A roda do oleiro estava parada, o tear vazio, o forno frio. Nenhuma voz cantava.
As ruas escuras entre as escuras casas continuavam sempre e sempre, e eles passavam por elas. O único som era o dos seus pés. Estava frio. Arren não notara esse frio a princípio, mas ele introduziu-se no seu espírito que, ali, era também a sua carne. Sentia-se muito cansado. Deviam ter percorrido um longo caminho. «Para quê continuar?» pensou e os seus passos fizeram-se um pouco mais lentos.
Gued estacou subitamente, voltando-se para encarar um homem que se encontrava no cruzamento de duas ruas. Era um homem alto e esguio, com um rosto que Arren teve a sensação de já ter visto, embora não conseguisse lembrar-se onde. Gued falou-lhe e nenhuma outra voz quebrara até aí o silêncio, desde que haviam passado o muro de pedras.
— Ó Thórione, meu amigo, como é possível estares aqui? E estendeu as mãos para o Mestre da Invocação de Roke. Em Thórione não houve um gesto a corresponder. Manteve-se parado, como parado estava o seu rosto. Mas a luz prateada do bordão de Gued brilhou profundamente sobre os olhos ensombrados produzindo neles uma breve luz ou encontrando-a. Gued tomou nas suas a mão que não se lhe oferecia e insistiu:
— Que fazes tu aqui, Thórione? Tu ainda não és deste reino. Regressa!
— Eu segui aquele que não morre. Perdi o meu caminho. A voz do Invocador era suave e sem expressão, como a de alguém que fala durante o sono.
— Para cima, em direção ao muro — indicou Gued, apontando o caminho por onde ele e Arren tinham vindo, a longa e escura rua a descer. A estas palavras, houve como um tremor no rosto de Thórione, qual se alguma esperança tivesse penetrado nele como a lâmina de uma espada, intolerável.
— Eu não posso encontrar o caminho — pronunciou. — Meu Senhor, não posso encontrar o caminho.
Mas Gued disse:
— Talvez ainda o faças.
Depois abraçou-o e continuou a andar. Atrás dele, Thórione permaneceu imóvel na encruzilhada.
Enquanto prosseguiam, pareceu a Arren que, na realidade, não havia para a frente nem para trás, nem leste nem oeste, nem caminho algum por onde seguir. Haveria um caminho de saída? Recordou como tinham vindo a descer a encosta do monte, sempre para baixo, fosse qual fosse a direção que tomavam. E também na cidade obscura todas as ruas eram a descer, de modo que para voltarem ao muro das pedras precisavam apenas de subir e, no cimo do monte, encontrá-lo-iam. Mas não se desviaram. Lado a lado, continuaram o seu percurso. E estaria ele a seguir Gued? Ou a guiá-lo?
Saíram da cidade. Os campos dos inúmeros mortos estavam vazios. Nem árvore, nem espinho, nem folha de erva crescia na terra pedregosa sob as estrelas imutáveis.
Não havia horizonte, pois os olhos não podiam alcançar tão longe naquela treva. Mas, em frente deles, as pequenas e imóveis estrelas estavam ausentes do céu por um longo espaço acima do solo, e esse espaço sem estrelas era denteado e com declives, como uma cadeia de montanhas. A medida que avançavam, as formas tornaram-se mais distintas. Altos picos, que nem vento nem chuva desgastavam. Neles não havia neve para brilhar à luz das estrelas. Eram negros. A sua vista, o coração de Arren encheu-se de desolação. Desviou deles os olhos. Mas sabia o que eram, reconhecera-os e os seus olhos eram constantemente atraídos para eles. De cada vez que olhava para aqueles picos, sentia um peso frio no peito e quase lhe falecia o ânimo. Mas mesmo assim caminhava, sempre para baixo, pois a terra ia em declive, em direção ao sopé das montanhas. Por fim, perguntou:
— Meu Senhor, o que são… — e apontou as montanhas, pois não conseguia continuar a falar, tão seca tinha a garganta.
— Confinam com o mundo da luz — respondeu Gued —, tal como o muro das pedras. Não têm nome algum a não ser Dor. Há uma estrada que as atravessa. Está proibida aos mortos. Não é muito longa. Mas é uma estrada muito dura.
— Tenho sede — queixou-se Arren. E o companheiro respondeu-lhe:
— Aqui, bebem poeira. Continuaram.
