha pela frente qualquer outra terra. Ao aproximarem-se, Arren viu que as decrépitas paredes eram feitas de grandes ossos. Ossos de baleia, pensou a princípio. Mas logo viu os triângulos brancos com gumes como facas e compreendeu. Eram os ossos de um dragão.
Aproximaram-se. A luz do Sol que se espelhava no mar brilhava pelos interstícios dos ossos. O lintel da entrada era um fêmur maior que a estatura de um homem. Sobre ele via-se uma caveira humana, fitando com as órbitas vazias as colinas de Selidor.
Fizeram alto e, enquanto olhavam a caveira, um homem saiu da entrada, por baixo dela. Envergava uma armadura de bronze dourado, de um estilo antigo, fendida em vários lados como por golpes de machado, e a bainha da sua espada, enfeitada com pedras preciosas, estava vazia. O seu rosto era severo, com sobrancelhas negras e arqueadas, e um nariz afilado. Os olhos eram escuros, penetrantes e cheios de pesar. Havia feridas nos seus braços e garganta e flanco. Não sangravam já, mas eram feridas mortais. Permaneceu ereto, imóvel e silencioso, e olhou para eles.
Gued avançou um passo na sua direção. Eram algo semelhantes, assim, frente a frente.
— Tu és Erreth-Akbe — pronunciou Gued. O outro fitou-o com firmeza e acenou uma vez a cabeça, mas sem falar.
— Até tu, até tu tens de obedecer às suas ordens. — A ira ressoava na voz de Gued. — Ó meu Senhor, é o melhor e o mais corajoso de todos nós, repousa na tua honra e na tua morte!
E, erguendo ambas as mãos, Gued fê-las descer num largo gesto, pronunciando uma vez mais as palavras que dirigira à multidão dos mortos. Por um momento, as suas mãos deixaram no ar um rasto largo e brilhante. Quando se desvaneceu, o homem da armadura desaparecera e só o Sol brilhava ofuscante na areia onde ele estivera.
Gued desferiu um golpe com o seu bordão na casa de ossos e logo esta caiu e desapareceu também. Dela nada ficou, além de uma grande costela a emergir da areia.
Depois Gued dirigiu-se a Orm Embar.
— É aqui, Orm Embar? É este o lugar?
O dragão abriu a boca e lançou um forte e arquejante silvo.
— Aqui, na praia mais longínqua do mundo. E bom que assim seja!
Depois, empunhando o seu negro bordão de teixo na mão esquerda, Gued abriu os braços no gesto da invocação e ergueu a voz. E, embora falasse na linguagem da Criação, mesmo assim Arren a entendeu finalmente, tal como a entendem todos que ouvirem essa invocação, pois o seu poder estende-se sobre tudo.