– Todos – rosnou Kraznys mo Nakloz, que naquele dia cheirava a pêssegos. A jovem escrava repetiu a palavra no Idioma Comum de Westeros. – Milhares, temos oito. É isso que ela quer dizer com todos? Há também seis centenas, que farão parte de um nono milhar quando completas. Também as quer?
– Quero – disse Dany quando a questão lhe foi colocada. – Os oito milhares, as seis centenas... e também os que ainda estão em treinamento. Aqueles que não conquistaram os espigões.
Kraznys voltou a se virar para os seus companheiros. De novo conferenciaram entre si. A tradutora tinha dito a Dany seus nomes, mas era difícil guardá-los. Quatro dos homens pareciam se chamar Grazdan, presumivelmente em honra de Grazdan, o Grande, que fundara a Velha Ghis na aurora dos tempos. Todos eram parecidos; homens fortes e carnudos, com pele ambarina, nariz largo e olhos escuros. Seus cabelos hirsutos eram negros, ou de um vermelho-escuro, ou daquela estranha mistura de vermelho e negro que era característica dos ghiscari. Todos se enrolavam em tokars, uma vestimenta que só era autorizada aos homens livres de Astapor.
O Capitão Groleo tinha dito a Dany que era o debrum do tokar que proclamava o estatuto de um homem. Naquela fresca sala verde no topo da pirâmide, dois dos negociantes de escravos usavam tokars debruados de ouro, e um deles, o Grazdan mais velho, exibia um debrum de grandes pérolas brancas que chocalhavam levemente quando ele se mexia no assento ou movimentava um braço.
– Não podemos vender rapazes meio treinados – um dos Grazdan vestido em debrum de prata dizia aos outros.
– Podemos, se o ouro dela for bom – disse um homem mais gordo, cujo debrum era de ouro.
– Eles não são Imaculados. Não mataram seus bebês. Se falharem no campo de batalha, vão nos envergonhar. E mesmo se cortarmos cinco mil garotos crus amanhã, vão se passar dez anos até que estejam prontos para serem vendidos. O que diremos ao próximo comprador que vier em busca de Imaculados?
– Diremos que precisa esperar – disse o gordo. – Ouro na minha bolsa é melhor do que ouro no meu futuro.
Dany deixou-os discutir, bebericando do vinho ácido de caqui e tentando manter o rosto sem expressão, como se não entendesse nada do que diziam. Terei todos, seja qual for o preço, disse a si própria. A cidade tinha uma centena de negociantes de escravos, mas os oito que se encontravam diante dela eram os maiores. Quando vendiam escravos sexuais, trabalhadores rurais, escribas, artesãos e tutores, aqueles homens eram rivais, mas seus ancestrais tinham-nos aliado a fim de criar e vender os Imaculados. Tijolos e sangue construíram Astapor, e tijolos e sangue construíram o seu povo.
Foi Kraznys quem finalmente anunciou a decisão.
– Diga-lhe que obterá os oito milhares, se o seu ouro for suficiente. E as seis centenas, se desejar. Diga-lhe para voltar dentro de um ano, e venderemos a ela mais dois milhares.
– Dentro de um ano estarei em Westeros – disse Dany depois de ouvir a tradução. – Preciso deles agora. Os Imaculados estão bem treinados, mesmo assim muitos caem em batalha. Preciso dos garotos como reforços para apanhar as espadas que caírem. – Pôs o vinho de lado e inclinou-se para a jovem escrava. – Diga aos Bons Mestres que quero até os pequenos que ainda têm seus cachorros. Diga-lhes que pagarei tanto pelo rapaz que cortaram ontem como por um Imaculado com elmo de espigão.
A moça disse-lhes. A resposta continuou a ser não.
Dany franziu a testa, aborrecida.
– Muito bem. Diga-lhes que pagarei o dobro, na condição de obter todos.
– O dobro? – o gordo com o debrum de ouro por pouco não se babou.
– Essa vadiazinha é realmente uma tola – disse Kraznys mo Nakloz. – Devíamos pedir o triplo. Ela está suficientemente desesperada para pagar. Sim, peçamos dez vezes o preço de cada escravo.
