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– Feito – disse ela, no Idioma Comum.

– Feito – respondeu o velho Grazdan no seu denso valiriano.

Os outros serviram de ecos ao velho do debrum de pérolas.

– Feito – traduziu a jovem escrava – e feito, e feito, oito vezes feito.

– Os Imaculados aprenderão seu idioma selvagem bastante depressa – acrescentou Kraznys mo Nakloz, depois de tudo combinado –, mas até esse momento irá necessitar de um escravo para falar com eles. Aceite esta como presente, um penhor de um bom negócio.

– Aceitarei – disse Dany.

A jovem escrava transmitiu-lhe as palavras dele e a ele as de Dany. Se tinha alguma emoção sobre ser oferecida como penhor, teve o cuidado de não deixar transparecer.

Arstan Barba-Branca também domou a língua quando Dany passou por ele no terraço. Seguiu-a pela escadaria em silêncio, mas ela ouvia seu bastão de madeira rígida fazendo tap-tap nos tijolos vermelhos enquanto caminhavam. Não o censurava por sua fúria. O que fizera foi deplorável. A Mãe de Dragões vendeu o seu filho mais forte. Até a ideia a deixava nauseada.

Mas lá embaixo, na Praça do Orgulho, em pé sobre os quentes tijolos vermelhos entre a pirâmide dos negociantes de escravos e as casernas dos eunucos, Dany virou-se para o velho.

– Barba-Branca – disse –, quero seus conselhos, e nunca deve sentir medo de me dizer o que pensa... quando estivermos sozinhos. Mas nunca me questione na frente de estranhos. Entendido?

– Sim, Vossa Graça – disse ele, em tom infeliz.

– Não sou uma criança – disse-lhe ela. – Sou uma rainha.

– Mas até as rainhas podem errar. Os astapori enganaram-na, Vossa Graça. Um dragão vale mais do que qualquer exército. Aegon provou-o há trezentos anos, no Campo de Fogo.

– Eu sei o que Aegon provou. Pretendo também provar umas coisinhas. – Dany virou-se para a jovem escrava que estava obedientemente em pé ao lado de sua liteira. – Você tem nome, ou precisa tirar um novo todos os dias de dentro de um barril?

– Isso é só para os Imaculados – disse a moça. Então percebeu que a pergunta havia sido feita em Alto Valiriano. Seus olhos esbugalharam-se. – Oh.

– Seu nome é Oh?

– Não. Vossa Graça, perdoe esta pelo descontrole. O nome de sua escrava é Missandei, mas...

– Missandei já não é uma escrava. Liberto-a, a partir deste instante. Junte-se a mim na liteira, quero conversar. – Rakharo ajudou-a a entrar, e Dany fechou as cortinas à poeira e ao calor. – Se ficar comigo, vai me servir como uma de minhas aias – disse, quando se puseram em movimento. – Manterei você ao meu lado para falar por mim como falou por Kraznys. Mas pode deixar o meu serviço na hora que desejar, se tiver um pai ou uma mãe para junto de quem prefira voltar.

– Esta ficará – disse a garota. – Esta... eu... não tenho para onde ir. Esta... eu vou servi-la, e de bom grado.

– Posso dar-lhe liberdade, mas não posso lhe dar segurança – preveniu Dany. – Tenho um mundo para atravessar e guerras para travar. Pode vir a passar fome. Pode adoecer. Pode ser morta.

Valar morghulis – disse Missandei, em Alto Valiriano.

– Todos os homens têm de morrer – concordou Dany –, mas podemos rezar para que isso demore muito tempo para acontecer. – Encostou-se nas almofadas e tomou a mão da garota nas suas. – Estes Imaculados são realmente destemidos?

– Sim, Vossa Graça.

– Agora está a meu serviço. É verdade que não sentem dor?

– O vinho da coragem mata essas sensações. Quando matam os bebês, já o bebem há anos.

– E são obedientes?

– Tudo que conhecem é a obediência. Se lhes disser para não respirarem, acharão isso mais fácil do que não obedecer.

Dany fez um gesto afirmativo com a cabeça.

– E quando não precisar mais deles?

– Vossa Graça?

