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– Alguns reis criam-se a si mesmos. Foi o que Robert fez.

– Ele não era um verdadeiro rei – disse Dany com desdém. – Não oferecia justiça. Justiça... é para isso que os reis servem.

Sor Jorah não encontrou resposta. Limitou-se a sorrir, e tocou seus cabelos, muito de leve. Foi o bastante.

Naquela noite sonhou que era Rhaegar, a caminho do Tridente. Mas ia montada num dragão, e não num cavalo. Quando viu a tropa rebelde do Usurpador do outro lado do rio, eles tinham armaduras de gelo, mas ela banhou-os em fogo de dragão e eles derreteram-se como orvalho e transformaram o Tridente numa torrente. Uma pequena parte de si sabia que estava sonhando, mas outra parte exultou. Era assim que estava destinado a ser. A outra maneira foi um pesadelo, e só agora acordei.

Acordou subitamente na escuridão de sua cabine, ainda transbordante de triunfo. O Balerion pareceu acordar com ela, e ouviu o tênue ranger de madeira, água batendo de encontro ao casco, um passo no convés por cima de sua cabeça. E algo mais.

Alguém estava com ela na cabine.

– Irri? Jhiqui? Onde estão? – as aias não responderam. Estava escuro demais para ver, mas ouvia-as respirar. – Jorah, é você?

– Eles dormem – disse uma mulher. – Todos eles dormem. – A voz estava muito próxima. – Até os dragões têm de dormir.

Ela está em cima de mim.

– Quem está aí? – Dany tentou ver na escuridão. Julgou detectar uma sombra, o mais tênue contorno de uma silhueta. – O que quer de mim?

– Lembre-se. Para ir para o norte, deve viajar para o sul. Para alcançar o oeste, tem de ir para leste. Para ir em frente, deve voltar para trás, e para tocar a luz, tem de passar sob a sombra.

Quaithe? – Dany saltou da cama e escancarou a porta. A pálida luz amarela das lanternas inundou a cabine, e Irri e Jhiqui sentaram-se, sonolentas.

Khaleesi? – murmurou Jhiqui, esfregando os olhos. Viserion acordou e abriu as mandíbulas, e uma baforada de chamas iluminou até os cantos mais escuros. Não havia sinais de uma mulher com uma máscara de laca vermelha. – Khaleesi, não está bem? – perguntou Jhiqui.

– Um sonho. – Dany sacudiu a cabeça. – Tive um sonho, foi só isso. Voltem a dormir. Vamos todas voltar a dormir. – Mas, por mais que tentasse, o sono não queria voltar.

Se olhar para trás, estou perdida, disse Dany a si mesma na manhã seguinte, ao entrar em Astapor pelos portões do porto. Não se atrevia a lembrar a si mesma como, na realidade, era pequena e insignificante a sua comitiva, caso contrário perderia toda a coragem. Naquele dia montava a sua prata, vestida com calças de pelo de cavalo e um colete de couro pintado, com um cinto de medalhões de bronze na cintura e mais dois cruzados entre os seios. Irri e Jhiqui tinham trançado seus cabelos e prendido neles uma minúscula sineta de prata, cujo tilintar cantava uma canção sobre os Imorredouros de Qarth, queimados em seu Palácio de Poeira.

As ruas de tijolo vermelho de Astapor estavam quase repletas nessa manhã. Escravos e criados aglomeravam-se junto às paredes, enquanto os senhores de escravos e suas mulheres tinham vestido seus tokars para observar do alto das pirâmides de degraus. No fim das contas, não são assim tão diferentes dos qartenos, pensou Dany. Querem um vislumbre de dragões que possam contar aos filhos e aos filhos dos filhos. Aquele pensamento fez Dany indagar-se sobre quantos deles chegariam a ter filhos.

Aggo seguia na sua frente, com seu grande arco dothraki. Belwas, o Forte, caminhava à direita de sua égua, e a pequena Missandei à esquerda. Sor Jorah Mormont vinha atrás, de cota de malha e sobretudo, lançando olhares carrancudos a todos os que se aproximassem em excesso. Rakharo e Jhogo protegiam a liteira. Dany ordenara que o topo fosse removido, para que os três dragões pudessem ser acorrentados à plataforma. Irri e Jhiqui seguiam com eles, para tentar mantê-los calmos. Mas Viserion brandia a cauda para um lado e para o outro, e uma fumaça subia, irritada, de suas narinas. Rhaegal também sentia que algo não estava bem. Por três vezes tentou levantar voo, só conseguindo ser puxado para baixo pela pesada corrente que Jhiqui tinha na mão. Drogon enrolara-se numa bola, com as asas e a cauda bem aconchegadas. Só os seus olhos indicavam que não estava dormindo.

