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Jon via que a Muralha não atemorizava os assaltantes de Jarl. Todos eles já fizeram isso antes. Jarl gritou nomes quando desmontaram sob a crista, e onze homens juntaram-se à sua volta. Todos eram jovens. O mais velho não parecia ter mais de vinte e cinco anos, e dois dos dez eram mais novos do que Jon. Mas eram todos esguios e rijos; aparentavam uma força vigorosa que lhe fazia lembrar Cobra das Pedras, o irmão que Meia-Mão enviara a pé quando Camisa de Chocalho andava no encalço deles.

Bem à sombra da Muralha, os selvagens fizeram os preparativos, enrolando grossas voltas de corda de cânhamo em um ombro e cruzando o peito, e amarrando estranhas botas de pele de corça de veado. As botas tinham espigões que se projetavam de suas pontas; de ferro para Jarl e outros dois, bronze para alguns, mas era mais frequente serem de osso denteado. Pequenos martelos com cabeça de pedra estavam pendurados em uma anca, e um saco de couro cheio de estacas em outra. Seus machados de gelo eram chifres com pontas aguçadas, atadas com faixas de couro cru a cabos de madeira. Os onze alpinistas agruparam-se em três equipes de quatro homens; o próprio Jarl era o décimo segundo.

– Mance promete espadas para cada membro da primeira equipe a atingir o topo – disse-lhes, com o hálito se condensando no ar frio. – Espadas sulistas de aço forjado em castelo. E também seu nome na canção que vai escrever a respeito disso. O que mais pode um homem livre pedir? Para cima, e que os Outros carreguem os últimos!

Que os Outros carreguem todos eles, pensou Jon, enquanto os observava subindo a íngreme encosta da crista e desaparecendo sob as árvores. Não seria a primeira vez que selvagens escalavam a Muralha, nem sequer a centésima primeira. As patrulhas tropeçavam em alpinistas duas ou três vezes por ano, e às vezes os patrulheiros encontravam os cadáveres estraçalhados daqueles que caíam. Ao longo da costa oriental era mais frequente os corsários construírem barcos para se esgueirarem através da Baía das Focas. No oeste, desciam até as profundezas negras da Garganta para seguir caminho em volta da Torre Sombria. Mas entre esses dois pontos, a única forma de derrotar a Muralha era saltar por cima dela, e muitos atacantes tinham feito isso. São menos os que voltam, porém, pensou, com certo orgulho cruel. Os alpinistas eram obrigados a deixar os cavalos para trás, e muitos dos atacantes mais jovens e inexperientes começavam roubando os primeiros cavalos que encontravam. Então era dado o alarme, corvos levantavam voo, e geralmente a Patrulha da Noite apanhava-os e enforcava-os antes de conseguirem voltar com o saque e as mulheres raptadas. Jon sabia que Jarl não cometeria esse erro, mas não tinha certeza quanto a Styr. O Magnar é um governante, não um corsário. Ele pode não saber como o jogo é jogado.

– Ali estão eles – disse Ygritte, e Jon olhou para cima e viu o primeiro alpinista surgindo por cima das copas das árvores. Era Jarl. Encontrara uma árvore sentinela que se inclinava para a Muralha e levou seus homens pelo tronco, para obter uma partida mais rápida. Nunca deviam ter permitido que a floresta chegasse tão perto. Estão a noventa metros de altura e ainda nem tocaram no gelo propriamente dito.

Viu o selvagem passar cuidadosamente da árvore para a Muralha, esculpindo um apoio para a mão com golpes curtos, mas precisos, do seu machado de gelo, e depois apoiando-se nele. A corda que tinha em volta da cintura prendia-o ao segundo homem da fila, que ainda vinha subindo a árvore. Passo a passo, lentamente, Jarl foi subindo, abrindo apoios para os pés com as botas guarnecidas de espigões quando não conseguia encontrar apoios naturais. Ao chegar a três metros acima da sentinela, parou numa estreita saliência de gelo, pendurou o machado no cinto, puxou o martelo e espetou um espigão de ferro em uma fenda. O segundo homem passou para a Muralha atrás dele enquanto o terceiro escalava até o topo da árvore.

