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Com um sorriso e um rodopio de saias escarlates, desapareceu. Só o seu odor permaneceu depois de ela partir. Isso e o archote. Davos abaixou-se até o chão da cela e abraçou os joelhos. A luz inconstante do archote varria-o. Depois que os passos de Melisandre deixaram de ser ouvidos, o único som que ficou foi o arranhar das ratazanas. Gelo e fogo, pensou. Branco e preto. Trevas e luz. Davos não podia negar o poder do deus dela. Tinha visto a sombra sair do ventre de Melisandre, e a sacerdotisa sabia coisas que não tinha como saber. Ela viu as minhas intenções nas chamas. Era bom saber que Salla não o vendera, mas a ideia de a mulher vermelha espiar seus segredos com suas fogueiras inquietava-o mais do que conseguiria exprimir. E o que ela quis dizer quando falou que eu servi seu deus e voltarei a servi-lo? Também não tinha gostado disso.

Ergueu os olhos para fitar o archote. Olhou-o durante muito tempo, sem piscar, observando as chamas mudando e tremeluzindo. Tentou ver para além delas, espreitar através da cortina de fogo e vislumbrar o que quer que vivesse lá atrás... mas nada havia, apenas fogo, e após algum tempo seus olhos começaram a lacrimejar.

Ofuscado e cansado, Davos enrolou-se na palha e entregou-se ao sono.

Três dias mais tarde – bem, o Mingau tinha vindo três vezes e o Lampreia, duas – Davos ouviu vozes à porta de sua cela. Sentou-se de imediato, com as costas apoiadas na parede de pedra, escutando os sons de uma luta. Aquilo era novo, uma mudança em seu mundo imutável. O ruído vinha do lado esquerdo, onde os degraus levavam à luz do dia. Conseguia ouvir uma voz de homem, suplicando e gritando.

– ... loucura! – o homem dizia quando surgiu à vista de Davos, arrastado entre dois guardas com corações flamejantes no peito. Mingau vinha à frente deles, fazendo tilintar um anel cheio de chaves, e Sor Axell Florent caminhava atrás. – Axell – disse o prisioneiro em tom de desespero –, pelo apreço que tem por mim, solte-me! Não pode fazer isso, eu não sou nenhum traidor. – Era um homem de certa idade, alto e esguio, com cabelos prateados, barba pontiaguda e rosto longo e elegante retorcido de medo. – Onde está Selyse, onde está a rainha? Exijo vê-la. Que os Outros carreguem todos vocês! Soltem-me!

Os guardas não prestaram atenção ao alarido que o homem fazia.

– Aqui? – perguntou o Mingau em frente à cela. Davos ficou em pé. Por um instante pensou em tentar precipitar-se sobre eles quando a porta fosse aberta, mas isso era uma loucura. Eles eram muitos, os guardas tinham espadas, e Mingau era forte como um touro.

Sor Axell assentiu bruscamente para o carcereiro.

– Que os traidores gozem da companhia um do outro.

Eu não sou traidor coisa nenhuma! – guinchou o prisioneiro enquanto Mingau destrancava a porta. Embora estivesse vestido de forma simples, com um gibão de lã cinza e calções pretos, sua maneira de falar identificava-o como nobre. Seu nascimento não o beneficiará aqui, pensou Davos.

Mingau abriu as barras por completo, Sor Axell fez um aceno, e os guardas atiraram seu cativo, de cabeça, para dentro da cela. O homem tropeçou e poderia ter caído, mas Davos agarrou-o. Ele libertou-se imediatamente com uma sacudida e correu cambaleando para a porta, apenas para vê-la fechada na sua cara pálida e mimada.

Não – gritou. – Nãããããão. – Toda a força abandonou de repente suas pernas e ele deslizou lentamente para o chão, agarrando-se às barras de ferro. Sor Axell, Mingau e os guardas já tinham se virado para partir. – Não podem fazer isso – gritou o prisioneiro para as costas dos homens que se afastavam. – Eu sou a Mão do Rei!

Foi então que Davos o reconheceu.

– É Alester Florent.

O homem virou a cabeça.

– Quem...?

– Sor Davos Seaworth.

Lorde Alester pestanejou.

– Seaworth... o cavaleiro das cebolas. Tentou assassinar Melisandre.

Davos não negou.

