Kraznys ordenou a um escravo que a ajudasse a descer da sela. Ele tinha as mãos ocupadas; uma agarrava o tokar, enquanto a outra empunhava um ornamentado chicote.
– Aqui estão eles. – Olhou para Missandei. – Diga-lhe que são seus... se puder pagar.
– Pode – disse a garota.
Sor Jorah ladrou uma ordem, e a mercadoria foi trazida. Seis fardos de pele de tigre, trezentos rolos de boa seda. Potes de açafrão, potes de mirra, potes de pimenta, curry e cardamomo, uma máscara de ônix, doze macacos de jade, barris de tinta vermelha, preta e verde, uma caixa de raras ametistas negras, uma caixa de pérolas, um barril de azeitonas sem caroço recheadas com lagartas, uma dúzia de barris de bagres cegos em salmoura, um grande gongo de latão e um martelo para bater nele, dezessete olhos de marfim, e uma enorme arca cheia de livros escritos em línguas que Dany não sabia ler. E mais, e mais, e mais. Seu povo empilhou tudo diante dos negociantes de escravos.
Enquanto o pagamento era feito, Kraznys mo Nakloz concedeu-lhe algumas palavras finais sobre o modo de lidar com as tropas.
– Eles ainda estão verdes – disse ele através de Missandei. – Diga à prostituta de Westeros que faria bem em dar-lhes rapidamente o batismo de sangue. Há muitas cidades pequenas no caminho, cidades prontas para serem pilhadas. Qualquer saque que obtenha será apenas seu. Os Imaculados não cobiçam o ouro ou as pedras preciosas. E se capturar prisioneiros, alguns guardas serão suficientes para trazê-los para Astapor. Compraremos os saudáveis, e por um bom preço. E quem sabe? Daqui a dez anos, alguns dos garotos que nos mandar poderão ser por sua vez Imaculados. Assim todos prosperaremos.
Por fim, já não havia mais mercadoria a adicionar à pilha. Seus dothraki voltaram a subir para os cavalos, e Dany disse:
– Isto foi tudo o que pudemos transportar. O resto aguarda nos navios, uma grande quantidade de âmbar, vinho e arroz negro. E vocês têm os próprios navios. Então tudo que nos resta é...
– ... o dragão – terminou o Grazdan com a barba pontiaguda, que falava o Idioma Comum com forte sotaque.
– E aqui está ele. – Sor Jorah e Belwas dirigiram-se ao seu lado para a liteira, onde Drogon e os seus irmãos tostavam ao sol. Jhiqui desprendeu uma ponta da corrente e entregou-a a ela. Quando lhe deu um puxão, o dragão negro ergueu a cabeça, silvando, e abriu asas de noite e escarlate. Kraznys mo Nakloz deu um largo sorriso quando a sombra das asas caiu sobre si.
Dany entregou ao comerciante de escravos a ponta da corrente de Drogon. Em troca, ele presenteou-a com o chicote. O cabo era de osso negro de dragão, elaboradamente esculpido e incrustado de ouro. Nove longas e finas tiras de couro saíam desse cabo, todas rematadas por uma garra dourada. O botão de ouro era uma cabeça de mulher, com dentes pontiagudos de marfim.
– Os dedos da harpia – chamou Kraznys ao açoite.
Dany revirou o chicote na mão. Uma coisa tão leve, com um peso tão grande.
– Então está feito? Eles pertencem a mim?
– Está feito – concordou o homem, dando um forte puxão na corrente para que Drogon descesse da liteira.
Dany montou sua prata. Sentia o coração tamborilando no peito. Sentia um medo desesperado. Seria isso o que o meu irmão teria feito? Perguntou a si mesma se o Príncipe Rhaegar se sentira tão ansioso assim quando viu a tropa do Usurpador em formação do outro lado do Tridente, com todos os seus estandartes flutuando ao vento.
Pôs-se em pé nos estribos e ergueu os dedos da harpia sobre a cabeça, para que todos os Imaculados os vissem.
– ESTÁ FEITO! – gritou, o mais alto que foi capaz. – VOCÊS SÃO MEUS! – Esporeou a égua e galopou ao longo da primeira fileira, mantendo os dedos erguidos. – PERTENCEM AGORA AO DRAGÃO! FORAM COMPRADOS E PAGOS! ESTÁ FEITO! ESTÁ FEITO!