As outras duas equipes não tinham árvores dispostas favoravelmente para lhes ajudar, e não demorou muito até os Thenn começarem a se perguntar se não teriam se perdido ao escalar a crista. Todo o grupo de Jarl já se encontrava na Muralha, a vinte e cinco metros de altura, quando os primeiros alpinistas dos outros grupos surgiram à vista. As equipes estavam espaçadas por cerca de vinte metros. Os quatro de Jarl seguiam pelo centro. À sua esquerda, subia uma equipe liderada por Grigg, o Bode, cuja longa trança loura tornava facilmente detectável de baixo. À esquerda, quem liderava os alpinistas era um homem muito magro chamado Errok.

– Tão devagar – lamentou-se o Magnar em voz alta enquanto observava o avanço dos outros. – Será que ele se esqueceu dos corvos? Devia subir mais depressa, antes de sermos descobertos.

Jon teve de controlar a língua. Lembrava-se bem demais do Passo dos Guinchos, e da escalada ao luar que havia feito com Cobra das Pedras. Naquela noite engolira o coração meia dúzia de vezes e, ao final, doíam seus braços e pernas e os dedos estavam meio congelados. E aquilo era pedra, não gelo. A pedra era sólida. O gelo era uma coisa traiçoeira na melhor das hipóteses e, num dia como aquele, quando a Muralha chorava, o calor da mão de um alpinista podia ser o suficiente para derretê-lo. Os enormes blocos podiam estar gelados e duros como pedra no interior, mas a superfície exterior estaria escorregadia, com fiozinhos de água escorrendo e manchas de gelo deteriorado onde o ar tinha penetrado. Sejam os selvagens o que forem além disso, são corajosos.

Mesmo assim, Jon viu-se desejando que os temores de Styr tivessem fundamento. Se os deuses forem bons, uma patrulha aparecerá por acaso e porá fim nisso.

– Nenhuma muralha pode mantê-lo em segurança – dissera-lhe o pai uma vez, enquanto percorriam as muralhas de Winterfell. – Uma muralha tem apenas a força dos homens que a defendem. – Os selvagens podiam ter cento e vinte homens, mas quatro defensores seriam suficientes para botá-los para correr, com algumas flechas bem colocadas e talvez um balde de pedras.

Mas não apareceram defensores; nem quatro, nem sequer um. O sol subiu no céu e os selvagens subiram a Muralha. Os quatro de Jarl mantiveram-se bem adiantados até o meio-dia, quando atingiram uma extensão de gelo em mau estado. Jarl tinha enrolado a corda em volta de um pináculo esculpido pelo vento e o estava usando para suportar seu peso quando, de repente, ele ruiu por inteiro e se precipitou para o chão, com Jarl ainda preso. Fragmentos de gelo do tamanho da cabeça de um homem bombardearam os três que estavam embaixo, mas eles agarraram-se aos apoios para as mãos, as estacas aguentaram, e Jarl parou bruscamente na ponta da corda.

Quando sua equipe recuperou-se desse azar, Grigg, o Bode, estava quase emparelhado com eles. Os quatro de Errok continuavam muito atrás. A área que estavam subindo parecia lisa e sem buracos, coberta por uma película de gelo derretido que mostrava um brilho úmido onde o sol a roçava. A seção de Grigg parecia mais escura, com traços mais evidentes; longas saliências horizontais onde um bloco havia sido mal posicionado sobre aquele que estava por baixo, rachaduras e fendas, e até mesmo chaminés ao longo das juntas verticais, onde o vento e a água tinham escavado buracos suficientemente grandes para um homem se esconder.

Em pouco tempo Jarl tinha seus homens de novo a subir. Os seus quatro e os de Grigg deslocavam-se quase lado a lado, com os de Errok quinze metros abaixo. Machados de chifre de veado picavam e cortavam, enviando nuvens de cintilantes estilhaços em longas cascatas que caíam sobre as árvores. Martelos de pedra enfiavam estacas no gelo profundamente, para que servissem de fixação para as cordas; as estacas de ferro esgotaram-se antes de chegarem no meio do caminho e, depois disso, os alpinistas usaram chifres e ossos afiados. E os homens chutavam, batendo com os espigões de suas botas contra o gelo duro e resistente, uma e mais outra vez, e outra e outra ainda, até fazerem um apoio para os pés. Eles devem estar com as pernas dormentes, pensou Jon depois de quatro horas. Quanto tempo mais conseguirão continuar com aquilo? Observou tão inquieto quanto o Magnar, com o ouvido atento ao gemido distante de um berrante de guerra Thenn. Mas os berrantes mantiveram-se em silêncio, e não surgiu sinal da Patrulha da Noite.