Pareceu a Arren que o passo do companheiro abrandara algum tanto e que, por vezes, hesitava. Ele próprio não sentia qualquer hesitação, embora o cansaço não tivesse cessado de crescer dentro dele. Tinham de continuar a descer. Tinham de continuar. E continuaram.
Por vezes passavam através de outras cidades dos mortos, onde os telhados escuros aprontavam ângulos às estrelas, que permaneciam para sempre no mesmo lugar acima deles. Depois das cidades eram de novo as terras ermas, onde nada crescia. E quando saíam de uma cidade, logo esta se perdia na escuridão. Nada se conseguia ver, para diante ou para trás, salvo as montanhas cada vez mais próximas, agigantando-se perante eles. Para a sua direita, a encosta informe continuava a descer tal como, há quanto tempo já?, quando tinham atravessado o muro de pedras.
— O que fica para aquele lado? — murmurou Arren para Gued, porque ansiava pelo som da fala, mas o mago sacudiu a cabeça e respondeu apenas:
— Não sei. Pode ser um caminho sem fim.
Na direção em que iam, a encosta parecia tornar-se cada vez menos inclinada. O solo sob os seus pés rangia asperamente como pó de lava. E sempre andando, Arren nunca pensava agora no regresso nem no modo como poderiam regressar. Nem mesmo pensava em parar, muito embora estivesse cansadíssimo. A certa altura, tentou aliviar a escuridão, o cansaço e o horror entorpecedores que iam dentro dele, recordando a sua casa. Mas não foi capaz de se lembrar do aspecto que tinha a luz do Sol nem do rosto de sua mãe. Nada havia a fazer senão continuar em frente. E continuou.
Depois sentiu o solo plano debaixo dos seus pés e, a seu lado, Gued hesitou. E então também ele parou. A longa descida terminara. Não havia por onde prosseguir, não era preciso continuar.
Estavam no vale diretamente sob as Montanhas de Dor. Tinham pedras debaixo dos pés e rochedos ao seu redor, ásperos ao tato como escória. Era como se aquele estreito vale pudesse ter sido o leito, agora seco, de uma corrente de água que em tempos passara ali, ou o curso de um rio de fogo, de há muito arrefecido, dos vulcões que tinham erguido os negros e impiedosos cumes.
Ficou-se imóvel, naquele estreito vale na escuridão, e Gued imóvel se quedou, a seu lado. Estavam ali, de pé, como os mortos, sem objetivo, olhando o nada, silenciosos. Arren pensou, com algum temor mas não muito: «Chegamos longe demais.»
E não parecia ter grande importância.
Dando voz ao seu pensamento, Gued disse:
— Chegamos longe demais para voltar atrás.
A sua voz era suave, mas a vibração nela não ficava totalmente abafada pelo grande e sinistro vazio que os envolvia, e a esse som Arren cobrou algum ânimo. Pois não tinham eles vindo até ali para encontrar aquele que procuravam?
No seio da escuridão, uma voz pronunciou:
— Viestes demasiado longe.
Mas Arren respondeu-lhe, dizendo:
— Só o demasiado longe é suficientemente longe.
— Chegastes ao Rio Seco — continuou a voz. — Não podeis regressar ao muro de pedras. Não podeis regressar à vida.
— Por esse caminho, não — atalhou Gued, falando para dentro do negrume. Arren mal conseguia distingui-lo, embora estivessem lado a lado, porque as montanhas, junto de cujo sopé se encontravam, ocultavam metade da luz das estrelas e parecia que a corrente do Rio Seco era formada pela própria escuridão. — Mas podíamos aprender o teu.
Não houve resposta.
— Aqui nos encontramos como iguais, Cob. Podes estar cego, mas nós estamos no escuro.
Uma vez mais, não houve resposta.
— Aqui, não podemos ferir-te. Não podemos matar-te. Que poderás temer?
— Eu nada temo — respondeu a voz no escuro. Depois, lentamente, luzindo um pouco como se com a mesma luz que por vezes surgia no bordão de Gued, o homem apareceu, um pouco para jusante de onde Gued e Arren se encontravam, entre as grandes e imprecisas massas dos penedos. Era alto, de ombros largos e longos braços, tal como aquela figura que primeiro lhes aparecera na duna e na praia de Selidor, mas mais velho. O cabelo era branco e espessamente emaranhado acima da testa alta. E assim surgiu em espírito, no reino da morte, sem vestígios do fogo do dragão, sem feridas, mas não incólume. As órbitas dos seus olhos estavam vazias.