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Não quero nenhum Lannister, ela quis dizer. Quero Willas, quero Jardim de Cima, os cachorros e a barcaça, e filhos chamados Eddard, Bran e Rickon. Mas então lembrou-se do que Dontos havia lhe dito no bosque sagrado. Tyrell ou Lannister, não faz diferença, não é a mim que querem, é só a minha pretensão.

– É gentil, senhor – disse, derrotada. – Sou protegida da coroa e meu dever é casar segundo as ordens do rei.

Ele estudou-a com seus olhos desiguais.

– Eu sei que não sou o tipo de esposo com que as garotas sonham, Sansa – disse, com suavidade –, mas também não sou Joffrey.

– Não – disse ela. – Foi gentil comigo. Eu me lembro.

Tyrion ofereceu-lhe uma mão grossa de dedos curtos.

– Então venha. Vamos cumprir o nosso dever.

E assim ela pousou a mão na dele e ele levou-a até o altar nupcial, onde o septão esperava entre a Mãe e o Pai para unir suas vidas. Sansa viu Dontos, com o seu traje de bobo, olhando-a com grandes olhos redondos. Sor Balon Swann e Sor Boros Blount encontravam-se lá, ostentando o branco da Guarda Real, mas Sor Loras não. Nenhum dos Tyrell está aqui, compreendeu de repente. Mas havia fartura de outras testemunhas; o eunuco Varys, Sor Addam Marbrand, Lorde Philip Foote, Sor Bronn, Jalabhar Xho, uma dúzia de outros. Lorde Gyles tossia, a Senhora Ermesande mamava, e a filha grávida da Senhora Tanda soluçava por nenhum motivo aparente. Que soluce, pensou Sansa. Eu talvez faça o mesmo antes que este dia acabe.

A cerimônia passou como que num sonho. Sansa fez tudo o que lhe foi pedido. Houve preces, votos e cânticos, e grandes velas queimando, uma centena de luzes dançantes, que as lágrimas em seus olhos se transformaram num milhar. Felizmente, ninguém pareceu reparar que ela estava chorando enquanto se encontrava ali, em pé, envolvida nas cores do pai; ou se viram, fingiram não ver. Naquilo que pareceu não ser tempo algum, chegaram à troca dos mantos.

Na condição de pai do reino, Joffrey ocupou o lugar de Eddard Stark. Sansa permaneceu dura como uma lança enquanto as mãos dele passaram sobre seus ombros para lutar contra o broche de seu manto. Uma delas roçou num seio e demorou-se lá, para lhe dar um pequeno apertão. Então o broche abriu-se, e Joff tirou seu manto de donzela com um floreado régio e um sorriso.

A parte do tio não correu tão bem. O manto de noiva que segurava era enorme e pesado, de veludo carmesim ricamente trabalhado com leões e debruado de cetim dourado e rubis. Mas ninguém havia se lembrado de trazer um banco, e Tyrion era meio metro mais baixo do que sua noiva. Quando ele se colocou atrás dela, Sansa sentiu um forte puxão na saia. Ele quer que eu ajoelhe, compreendeu, corando. Ficou mortificada. Não deveria ser assim. Sonhara mil vezes com seu casamento, e em todas elas imaginara o modo como seu noivo ficaria atrás dela, alto e forte, envolveria majestosamente seus ombros com o manto de sua proteção, e a beijaria ternamente no rosto ao debruçar-se para a frente, a fim de lhe prender o broche.

Sentiu outro puxão na saia, mais insistente. Não farei isso. Por que devo poupar os sentimentos dele, quando ninguém se preocupa com os meus?

O anão puxou-a pela terceira vez. Teimosamente, apertou os lábios e fingiu não reparar. Alguém atrás deles soltou um riso abafado. A rainha, pensou, mas não importava. Pouco depois estavam todos rindo, ninguém mais alto do que Joffrey.

– Dontos, de quatro – ordenou o rei. – Meu tio precisa de ajuda para subir até sua noiva.

E foi assim que o senhor seu esposo a cobriu com um manto nas cores da Casa Lannister enquanto se empoleirava nas costas de um bobo.