– Quando tiver ganhado a minha guerra e reclamado o trono que era de meu pai, meus cavaleiros embainharão as espadas e voltarão para suas fortalezas, para suas esposas, filhos e mães... para suas vidas. Mas esses eunucos não têm vida. O que farei com oito mil eunucos depois de deixar de haver batalhas a travar?

– Os Imaculados dão bons guardas e excelentes vigias, Vossa Graça – disse Missandei. – E nunca é difícil encontrar um comprador para tropas tão boas e experientes.

– Os homens não são comprados e vendidos em Westeros, segundo me dizem.

– Com todo o respeito, Vossa Graça, os Imaculados não são homens.

– Se os revendesse, como saberia que não seriam usados contra mim? – perguntou Dany sem rodeios. – Fariam isso? Lutariam contra mim, chegariam a me machucar fisicamente?

– Se o seu dono o ordenasse. Eles não questionam, Vossa Graça. Todas as questões lhes foram arrancadas. Eles obedecem. – Parecia perturbada. – Quando não... quando não precisar mais deles... Vossa Graça pode ordenar-lhes que caiam sobre as espadas.

– E até isso fariam?

– Sim – A voz de Missandei suavizara-se. – Vossa Graça.

Dany apertou sua mão.

– Mas preferiria que eu não lhes pedisse isso. Por quê? Por que se preocupa?

– Esta não... eu... Vossa Graça...

– Diga-me.

A garota baixou os olhos.

– Três deles foram antigamente meus irmãos, Vossa Graça.

Então espero que seus irmãos sejam tão corajosos e inteligentes quanto você. Dany voltou a encostar-se na almofada, e deixou que a liteira a levasse em frente, uma última vez de volta ao Balerion, para colocar o seu mundo em ordem. E de volta a Drogon. Sua boca apertou-se numa expressão carrancuda.

A noite que se seguiu foi longa, escura e ventosa. Dany alimentou os dragões como sempre fazia, mas descobriu que ela mesma não tinha apetite. Chorou um pouco, sozinha, em sua cabine, e depois secou as lágrimas durante tempo bastante para mais uma discussão com Groleo.

– O Magíster Illyrio não está aqui – teve finalmente de lhe dizer –, e se estivesse, também não conseguiria me dissuadir. Preciso mais dos Imaculados do que destes navios, e não quero ouvir nem mais uma palavra.

A ira consumiu-lhe o desgosto e o medo, pelo menos durante algumas horas. Mais tarde chamou os companheiros de sangue à sua cabine, com Sor Jorah. Eram os únicos em quem realmente confiava.

Pretendia dormir depois, para estar bem repousada de manhã, mas uma hora de agitação insone no confinamento abafado da cabine rapidamente a convenceu de que não devia continuar tentando. À porta, encontrou Aggo colocando uma nova corda no arco à luz de uma oscilante candeia de azeite. Rakharo estava sentado no chão, ao seu lado, de pernas cruzadas, afiando o arakh com uma pedra de amolar. Dany disse a ambos para continuarem o que estavam fazendo, e subiu ao convés para tomar um pouco do ar fresco da noite. A tripulação deixou-a em paz enquanto tratava de seus assuntos, mas Sor Jorah rapidamente veio lhe fazer companhia junto à amurada. Ele nunca está longe, pensou Dany. Conhece meus estados de espírito bem demais.

Khaleesi. Devia estar dormindo. Amanhã estará quente e será duro, garanto-lhe. Precisará de suas forças.

– Lembra-se de Eroeh? – perguntou-lhe ela.

– A garota lhazarena?

– Estavam violando a garota, mas eu impedi-os e coloquei-a sob a minha proteção. Só que quando o meu sol e estrelas morreu, Mago tomou-a de volta, voltou a usá-la e matou-a. Aggo disse que era o seu destino.

– Lembro-me disso – disse Sor Jorah.

– Estive só durante muito tempo, Jorah. Completamente só, tirando o meu irmão. Era uma coisinha tão pequena e assustada. Viserys deveria ter me protegido, mas em vez disso machucava-me e assustava-me mais ainda. Ele não devia ter feito isso. Não era só meu irmão, era meu rei. Por que os deuses criam os reis e as rainhas, se não for para proteger aqueles que não conseguem fazer isso por conta própria?