– Mas...
– Eu disse: vá embora. Senhora.
Arya virou-se e deixou-o ali. Um estúpido bastardo cabeça-dura é o que ele é. Podia tocar todos os sinos que quisesse, ela não queria nem saber.
O quarto deles ficava no topo da escada, abaixo do beiral. No Pêssego, talvez não faltassem camas, mas só havia uma para gente como eles. Era uma cama grande, porém. Enchia o quarto quase por completo, e o bolorento colchão estofado de palha parecia suficientemente grande para acomodá-los todos. Por enquanto, no entanto, tinha-o todo para si. Sua roupa de verdade estava pendurada em um gancho na parede, entre as coisas de Gendry e as de Limo. Arya despiu o linho e a renda, enfiou a túnica pela cabeça, subiu para a cama e enterrou-se sob as mantas.
– Rainha Cersei – sussurrou para a almofada. – Rei Joffrey, Sor Ilyn, Sor Meryn. Dunsen, Raff e Polliver. Cócegas, Cão de Caça e Sor Gregor, a Montanha. – Às vezes gostava de embaralhar a ordem dos nomes. Isso ajudava-a a recordar quem eram e o que tinham feito. Alguns talvez estejam mortos, pensou. Talvez, em algum lugar, estejam dentro de gaiolas de ferro, e os corvos estejam bicando seus olhos.
O sono chegou assim que fechou os olhos. Nessa noite, sonhou com lobos, caçando em uma floresta úmida com um pesado cheiro de chuva, putrefação e sangue no ar. Mas, no sonho, eram cheiros bons, e Arya sabia que nada tinha a temer. Era forte, ligeira e feroz, e a sua matilha rodeava-a, seus irmãos e suas irmãs. Perseguiram juntos um cavalo assustado, rasgaram sua garganta e banquetearam-se. E quando a lua surgiu entre as nuvens, jogou a cabeça para trás e uivou.
Mas, quando o dia chegou, acordou com o ladrar de cães.
Arya sentou-se, bocejando. Gendry agitava-se à sua esquerda e Limo Manto Limão roncava sonoramente à direita, mas os latidos lá fora quase não deixavam que o ouvisse. Deve haver meia centena de cães lá fora. Saiu de debaixo das mantas e saltou por cima de Limo, Tom e Jack Sortudo, até chegar à janela. Quando escancarou as venezianas, o vento, a umidade e o frio jorraram juntos para dentro do quarto. O dia estava cinzento e encoberto. Embaixo, na praça, os cães latiam, correndo em círculos, rosnando e uivando. Era uma matilha, grandes mastins negros, lobeiros esguios e cães pastores pretos e brancos, e raças que Arya não conhecia, animais hirsutos e malhados, com grandes dentes amarelos. Entre a estalagem e a fonte encontrava-se uma dúzia de cavaleiros montados em seus cavalos, observando os homens da cidade que abriam a gaiola do gordo e o puxavam pelo braço até que seu corpo inchado caiu no chão. Os cães caíram sobre ele de imediato, arrancando pedaços de carne de seus ossos.
Arya ouviu um dos cavaleiros rir.
– Aqui está seu novo castelo, maldito bastardo Lannister – disse. – Um tanto compacto para um cara como você, mas não se preocupe, a gente enfia você lá dentro. – Ao seu lado estava sentado um prisioneiro, carrancudo, com várias voltas de corda de cânhamo apertadas ao redor dos pulsos. Alguns dos homens da cidade estavam atirando esterco nele, mas o prisioneiro nem vacilava. – Vai apodrecer nessa gaiola – seu captor gritava. – Os corvos vão comer seus olhos enquanto nós gastamos todo este seu bom ouro Lannister! E quando os corvos acabarem, vamos mandar o que sobrar de você ao seu maldito irmão. Embora eu duvide que ele o reconheça.
O barulho tinha acordado metade do Pêssego. Gendry enfiou-se ao lado de Arya na janela, e Tom aproximou-se por trás deles, nu como no dia em que nasceu.
– Que diabo de gritaria é essa? – Limo protestou da cama. – Um homem tá tentando dormir um pouco, diabos!
– Onde está o Barba-Verde? – perguntou Tom.
– Na cama com a Tanásia – disse o Limo. – Por quê?
– É melhor ir atrás dele. E do Arqueiro também. O Caçador Louco voltou, com mais um homem para as gaiolas.
– Lannister – disse Arya. – Eu ouvi-o dizer Lannister.
– Pegaram o Regicida? – quis saber Gendry.