O Grazdan alto com a barba pontiaguda falou no Idioma Comum, embora não tão bem quanto a jovem escrava.
– Vossa Graça – rosnou –, Westeros está sendo rico, sim, mas você não está sendo rainha agora. Talvez nunca estará sendo rainha. Até Imaculados podem estar perdendo batalhas para selvagens cavaleiros de aço de Sete Reinos. Estou recordando, os Bons Mestres de Astapor não estão vendendo carne em troca de promessas. Está tendo ouro e bens de comércio suficientes para pagar por todos esses eunucos que está querendo?
– Conhece a resposta para isso melhor do que eu, Bom Mestre – respondeu Dany. – Seus homens vasculharam meus navios e contaram cada conta de âmbar e frasco de açafrão. Quanto tenho eu?
– Suficiente para comprar um dos milhares – disse o Bom Mestre, com um sorriso desdenhoso. – Mas vai pagar o dobro, está dizendo. Então, cinco centenas é tudo que compra.
– Sua bonita coroa pode pagar outra centena – disse o gordo em valiriano. – A sua coroa dos três dragões.
Dany esperou que as palavras dele fossem traduzidas.
– Minha coroa não está à venda. – Quando Viserys vendeu a coroa da mãe, perdeu a alegria que lhe restava, sobrou apenas a raiva. – Nem escravizarei meu povo, nem venderei seus bens ou cavalos. Mas podem ficar com meus navios. A grande coca Balerion e as galés Vhagar e Meraxes. – Prevenira Groleo e os outros capitães de que podia chegar àquele ponto, embora eles tivessem contestado furiosamente a necessidade da venda. – Três bons navios devem valer mais do que um punhado de reles eunucos.
O Grazdan gordo virou-se para os outros. Voltaram a conferenciar em voz baixa.
– Dois dos milhares – disse o da barba pontiaguda quando voltou a se virar para ela. – É demais, mas os Bons Mestres estão sendo generosos e sua necessidade está sendo grande.
Dois mil nunca serviriam para aquilo que queria fazer. Tenho de obter todos. Dany sabia o que tinha de fazer naquele momento, embora o sabor fosse tão amargo que nem mesmo o vinho de caqui conseguia tirá-lo de sua boca. Refletira longa e duramente, e não havia encontrado outra maneira. É a minha única chance.
– Deem-me todos – disse – e podem ficar com um dragão.
Ouviu-se o som do prender da respiração de Jhiqui ao seu lado. Kraznys sorriu para seus companheiros.
– Não disse? Ela vai nos dar qualquer coisa.
Barba-Branca fitou-a, numa incredulidade chocada. Sua mão tremia agarrada ao bastão.
– Não. – Ajoelhou perante ela. – Vossa Graça, suplico-lhe, conquiste seu trono com dragões, não com escravos. Não pode fazer isso...
– Você é que não pode se atrever a me dar instruções. Sor Jorah, tire Barba-Branca de minha presença.
Mormont agarrou rudemente o velho por um cotovelo, colocou-o em pé com um puxão e levou-o para o terraço.
– Diga aos Bons Mestres que lamento essa interrupção – disse Dany à jovem escrava. – Diga-lhes que aguardo sua resposta.
Mas sabia qual seria a resposta; podia vê-la na cintilação dos olhos deles e nos sorrisos que grandemente se esforçavam para esconder. Astapor tinha milhares de eunucos, e ainda mais garotos escravos à espera de serem cortados, mas só havia três dragões vivos em todo o grande mundo. E os ghiscari anseiam por dragões. Como podiam não ansiar? Cinco vezes a Velha Ghis havia competido com Valíria quando o mundo era jovem, e cinco vezes havia caído, em derrota desoladora. Pois a Cidade Franca possuía dragões e o Império, não.
O mais velho dos Grazdan agitou-se no assento, e suas pérolas chocalharam baixinho.
– Um dragão à nossa escolha – disse, numa voz fina e dura. – O negro é maior e mais saudável.
– O nome dele é Drogon. – Ela assentiu.
– Todos os seus bens, exceto sua coroa e vestuário real, que lhe permitiremos manter. Os três navios. E Drogon.