– Em Ponta Tempestade usou uma armadura vermelho-dourada, com flores de lápis-lazúli incrustadas na placa de peito. – Estendeu uma mão para ajudar o outro homem a pôr-se em pé.

Lorde Alester sacudiu a palha imunda de suas roupas.

– Eu... eu devo desculpar-me por minha aparência, sor. Minhas arcas foram perdidas quando os Lannister invadiram nosso acampamento. Escapei sem nada exceto a cota de malha que trazia no corpo e os anéis nos dedos.

E ainda usa esses anéis, reparou Davos, que perdera até parte de seus dedos.

– Sem dúvida que algum ajudante de cozinha ou palafreneiro anda agora se pavoneando por Porto Real com o meu gibão fendido de veludo e o manto cravejado de joias – prosseguiu Lorde Alester, absorto. – Mas a guerra tem seus horrores, como todos sabem. Sem dúvida você também sofreu suas próprias perdas.

– Meu navio – disse Davos. – Todos os meus homens. Quatro de meus filhos.

– Que o... que o Senhor da Luz os faça atravessar as trevas até um mundo melhor – disse o outro homem.

Que o Pai os julgue com justiça, e a Mãe lhes conceda misericórdia, pensou Davos, mas guardou a prece para si. Os Sete não tinham mais lugar em Pedra do Dragão.

– Meu filho está a salvo em Águas Claras – prosseguiu o lorde –, mas perdi um sobrinho no Fúria. Sor Imry, filho de meu irmão Ryam.

Foi Sor Imry Florent quem os levou cegamente pela Torrente da Água Negra adentro, com todos os remos em ação, sem prestar atenção nas pequenas torres de pedra na foz do rio. Não era provável que Davos se esquecesse dele.

– Meu filho Maric era mestre dos remadores de seu sobrinho. – Lembrou-se do último vislumbre que tivera do Fúria, envolto em fogovivo. – Houve alguma notícia de sobreviventes?

– O Fúria queimou e afundou com toda a tripulação – disse sua senhoria. – Seu filho e meu sobrinho perderam-se, com um número incontável de outros bons homens. A própria guerra foi perdida nesse dia, sor.

Esse homem está derrotado. Davos recordou a conversa de Melisandre a respeito das brasas nas cinzas gerarem grandes incêndios. Não me admira que tenha acabado aqui.

– Sua Graça nunca se renderá, senhor.

– Uma loucura, isso é uma loucura. – Lorde Alester voltou a se sentar no chão, como se o esforço de ficar em pé por um momento tivesse sido excessivo para ele. – Stannis Baratheon nunca ocupará o Trono de Ferro. Será traição dizer a verdade? Uma verdade amarga, mas não menos verdadeira por isso. Já não tem frota, à exceção dos lisenos, e Salladhor Saan fugirá assim que avistar uma vela Lannister. A maior parte dos senhores que apoiaram Stannis passaram para o lado de Joffrey ou morreram...

– Até os senhores do mar estreito? Os senhores juramentados a Pedra do Dragão?

Lorde Alester abanou debilmente as mãos.

– Lorde Celtigar foi capturado e rendeu-se. Monford Velaryon morreu com o seu navio, a mulher vermelha queimou Sunglass, e Lorde Bar Emmon tem quinze anos, é gordo e frágil. São esses os senhores do mar estreito. Só restam a Stannis as forças da Casa Florent, contra todo o poderio de Jardim de Cima, Lançassolar e Rochedo Casterly, e agora também da maior parte dos senhores da tempestade. A melhor esperança que resta é tentar salvar qualquer coisa com a paz. Foi isso que tentei fazer. Pela bondade dos deuses, como podem chamar isso de traição?

Davos franziu a testa.

– Senhor, o que fez?

– Traição, não. Traição, nunca. Adoro Sua Graça mais do que qualquer outro homem. Minha própria sobrinha é a rainha dele, e permaneci fiel quando homens mais sensatos desertaram. Sou sua Mão, a Mão do Rei, como posso ser um traidor? Só quis salvar nossas vidas e... honra... sim. – Lambeu os lábios. – Escrevi uma carta. Salladhor Saan jurou que tinha um homem que podia levá-la a Porto Real, ao Lorde Tywin. Sua senhoria é um... um homem de razão, e os meus termos... os termos eram justos... mais do que justos.