Tinha a garganta tão inflamada que não podia comer, mas bebia vinho quando davam, e água quando não havia alternativa. Uma vez deram-lhe uma taça, e ele esvaziou-a de um trago só, tremendo, e os Bravos Companheiros estouraram em gargalhadas tão roucas e sonoras que deixaram seus ouvidos doendo.
– Isso que você tá bebendo é mijo de cavalo, Regicida – disse-lhe Rorge. Jaime tinha tanta sede que bebeu mesmo assim, mas depois vomitou tudo. Obrigaram Brienne a lavar o vômito da barba dele, tal como a obrigavam a limpá-lo quando se sujava na sela.
Numa manhã fria e úmida em que estava se sentindo ligeiramente mais forte, foi tomado por um ataque de loucura, estendeu a mão esquerda para a espada do dornês e arrancou-a desajeitadamente da bainha. Não me importa que me mate, pensou, desde que morra lutando, de espada na mão. Mas não deu certo. Shagwell veio contra ele pulando com uma perna de cada vez, dançando agilmente para o lado quando Jaime lhe lançava estocadas. Desequilibrado, cambaleou em frente, brandindo violentamente a espada na direção do bobo, mas Shagwell girou, abaixou-se e fugiu até deixar todos os Saltimbancos rindo das tentativas fúteis de Jaime para atingi-lo. Quando tropeçou numa pedra e caiu de joelhos, o bobo saltou diante dele e pregou um beijo úmido no topo de sua cabeça.
Por fim, Rorge afastou-o com um empurrão e, com um pontapé, arrancou a espada dos fracos dedos de Jaime quando este tentou erguê-la.
– Iffo foi divertido, Regifida – disse Vargo Hoat –, maf fe voltar a tentar, corto fua outra mão, ou talvef um pé.
Jaime ficou deitado de costas depois, fitando o céu noturno, tentando não sentir a dor que serpenteava seu braço direito acima sempre que o movia. A noite estava estranhamente bela. A lua era um gracioso crescente, e parecia que nunca tinha visto tantas estrelas. A Coroa do Rei encontrava-se no zênite, e via o Garanhão empinando-se, e ali o Cisne. A Donzela da Lua, tímida como sempre, estava meio escondida atrás de um pinheiro. Como uma noite como esta pode ser bela?, perguntou a si mesmo. Por que as estrelas olhariam para alguém como eu?
– Jaime – sussurrou Brienne, tão baixo que pensou que sonhava. – Jaime, o que está fazendo?
– Estou morrendo – murmurou de volta.
– Não – disse ela –, não, tem de sobreviver.
Aquilo deu-lhe vontade de rir.
– Pare de me dizer o que fazer, garota. Eu morro se quiser.
– É assim tão covarde?
A palavra chocou-o. Ele era Jaime Lannister, um cavaleiro da Guarda Real, era o Regicida. Nunca homem algum o chamara de covarde. Chamavam-no de outras coisas, sim; perjuro, mentiroso, assassino. Diziam que era cruel, traiçoeiro, imprudente. Mas covarde, nunca.
– O que posso fazer além de morrer?
– Viver – disse ela –, viver, lutar e procurar vingança. – Mas falou alto demais. Rorge ouviu sua voz, embora não as palavras, e veio chutá-la, gritando-lhe que segurasse a língua se quisesse ficar com ela.
Covarde, pensou Jaime, enquanto Brienne lutava para abafar os gemidos. Será? Roubaram-me a mão da espada. Isso era tudo que eu era, uma mão de espada? Pela bondade dos deuses, será verdade?
A garota tinha razão. Não podia morrer. Cersei esperava-o. Devia sentir falta dele. E Tyrion, seu irmão mais novo, que o amava devido a uma mentira. E seus inimigos também esperavam; o Jovem Lobo, que o derrotara no Bosque dos Murmúrios e matara os homens que o rodeavam, Edmure Tully, que o mantivera em trevas e correntes, estes Bravos Companheiros.
Quando a manhã chegou, obrigou-se a comer. Deram-lhe ração de aveia, comida de cavalo, mas forçou-se a engolir todas as colheradas. Voltou a comer ao cair da noite, e no dia seguinte também. Viva, disse rudemente a si próprio quando a ração parecia prestes a levá-lo ao vômito, viva por Cersei, viva por Tyrion, viva para a vingança. Um Lannister sempre paga as suas dívidas. A mão que não tinha latejava, ardia e fedia. Quando chegar a Porto Real, mandarei forjar uma mão nova, uma mão de ouro, e um dia vou usá-la para rasgar a goela de Vargo Hoat.
