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– Que termos eram esses, senhor?

– Isto aqui está imundo – disse de repente Lorde Alester. – E esse cheiro... o que é esse cheiro?

– O balde – disse Davos com um gesto. – Aqui não temos latrina. Que termos?

Sua senhoria fitou o balde, horrorizado.

– Que Lorde Stannis retiraria sua pretensão ao Trono de Ferro e se retrataria de tudo o que havia dito a respeito da bastardia de Joffrey, sob a condição de ser aceito de volta à paz do rei e confirmado como Senhor de Pedra do Dragão e Ponta Tempestade. Jurei fazer o mesmo, em troca da devolução da Fortaleza de Águas Claras e de todas as nossas terras. Pensei... Lorde Tywin compreenderia o bom senso de minha proposta. Ele ainda precisa lidar com os Stark e também com os homens de ferro. Sugeri selarmos o acordo casando Shireen com o irmão de Joffrey, Tommen. – Balançou a cabeça. – Os termos... eram os melhores que poderemos alcançar. Até você certamente compreende?

– Sim – disse Davos –, até eu. – A não ser que Stannis gerasse um filho, um casamento assim significaria que Pedra do Dragão e Ponta Tempestade passariam um dia para as mãos de Tommen, o que sem dúvida agradaria a Lorde Tywin. Ao mesmo tempo, os Lannister teriam Shireen como refém para se certificarem de que Stannis não causaria mais rebeliões. – E o que disse Vossa Graça quando lhe propôs esses termos?

– Ele está sempre com a mulher vermelha, e... receio que não esteja no seu juízo completo. Essa conversa sobre um dragão de pedra... loucura, digo eu, pura loucura. Será que não aprendemos nada com Aerion Fogovivo, com os nove magos, com os alquimistas? Será que não aprendemos nada com Solarestival? Nunca bem algum veio desses sonhos de dragões, foi o que eu disse a Axell. A minha maneira era melhor. Mais segura. E Stannis deu-me seu selo, deu-me licença para governar. A Mão fala com a voz do rei.

– Nisso, não. – Davos não era cortesão, e sequer tentou amaciar as palavras. – A rendição não existe em Stannis, enquanto souber que suas razões são justas. Da mesma forma que não pode desdizer as palavras contra Joffrey, quando as crê verdadeiras. E, quanto ao casamento, Tommen nasceu do mesmo incesto que Joffrey, e Sua Graça antes gostaria de ver Shireen morta do que casada com alguém assim.

Uma veia latejava na testa de Florent.

Ele não tem outra opção.

– Engana-se, senhor. Ele pode escolher morrer como rei.

– E levar-nos com ele? É isso que deseja, Cavaleiro das Cebolas?

– Não. Mas sou um homem do rei, e não farei qualquer paz sem a permissão dele.

Lorde Alester fitou-o impotente por um longo momento e então começou a chorar.

Jon

A última noite caiu, negra e sem lua, mas pela primeira vez o céu estava limpo.

– Vou subir o monte para procurar o Fantasma – disse aos Thenns na entrada da caverna, e eles soltaram um grunhido e deixaram-no passar.

Tantas estrelas, pensou, enquanto subia penosamente a encosta por entre pinheiros, abetos e freixos. O Meistre Luwin ensinara-lhe as estrelas, na infância passada em Winterfell; havia aprendido o nome das doze casas do céu e o dos regentes de cada uma; conseguia encontrar os sete viajantes sagrados para a Fé; era velho amigo do Dragão de Gelo, do Gato das Sombras, da Donzela da Lua e da Espada da Manhã. Dividia todos estes com Ygritte, mas não alguns dos outros. Erguemos os olhos para as mesmas estrelas, e vemos coisas tão diferentes. Segundo ela, a Coroa do Rei era o Berço; o Garanhão era o Senhor Chifrudo; o viajante vermelho, que segundo as orações dos septões era sagrado para o seu Ferreiro, ali em cima era chamado de Ladrão. E quando o Ladrão se encontrava na Donzela da Lua, insistia Ygritte, isso queria dizer que a época era propícia para que um homem raptasse uma mulher.

– Como na noite em que me raptou. O Ladrão estava brilhante naquela noite.

– Não pretendia raptá-la – disse ele. – Nem sabia que era uma mulher até encostar a faca na sua garganta.