Lá embaixo, na praça, uma pedra atingiu o cativo no rosto, obrigando-o a virar a cabeça. Não é o Regicida, pensou Arya quando viu seu rosto. Os deuses tinham ouvido as suas preces, afinal.
Jon
Fantasma tinha desaparecido quando os selvagens trouxeram os cavalos da gruta. Terá compreendido o que lhe disse sobre Castelo Negro? Jon inspirou o ar fresco da manhã e permitiu-se ter esperança. O céu oriental mostrava-se rosado perto do horizonte e cinza-claro mais acima. A Espada da Manhã ainda podia ser vista ao sul, com a brilhante estrela branca de seu cabo cintilando como um diamante na alvorada, mas os negros e cinza da floresta sombria estavam se transformando mais uma vez em verdes e dourados, vermelhos e castanhos. E, por cima dos pinheiros marciais, carvalhos, freixos e sentinelas, erguia-se a Muralha, com o gelo branco e de brilho fraco sob a poeira e a terra que manchavam sua superfície.
Magnar mandou uma dúzia de homens para oeste e uma dúzia para leste, a fim de subirem os montes mais altos que conseguissem encontrar e ficarem alerta a qualquer sinal de patrulheiros na floresta ou cavaleiros lá em cima, no gelo. Os Thenns transportavam berrantes de guerra reforçados com bronze, a fim de dar avisos caso a Patrulha fosse avistada. Os outros selvagens seguiram atrás de Jarl, e Jon e Ygritte juntaram-se ao grupo. Aquela seria a hora da glória do jovem corsário.
Dizia-se com frequência que a Muralha se erguia a duzentos metros de altura, mas Jarl havia encontrado um lugar onde era ao mesmo tempo mais alta e mais baixa. À frente deles, o gelo subia abruptamente de entre as árvores como uma imensa falésia, coroada por ameias escavadas pelo vento que se projetavam a pelo menos duzentos e quarenta metros de altura, chegando talvez a duzentos e setenta em alguns locais. Mas, ao aproximar-se, Jon compreendeu como isso era enganoso. Brandon, o Construtor, dispusera os blocos das fundações ao longo dos trechos elevados sempre que possível, e naquela zona os montes subiam bruscos e irregulares.
Certa vez, Jon ouvira o tio Benjen dizer que a Muralha era uma espada a leste de Castelo Negro, mas uma serpente a oeste. Era verdade. Estendendo-se sobre um enorme monte encurvado, o gelo mergulhava num vale, subia o topo escalavrado de uma grande crista de granito ao longo de uma légua, ou mais, percorria uma cumeada irregular, voltava a mergulhar num vale ainda mais profundo e depois subia mais e mais alto, saltando de monte em monte até perder de vista, na direção do oeste montanhoso.
Jarl tinha escolhido escalar a extensão de gelo ao longo da crista. Ali, embora o topo da Muralha se erguesse duzentos e quarenta metros acima do chão da floresta, um bom terço dessa altura era composto por terra e pedra em vez de gelo; a encosta era íngreme demais para os cavalos, uma escalada quase tão difícil quanto o Punho dos Primeiros Homens, mas, apesar disso, muito mais fácil de subir do que a face absolutamente vertical da própria Muralha. E, além disso, a crista também era densamente arborizada, fornecendo fácil cobertura. Em outros tempos, irmãos vestidos de negro saíam todos os dias com machados para cortar as árvores invasoras, mas esses dias tinham ficado para trás havia muito, e ali a floresta crescia bem junto ao gelo.
O dia prometia ser úmido e frio, e mais úmido e frio estaria junto à Muralha, sob aquelas toneladas de gelo. Quanto mais perto chegavam, mais os Thenn se retraíam. Eles nunca tinham visto a Muralha, nem mesmo o Magnar, compreendeu Jon. Assusta-os. Nos Sete Reinos dizia-se que a Muralha marcava o fim do mundo. Isso também é verdade para eles. Tudo dependia do lado em que se estava.
E de que lado estou eu? Jon não sabia. Para ficar com Ygritte, teria de se tornar um selvagem, de alma e coração. Se a abandonasse para retornar ao seu dever, o Magnar poderia arrancar o coração da garota. E se a levasse consigo... partindo do princípio de que ela iria, o que era longe de ser certo... bem, dificilmente poderia levá-la de volta para Castelo Negro, para viver entre os irmãos. Um desertor e uma selvagem não podiam esperar boas-vindas em qualquer parte dos Sete Reinos. Suponho que poderíamos ir à procura dos filhos de Gendel. Muito embora fosse provável que nos comessem em vez de nos darem as boas-vindas.