Os dias e as noites fundiram-se num incêndio de dor. Dormia na sela, encostado em Brienne, com o nariz cheio do fedor da mão em putrefação, e depois à noite ficava desperto, deitado no chão duro, preso num pesadelo acordado. Apesar de muito fraco, prendiam-no sempre a uma árvore. Dava-lhe um certo consolo frio saber que o temiam tanto assim, mesmo agora.
Brienne ficava sempre amarrada a seu lado. Ficava deitada com as suas cordas como uma grande vaca morta, sem dizer uma palavra. A garota construiu uma fortaleza dentro de si. Devem estuprá-la em breve, mas não podem tocar nela atrás dessas muralhas. Porém, as muralhas de Jaime tinham desaparecido. Tinham-lhe tirado a mão, tinham-lhe tirado a mão da espada, e sem ela não era nada. A outra de nada lhe servia. Desde que aprendera a andar, seu braço esquerdo era o braço do escudo e nada mais. Era a mão direita que fazia dele um cavaleiro; o braço direito que tinha feito dele um homem.
Um dia, ouviu Urswyck dizer qualquer coisa a respeito de Harrenhal, e lembrou-se de que era esse o destino do grupo. Isso fez Jaime rir em voz alta, e isso fez com que Timeon golpeasse seu rosto com um chicote longo e estreito. O corte sangrou, mas comparado com a mão, quase não o sentiu.
– Por que você riu? – perguntou a mulher naquela noite, num sussurro.
– Foi em Harrenhal que me deram o manto branco – sussurrou em resposta. – No grande torneio do Whent. Quis mostrar a todos nós o seu grande castelo e os seus belos filhos. Eu também quis lhes mostrar umas coisas. Só tinha quinze anos, mas ninguém conseguiria me derrotar naquele dia. Aerys não me deixou participar da justa. – Voltou a rir. – Mandou-me embora. Mas agora estou de volta.
Eles ouviram o riso. Naquela noite foi Jaime quem recebeu os pontapés e murros. Também pouco os sentiu, até que Rorge avançou com a bota contra o coto, e então o prisioneiro desmaiou.
Foi na noite seguinte que finalmente apareceram os três piores; Shagwell, Rorge sem nariz e o gordo dothraki Zollo, aquele que tinha cortado sua mão. Zollo e Rorge discutiam sobre quem seria o primeiro enquanto se aproximavam; parecia não haver qualquer dúvida de que o bobo seria o último. Shagwell sugeriu que podiam ir os dois primeiro e tomá-la pela frente e por trás. Zollo e Rorge gostaram da ideia, mas então começaram a discutir sobre quem ficaria com a frente e quem iria por trás.
Também vão deixá-la mutilada, mas por dentro, onde não se vê.
– Garota – sussurrou enquanto Zollo e Rorge xingavam um ao outro –, deixe-os ficar com a carne, e vá para longe. Terminará mais depressa, e eles obterão menos prazer do ato.
– Eles não vão obter prazer nenhum daquilo que vou lhes dar – murmurou em resposta, desafiadora.
Estúpida cadela teimosa e corajosa. Sabia que ela ia acabar se levando à morte. E que me importa que morra? Se não tivesse sido tão cabeça-dura, eu ainda teria uma mão. E no entanto, ouviu-se sussurrando:
– Deixe que façam o que querem e retire-se para dentro. – Foi o que fizera quando os Stark morreram na sua frente, Lorde Rickard cozinhando dentro de sua armadura enquanto o filho Brandon se estrangulava na tentativa de salvá-lo. – Pense em Renly, se o amava. Pense em Tarth, em montanhas e mares, lagoas, cascatas, seja o que for que tenha na sua Ilha Safira, pense...
Mas, a essa altura, Rorge já tinha ganhado a discussão.
– É a mulher mais feia que eu já vi – disse a Brienne –, mas não ache que não posso deixá-la mais feia ainda. Quer um nariz como o meu? Lute, e fica com um. E dois olhos são demais. Um grito vindo de você e arranco um e obrigo você a comê-lo, e depois arranco a merda dos seus dentes um a um.
– Oh, faça isso, Rorge – pediu Shagwell. – Sem os dentes, ela fica bem parecida com a minha querida mãe. – Soltou um cacarejo. – E eu sempre quis foder a minha querida mãe pelo cu.