Quando Sansa se virou, o homenzinho fitava-a, de boca contraída, com o rosto tão vermelho quanto seu manto. De repente, sentiu-se envergonhada por sua teimosia. Alisou as saias e ajoelhou-se diante de Tyrion, para que as cabeças ficassem no mesmo nível.

– Com este beijo empenho o meu amor, e o tomo como meu senhor e esposo.

– Com este beijo empenho o meu amor – respondeu o anão em voz rouca – e a tomo como minha senhora e esposa. – Debruçou-se para a frente, e os lábios tocaram-se brevemente.

Ele é tão feio, pensou Sansa quando o rosto dele se aproximou do seu. É ainda mais feio do que o Cão de Caça.

O septão ergueu bem alto seu cristal, para que a luz arco-íris caísse sobre os dois.

– Aqui, à vista dos deuses e dos homens – disse –, proclamo solenemente que Tyrion da Casa Lannister e Sansa da Casa Stark são marido e mulher, uma carne, um coração, uma alma, agora e sempre, e maldito seja quem se interpuser entre eles.

Teve de morder o lábio para não soluçar.

O banquete de casamento foi servido no Pequeno Salão. Havia talvez cinquenta convidados; a maioria servidores e aliados dos Lannister, juntando-se àqueles que tinham estado no casamento. E ali Sansa encontrou os Tyrell. Margaery olhou-a de um modo cheio de tristeza, e quando a Rainha dos Espinhos entrou, vacilante, entre o Esquerdo e o Direito, sequer a olhou. Elinor, Alla e Megga pareciam determinadas a não conhecê-la. Minhas amigas, pensou Sansa amargamente.

Seu esposo bebeu muito e quase não comeu. Escutava sempre que alguém se levantava para fazer um brinde, e às vezes fazia um brusco aceno de apreço, mas fora isso daria para dizer que seu rosto era feito de pedra. O banquete pareceu prolongar-se sem fim, embora Sansa não tivesse provado nada da comida. Queria que aquilo acabasse, e no entanto temia o seu fim. Pois, após o banquete, vinha a noite de núpcias. Os homens iriam levá-la para sua cama nupcial, despindo-a no caminho e fazendo piadas grosseiras sobre aquilo que a aguardava entre os lençóis, enquanto as mulheres prestariam a Tyrion o mesmo serviço. Só depois de serem enfiados nus na cama é que os deixariam sós, e mesmo então os convidados permaneceriam à porta do aposento nupcial, gritando para dentro sugestões obscenas. A noite de núpcias parecera maravilhosamente maliciosa e excitante quando Sansa era garota, mas, agora que o momento estava quase chegando, sentia apenas terror. Não achava que seria capaz de suportar que arrancassem sua roupa, e estava certa de que rebentaria em lágrimas à primeira brincadeira lúbrica.

Quando os músicos começaram a tocar, Sansa apoiou timidamente a mão sobre a de Tyrion e disse:

– Senhor, lideramos o baile?

A boca dele torceu-se.

– Acho que já lhes demos divertimento suficiente para uma noite, não acha?

– Como quiser, senhor. – Retirou a mão.

Em vez deles, Joffrey e Margaery lideraram. Como é possível que um monstro dance de forma tão bela?, perguntou Sansa a si mesma. Tinha sonhado acordada muitas vezes sobre o modo como dançaria em seu casamento, com todos os olhos postos em si e em seu belo senhor. Nos sonhos, estavam todos sorrindo. Nem sequer o meu esposo sorri.

Outros convidados rapidamente se juntaram ao rei e à sua prometida. Elinor dançou com seu jovem escudeiro, e Megga, com o Príncipe Tommen. A Senhora Merryweather, a bela myrana de cabelos negros e grandes olhos escuros, girava tão provocantemente que em pouco tempo todos os homens presentes no salão a observavam. O Senhor e a Senhora Tyrell moviam-se mais calmamente. Sor Kevan Lannister pediu a honra à Senhora Janna Fossoway, irmã de Lorde Tyrell. Merry Crane juntou-se aos dançarinos com o príncipe exilado Jalabhar Xho, magnífico em seus adornos de penas. Cersei Lannister fez par primeiro com Lorde Redwyne, depois com Lorde Rowan, e por fim com o próprio pai, que dançava com uma graça fluida e séria.