– Se matar um homem sem querer, ele vai estar morto do mesmo jeito – disse Ygritte teimosamente. Jon nunca havia conhecido pessoa mais teimosa, exceto talvez sua irmã mais nova, Arya. Será que ela ainda é minha irmã?, perguntou a si próprio. Alguma vez terá sido? Ele nunca realmente fora um Stark, apenas o bastardo sem mãe de Lorde Eddard, que não tinha mais lugar em Winterfell do que Theon Greyjoy. E mesmo isso perdera. Quando um homem da Patrulha da Noite proferia suas palavras, punha de lado sua antiga família e juntava-se a uma nova, mas Jon Snow tinha perdido também esses irmãos.

Encontrou Fantasma no topo do monte, como imaginara. O lobo branco nunca uivava, e no entanto algo o atraía às alturas mesmo assim, e ficava ali sentado, com o hálito quente levantando-se numa névoa branca enquanto seus olhos vermelhos bebiam as estrelas.

– Você também tem nomes para elas? – perguntou Jon quando se ajoelhou ao lado do lobo gigante e coçou os espessos pelos brancos do pescoço do animal. – A Lebre? A Corça? A Loba? – Com sua língua úmida e áspera, Fantasma lambeu o rosto de Jon, raspando as crostas onde as garras da águia tinham rasgado sua face. A ave marcou-nos a ambos, Jon pensou. – Fantasma – disse, em voz baixa –, amanhã de manhã passamos sobre a Muralha. Aqui não há degraus, não há gaiola e grua, não há como levá-lo para o outro lado. Temos de nos separar. Compreende?

Na escuridão, os olhos vermelhos do lobo gigante pareciam negros. Encostou o focinho no pescoço de Jon, silencioso como sempre, com o hálito numa névoa quente. Os selvagens chamavam Jon Snow de warg, mas se o era, era dos ruins. Não sabia como vestir uma pele de lobo, como Orell vestia a de sua águia antes de morrer. Um dia Jon sonhara que era Fantasma, e olhava o vale do Guadeleite onde Mance Rayder reunira seu povo, e esse sonho revelou-se verdadeiro. Mas agora não estava sonhando, e isso deixava-lhe apenas as palavras.

– Não pode vir comigo – disse Jon, envolvendo a cabeça do lobo nas mãos e olhando-o profundamente nos olhos. – Tem de ir para Castelo Negro. Compreende? Castelo Negro. Consegue encontrá-lo? O caminho para casa? É só seguir o gelo, para leste e mais para leste, para o sol, e vai encontrá-lo. Em Castelo Negro vão reconhecê-lo, e sua chegada talvez os previna. – Pensara em escrever um aviso para Fantasma levar, mas não tinha tinta nem pergaminho, nem sequer uma pena, e o risco de ser descoberto era grande demais. – Encontramo-nos em Castelo Negro, mas tem de chegar lá sozinho. Temos de caçar sozinhos durante algum tempo. Sozinhos.

O lobo gigante libertou-se de Jon com uma torção do corpo, suas orelhas ergueram-se. E de repente afastou-se aos saltos. Pulou através de um emaranhado de mato, saltou sobre uma árvore caída e correu pela vertente do monte, um traço branco entre as árvores. Para Castelo Negro?, perguntou Jon a si mesmo. Ou atrás de uma lebre? Gostaria de saber. Temia revelar-se tão ruim como warg quanto como irmão juramentado e espião.

Um vento suspirou por entre as árvores, rico com o cheiro de agulhas de pinheiro, puxando sua roupa negra desbotada. Jon via a Muralha erguer-se alta e escura ao sul, uma grande sombra que bloqueava as estrelas. O terreno montanhoso dava-lhe a ideia de que deviam estar em algum lugar entre Torre Sombria e Castelo Negro, provavelmente mais perto da Torre. Havia dias em que se dirigiam para o sul, por entre lagos profundos que se estendiam como dedos finos compridos ao longo de vales estreitos, enquanto cumeadas de sílex e montes vestidos de pinheiros se empurravam uns contra os outros de ambos os lados. Um terreno assim levava a um avanço lento, mas escondia facilmente aqueles que queriam se aproximar da Muralha sem serem vistos.