Vislumbrou o velho Grazdan virando rapidamente a cabeça grisalha. Ele me ouviu falar valiriano. Os outros negociantes de escravos não estavam atentos. Aglomeravam-se em volta de Kraznys e do dragão, gritando conselhos. Embora os astapori puxassem e empurrassem, Drogon não saía da liteira. Fumaça cinza subia de suas mandíbulas abertas, e seu longo pescoço enrolava-se e endireitava-se enquanto ele tentava morder o rosto do feitor.
É hora de atravessar o Tridente, pensou Dany, ao virar-se e trazer a prata de volta. Seus companheiros de sangue aproximaram-se e cercaram-na.
– Está em dificuldades – observou Dany.
– Ele não quer vir – disse Kraznys.
– Há uma razão. Um dragão não é escravo de ninguém. – E Dany chicoteou com toda a força o rosto do negociante de escravos. Kraznys gritou e cambaleou para trás, com sangue escorrendo, vermelho, para sua barba perfumada. Os dedos da harpia tinham quase desfeito suas feições de um golpe, mas Dany não parou para contemplar o estrago. – Drogon – cantou em voz alta, em tom doce, todo o seu medo esquecido. – Dracarys.
O dragão negro abriu as asas e rugiu.
Uma lança de turbilhonantes chamas escuras atingiu em cheio o rosto de Kraznys. Seus olhos derreteram e escorreram pelas maçãs de seu rosto, e o óleo que tinha nos cabelos e barba incendiou-se com tanta violência que, por um instante, o senhor de escravos usou uma coroa flamejante duas vezes mais alta do que sua cabeça. O súbito fedor de carne carbonizada conseguiu sobrepor-se até mesmo ao seu perfume, e seu grito de dor pareceu afogar todos os outros sons.
Então a Praça da Punição estourou em sangue e caos. Os Bons Mestres guinchavam, esbarravam e empurravam-se uns aos outros, tropeçavam, com a pressa, no debrum de seus tokars. Drogon voou quase preguiçosamente contra Kraznys, batendo asas negras. Enquanto oferecia ao senhor de escravos mais um pouco de fogo, Irri e Jhiqui desacorrentaram Viserion e Rhaegal, e de repente havia três dragões no ar. Quando Dany se virou para olhar, um terço dos orgulhosos guerreiros de chifres demoníacos de Astapor lutava para se manter montado em suas aterrorizadas montarias, e outro terço fugia num brilhante clarão de cobre brilhante. Um homem manteve-se sobre a sela tempo suficiente para puxar uma espada, mas o chicote de Jhogo enrolou-se em torno do pescoço dele e cortou seu grito. Outro perdeu uma mão para o arakh de Rakharo e afastou-se, cambaleando e jorrando sangue. Aggo sentou-se calmamente, encaixando flechas na corda de seu arco e disparando-as contra tokars. Não importava nem um pouco que o debrum fosse de prata, ouro ou simples. Belwas, o Forte, também tinha o seu arakh desembainhado, e fazia-o rodopiar enquanto atacava.
Dany ouviu um astapori gritar:
– Lanças! – era Grazdan, o velho Grazdan com seu tokar carregado de pérolas. – Imaculados! Defendam-nos, parem-nos, defendam os seus senhores! Lanças! Espadas!
Quando Rakharo enfiou uma flecha na boca dele, os escravos que sustentavam a sua liteira separaram-se e fugiram, deixando-o cair sem cerimônia no chão. O velho engatinhou até a primeira fileira de eunucos, deixando poças de sangue nos tijolos. Os Imaculados sequer olharam para baixo, para vê-lo morrer. Fileira atrás de fileira, atrás de fileira, permaneceram em pé.
E não se moveram. Os deuses ouviram a minha prece.
– Imaculados! – Dany galopou à frente deles, com a trança de um louro prateado esvoaçando atrás, e a sineta tilintando a cada passo. – Matem os Bons Mestres, matem os soldados, matem todos os homens que usem um tokar ou tenham um chicote nas mãos, mas não façam mal a nenhuma criança com menos de doze anos, e arranquem as correntes de todos os escravos que virem. – Ergueu os dedos da harpia... e então atirou o açoite para longe. – Liberdade! – entoou. – Dracarys! Dracarys!