O resto do seu povo seguia-os: Groleo e os outros capitães e suas tripulações, e os oitenta e três dothraki que restavam dos cem mil que um dia tinham acompanhado o khalasar de Drogo. Dany tinha colocado os mais velhos e mais fracos no centro da coluna, com as lactantes, as grávidas, as meninas pequenas e os garotos novos demais para trançar o cabelo. Os outros – aquilo que possuía de guerreiros – seguiam no exterior e faziam avançar a sua triste manada, os cento e tantos cavalos descarnados que tinham sobrevivido seja ao deserto vermelho, seja ao negro mar salgado.

Devia mandar bordar um estandarte, pensou enquanto avançava à frente de seu bando andrajoso ao longo dos meandros do rio de Astapor. Fechou os olhos para imaginar seu aspecto: todo de seda negra e leve, e nele o dragão vermelho de três cabeças de Targaryen, exalando chamas douradas. Um estandarte que Rhaegar pudesse ter usado. As margens do rio eram estranhamente tranquilas. Os astapori chamavam-no de Verme. Era largo, lento e cheio de curvas, semeado de minúsculas ilhas cobertas de florestas. Vislumbrou crianças que brincavam numa delas, correndo por entre elegantes estátuas de mármore. Em outra ilha, um casal de amantes beijava-se à sombra de altas árvores verdes, tão desprovidos de vergonha como um dothraki num casamento. Sem roupas, não sabia dizer se eram escravos ou livres.

A Praça do Orgulho, com sua grande harpia de bronze, era pequena demais para conter todos os Imaculados que tinha comprado. Em vez de estarem ali, os escravos tinham sido reunidos na Praça da Punição, em frente ao portão principal de Astapor, para poderem ser levados diretamente da cidade assim que Dany estivesse na posse deles. Ali não havia estátuas de bronze; só uma plataforma de madeira onde escravos rebeldes eram torturados, esfolados e enforcados.

– Os Bons Mestres colocam-nos assim para que sejam a primeira coisa que um novo escravo vê quando entra na cidade – disse-lhe Missandei quando entraram na praça.

À primeira vista, Dany pensou que os castigados tinham pele listrada, como os zebralos dos Jogos Nhai. Então aproximou-se na sua prata e viu a carne viva sob as listras negras em movimento. Moscas. Moscas e larvas. Tinham arrancado a pele dos escravos rebeldes como se descasca uma maçã, numa longa fita enrolada. Um dos homens tinha um braço negro de moscas dos dedos ao cotovelo, e vermelho e branco por baixo. Dany freou o cavalo por baixo dele.

– O que este fez?

– Levantou uma mão contra o dono.

Com o estômago embrulhado, Dany virou sua prata e trotou na direção do centro da praça, e do exército que comprara a um preço tão elevado. Estavam em pé, fileira atrás de fileira, atrás de fileira, seus meios-homens de pedra com coração de tijolo; oito mil e seiscentos com os capacetes de espigão em bronze de Imaculados plenamente treinados, e cerca de cinco mil atrás deles, de cabeça descoberta, mas armados com lanças e espadas curtas. Viu que aqueles que se encontravam mais para trás não passavam de meninos, mas estavam tão rígidos e imóveis quanto os outros.

Kraznys mo Nakloz encontrava-se ali com todos os seus companheiros para saudá-la. Outros astapori de elevado nascimento juntavam-se em grupos atrás deles, bebericando vinho de taças altas de prata, enquanto escravos circulavam entre eles com bandejas cheias de azeitonas, cerejas e figos. O Grazdan mais velho ocupava uma liteira, sustentada por quatro enormes escravos com peles acobreadas. Meia dúzia de lanceiros a cavalo percorria os limites da praça, mantendo afastadas as multidões que tinham vindo assistir. O sol refulgia nos discos de cobre polido costurados aos seus mantos com um brilho que cegava, mas Dany não pôde deixar de reparar como seus cavalos pareciam nervosos. Temem os dragões. E não é de admirar que os temam.